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É sempre bom rir de argentino (Não é você, sou eu)

Finalmente saí para assistir coisa nova. E como tem filme interessante por aíi!

No circuito alternativo, esta semana estrearam no Brasil, Bonecas Russas (Les Poupées Russes) de Cédric Klapisch que, conforme li num jornal, é uma continuação de O Albergue Espanhol (sobre o qual eu não faço a mínima idéia do que se trata mas, com esse título, deve ser bom...) e foi vencedor do “Cesar 2006” - o “Oscar” francês – de Melhor Atriz Coadjuvante (De France); Manual de Amor (Manuale D’Amore), de Gionanne Veronesi, indicado a 12 Prêmios David di Donatello - o “Oscar” italiano -; e, finalmente, o objeto de nosso comentário semanal: Não É Você, Sou Eu (No sos vos, soy yo) de Juan Taratuto com Diego Peretti, Soledad Villamil, Cecilia Dopazo, Hernán Jiménez, indicado como Melhor Filme Argentino de 2005 pela Associação de Críticos da Argentina (seria isso um “Oscar” dos argentinos?)

No filme temos o narigudo Javier (cara, é enorme a napa da criatura!) e uma charmosa Maria, jovem casal argentino que há dois anos enfrentam as doçuras e agruras da convivência entre um homem e uma mulher.

Por causa da escassez de oportunidades, decorrente da crise argentina do início da década, Maria deseja sair de Buenos Aires. Javier, cirurgião conceituado, está disposto a embarcar numa mudança completa de vida junto com (e até certo ponto, por causa de) sua amada.

Os dois decidem tentar uma nova vida em Miami e, pra isso, casam-se meio que às pressas. Ela segue na frente pra “reconhecer terreno” enquanto ele fica sepultando o que ficará pra trás: demite-se do emprego, devolve a casa alugada, vende o carro, enfim, investe tudo naquela que seria a maior empreitada de sua vida.

Mala pronta, a menos quinze minutos de chegar ao aeroporto e Maria lhe telefona: “Olha, eu estou um pouco confusa... umas coisas aqui dentro... Não, não me pressione... Estou estranha, sentindo umas mudanças internas... profundas, entende? Não sei se tenho certeza de que quero que você venha... Você é tão bom pra mim. Eu sou uma hija de puta.”

E o que vem depois disso? Infelizmente e mesmo sem querer acreditar, Javier sabe: “querido, não é você, sou eu...”. E, voilá! Diga adeus à vida como a conheceu...

Não é fácil acostumar-se sem Maria. Num minuto, esposa, casa, emprego, carro... no outro, tudo por água a baixo, Javier, então, começa a tentar entender onde foi que falhou - sim, porque esse papo de "não é você, sou eu", na verdade, quer dizer "olha, você não serve porque eu mereço coisa melhor" – e nessa tentativa, desaba numa obsessiva depressão.

Entre o colo de um amigo, a cadeira de um psiquiatra, passeios pela praça, visitas a um petshop onde tem aquela vendedora simpatissíma meio atrapalhada (ih, vocês já sabem onde isso vai dar...), Javier descobre que esse negócio de relacionamentos é um troço muito esquisito em que todos perdem e alguns ganham... ou não, como diria Caetano.

O tema é o recomeço. Desempregado, tendo que voltar a morar com os pais, auto-estima destruída, Javier precisa aprender a lidar menos com a ausência de Maria que com sua incapacidade de guiar sua própria vida.

E vocês podem estar pensando agora: É-gu-á do dramalhão portenho! É, mais a verdade é que, embora esteja focada em dramas mais intensos, a película apresenta um clima cômico ritmado por muita ironia, um tanto quanto previsível, é bem verdade...

Mas, se não fosse assim, não seria uma boa comédia romântica, não é mesmo? Pois é, é uma comédia romântica. E isso chama atenção. Quer dizer, eu não lembro de outro bom filme do gênero produzido pelos hermanos ultimamente (se lembrar, por favor, avise...). Bom, fato é que dá pra dar algumas boas risadas sim.

Taratuto explicita bem as micro-angustias diárias de seu protagonista com leves pinceladas de humor. Há quem diga que o diretor foi nitidamente influenciado por Woody Allen. E não sem razão: a trama e o Javier são bem ao estilo do cineasta americano... os conflitos são semelhantes e coisa e tal...

Humor inteligente. Um belo filme... não sei se seria merecedor de um Oscar. É, talvez se o Oscar for argentino quem sabe, não é?... É, mas acho que lá eles não têm um Oscar... Enfim, o filme é legal.  Espero que chegue a Belém.

(publicado no Portal CUltura de Comunicação disponivel em: http://www.portalcultura.com.br/clube/cinema/colunistas.php?id=57)
Harley Dolzane
Enviado por Harley Dolzane em 10/04/2006
Reeditado em 14/04/2006
Código do texto: T136861
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Sobre o autor
Harley Dolzane
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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