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UM FILME DE TERROR PARA VER E REVER

UM FILME DE TERROR PARA VER E REVER

               Embora não seja e não pretenda ser crítico de cinema, escrevo aqui este breve comentário, ainda impactado com os vários nuances do clássico: “À meia-noite levarei sua alma”, do exótico José Mojica Marins, o famoso nacional e internacionalmente Zé do Caixão . Devo dizer que nunca gostei de filmes de terror e continuo não gostando, para falar a verdade, só fui ao Teatro de Cultura Popular para entender por que um filme como aquele estava relacionado na I Mostra do Filme Cult, promovida pelo Cine Clube Natal.É evidente que a surpresa foi total, dada a minha ignorância, e por que não dizer, pelos equívocos que formatei a partir de algumas entrevistas que vi em programas sensacionalistas de auditório, concedidas pelo José Mojica, ou melhor, pelo Zé do Caixão. O  fato é que se na entrada eu me questionava sobre o ato de pagar para ver tal filme, ao seu final, aplaudi-o entusiasmado e tive vontade de pagar outra vez. O filme naturalmente justifica todo o meu entusiasmo, eu é que não suspeitava.
                     Em primeiro lugar e não digo nada de novo, é de se destacar o pioneirismo do Mojica, trazendo às telonas no ano de 1965,  um filme brasileiro que se enquadra pela primeira vez no gênero do terror; gastando nele tudo o que dispunha, num ato de coragem e inquestionável ousadia, só reservadas aos loucos e aos gênios, e foi como gênio que o definiu Stanislaw Ponte Preta; em segundo lugar, não bastasse dirigir o filme, a sua atuação como protagonista é simplesmente impecável, canalizando o olhar do telespectador para a sua atuação, quase que num processo hipnótico. Jamais na história do cinema mundial fora concebido um personagem “coveiro” que tivesse tanta força como protagonista. Zé do Caixão destaca-se pela inteligência, com tiradas irônicas e com questionamentos iconoclásticos que perpassam todo o filme e que são absolutamente atuais, o que torna o filme antológico. Surpreendente, para quem já ouviu o Mogica em entrevistas, é o cuidado com a linguagem, pois o nada simplório Zé do Caixão esmera-se num falar culto, digno de um verdadeiro aristocrata; pela linguagem (informação) e pela força bruta, ele domina a todos na pacata cidadezinha interiorana. A excentricidade do personagem é um dos pontos autos do filme, basta atentar para a decoração de sua residência, bem mais próxima da de um artista plástico surrealista, do que para a de um simples coveiro. Se alguns recursos técnicos parecem risíveis para os dias atuais, dada a parafernália tecnológica de que dispões hoje os diretores de cinema, Mojica consegue efeitos interessantes, como o do close em sua pupila, momentos antes de assassinar suas vítimas. Mas não é pelo aspecto formal ou técnico, que o filme tanto me impressionou, mas sobretudo pelo que se propôs a discutir nele, é a semântica do filme que em última análise me interessa, e sobre o quê destaco apenas alguns pontos: Zé do Caixão revela-se um agnóstico ou cético, desafia deuses e diabos e duvida da existência da alma, ora, até mesmo para os dias atuais, num país eminentemente religioso, posicionar-se assim é coisa para quem tem muito peito, e a conseqüência de sua ousadia foi a perseguição promovida pela igreja na época do lançamento do filme; ademais, criticou e contrapôs-se diretamente aos dogmas consagrados pela igreja católica, como a abstinência de comer carne, nos chamados dias santos; trouxe à tona outro tema pouco tratado na história do cinema, a superstição, que aliás é outra marca registrada do povo brasileiro. Ignorou a cigana e sua previsões, embora tenha sucumbido a elas ao fim e ao cabo.
                Destaco ainda a discussão da imortalidade, que para o Zé, só era possível através da continuação da espécie aqui na terra, sem qualquer idéia metafísica, daí porque foi às últimas conseqüências em sua obsessão de gerar um filho perfeito que continuasse a sua linhagem, o seu sangue. A imortalidade é tratada sob o ponto de vista terreno, ou seja, pela obra aqui realizada, sem brechas para ressurreições, reencarnações, nirvanas etc,etc. É claro que todas estas discussões, em geral passa ao largo das discussões entre os cinéfilos ou não, e foi exatamente o que constatei, quando terminada a exibição, os experts não foram além do plano técnico do filme, apontando este ou aquele defeito de produção. Digo por fim, como mero expectador, que se Mojica tivesse produzido apenas este filme, já teria o seu lugar ao sol na historiografia cinematográfica mundial.
Marcos Cavalcanti
Enviado por Marcos Cavalcanti em 15/10/2007
Código do texto: T695132

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Sobre o autor
Marcos Cavalcanti
Santa Cruz - Rio Grande do Norte - Brasil, 44 anos
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