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O último samurai

O ÚLTIMO SAMURAI

O filme de Edward Zwick, tendo como protagonista Tom Cruise, é um mergulho na cultura japonesa por um ocidental á semelhança de SHOGUN, obra prima de Akiro Kurosawa.
Mas, diferentemente deste, é um americano ferido, herói de guerra e arrogante, que se defronta com valores distintos do seu.
O capitão Nathan Algren, interpretado por Cruise, sobrevive fazendo propaganda de armas  em apresentações circenses, depois de servir sob o comando do general Custer na Guerra Civil Americana. Numa destas, bêbado, momentos antes da apresentação, num lampejo de memória, reconhece a barbárie que praticava. Contratado para treinar tropas japonesas, dentro do programa Meiji (1894-1912) de modernização do país, combate contra uma tropa de samurais de Katsumoto e após ser ferido, é levado como prisioneiro. Os samurais de Katsumoto, antigo conselheiro do Imperador, eram o último foco de resistência ás medidas modernizantes impostas pelo governo Meiji. O pouco treinamento dos soldados do Imperador com as armas de fogo e as formações ensinadas por Algren se transformam em derrota ante a maestria no uso das armas brancas pelos samurais. Antes de sua captura, porém, luta bravamente contra quatro samurais e mata um deles, no momento que iria receber o golpe de misericórdia, já no chão. Esse samurai era o segundo na hierarquia do grupo de Katsumoto. Na aldeia samurai, Algren é tratado por Taka, irmã de Katsumoto e viúva do samurai morto por ele.
Na sua recuperação, Algren tem pesadelos da sua vida como militar sob o comando de Custer. Contudo, não é tratado como prisioneiro e passa a conviver com os samurais no seu dia-dia e aos poucos vai assimilando seus costumes e código de guerreiro-o Bushido. Para um ocidental norte-americano era difícil aceitar o modo de vida e o código de conduta samurai, assim como vice-versa, e pela coragem demonstrada em duelos de espada( com Bokuto) , Algren vai conquistando a confiança dos samurais de Katsumoto. Este exige o convívio com o americano, não como prisioneiro e sim como uma maneira de conhecer seu inimigo.
A presença do código do Bushido em Algren aos poucos vai se mostrando real á medida que o convívio aumenta. O modo de viver dos samurais vai se impondo ao modo ocidental de Algren e este começa a entender o significado de honra, morrer com honra, lealdade, sacrifício e o por quê do Haraquiri ou Seppuku.
Entenda-se, como mero meio de comunicação entre as culturas ocidental e a oriental, o inglês de Katsumoto. Na realidade os samurais eram na sua maioria praticamente analfabetos, pois dedicavam toda a sua vida ao Bushido. Mas não seria de todo falso acreditar-se na fluência do samurai na língua inglesa numa cultura fechada até os primórdios do século XX. O Japão, com a dinastia Meiji, começava a abrir-se ao mundo com as naturais imposições comerciais dos países mais influentes naquela quadra histórica. Os americanos, com seu espírito belicoso, tentavam literalmente empurrar suas modernas armas- metralhadoras, morteiros, canhões- aos japoneses.
O que parecia pouco provável torna-se realidade: Algren, mesmo recontratado impositivamente pelo Governo japonês, não luta contra os samurais de Katsumoto. O combate é fruto de desentendimento entre o conselheiro e o Imperador , quando este não quis receber a Katana do leal samurai ensejando abster-se de combater áquele que servia .
 A tropa de samurais é destroçada pelas modernas metralhadoras adquiridas e manejadas, agora com precisão, pelos soldados do Imperador comandados por Bagley, tenente coronel norte-americano superior de Algren na Guerra Civil.
Morrer com honra é o que desejava Katsumoto e pratica o ritual do Seppuku no campo de batalha após a derrota de sua tropa assistido por Algren. Seu corpo é reverenciado por todos os soldados japoneses presentes no combate.
No palácio imperial o adido norte americano cobra do Imperador o acordo de compra das armas quando, cambaleante devido as chagas do combate recente, Algren entra no recinto e entrega, cerimoniosamente,  a Katana de Katsumoto ao Imperador. Após a sua saída, o Imperador desfaz o acordo com os americanos ensejando que o povo japonês deve manter-se aberto á modernidade, mas não deve esquecer-se de quem foi e era, no caso, o seu espírito de samurai deveria ser mantido. E é esta, justamente, a lição passada pelo filme, tão bem expressa na ação do Imperador ante a agressividade do embaixador norte-americano: devemos crescer, modernizar o país, mas sem subjugar-se a interesses estranhos e , principalmente, olhando o passado como fonte inspiradora para a arremetida ao futuro.
O governo Meiji decretou literalmente o fim dos samurais, mas seu código de conduta ainda sobrevive adaptado ao tempo. O próprio Seppuku já não era mais praticado assim como na evolução do treinamento, ainda no período de Myiamoto Musashi(1584-1645), substituiu-se a espada pelo Bokuto, uma espada de madeira, porque muitos mestres estavam sendo mortos em combates de treinamento. A Arte da espada ou I AI JUTSU, evoluiu, mas não perdeu sua essência de transmitir, não uma luta simplesmente, mas o código de conduta eterno dos samurais, os guerreiros guardiões do Japão por quase um milênio.
Os samurais eram a parte superior de um conjunto de quatro castas no Japão- a seguir tinha-se os artesãos, os agricultores e os comerciantes.
Máximas do Bushido são apresentadas desde o primeiro ato que chocou Algren: o corte da cabeça do general japonês que não quis lutar contra Katsumoto e teve de praticar o Seppuku, tendo esse como padrinho, ou seja, responsável por cortar-lhe a cabeça após o ato cerimonial de suicídio. Esta cena repetia a acontecida em SHOGUN, logo nas primeiros momentos: o Shogun corta a cabeça de um samurai que não o havia reverenciado, pois não havia respeitado a hierarquia. Como me disse um monge budista ao solicitar-lhe explicações, em 1984 durante a série na TV sobre esse procedimento me respondeu  ...” não baixou a cabeça, perdeu a cabeça....”
A formação do samurai era realizada desde criança e as famílias samurais tinham vital importância. Cedo iam para o combate, aproximadamente entre 15/16 anos e se iniciavam nas técnicas e no caminho do Guerreiro desde cedo, portanto.
Deveria conscientizar-se de que a morte era certa e deveria enfrentá-la com a mais absoluta serenidade. Só poderia ser considerado samurai quando atingisse as duas Ordens e as Quatro divisões do Bushido. Nelas teria a total compreensão do Justo e do Injusto e, considerando que sua Katana era a projeção da sua Alma,e  não era desembainhada sem motivo nem embainhada sem honra, o seu uso ia na direção da aplicação da justiça.
A lição que o oficial norte-americano Nathan Algren deveria ter aprendido era lutar movido  pelo propósito,  como faziam os SAMURAIS.

O filme hollywoodiano foi inspirado na revolta dos samurais contra o governo japonês que os privou de suas espadas em 1876. Liderados por Saigo Takamori, um dos samurais que derrubaram o xogunato de Tokugawa em 1867, restaurando o governo Imperial, deflagram violentos combates até serem destroçados pela artilharia moderna adquirida pelo governo para modernizar as forças armadas. As reformas atingiram em cheio os samurais, tendo Saiko, que  passara a ser  conselheiro do governo Meiji se desgostado com a rejeição de sua proposta de guerra contra a Coréia em 1873  e deixa o governo montando uma escola de samurais atraindo inúmeros samurais descontentes. O último combate se dá depois de um ataque samurai a um arsenal do exército. Takamori pratica o seppuku , mas depois é perdoado e considerado herói pelo Imperador Meiji.
FLAVIO MPINTO
Enviado por FLAVIO MPINTO em 01/02/2006
Reeditado em 11/06/2006
Código do texto: T107000

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Sobre o autor
FLAVIO MPINTO
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 65 anos
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