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Olga

Olga
 ou dize-me com quem andas e te direi quem és.
Por FlavioMPinto

Decidi escrever algo sobre essa senhora quando li que está sendo planejado um filme sobre sua vida. Já em fase adiantada de produção, buscam-se os atores. O diretor será o “global” Jaime Monjardim, um dos melhores que temos, caracterizado pela liderança com que conduz seus trabalhos televisivos e excelência das imagens dos seus produtos.
Apesar de acreditar na competência jornalística do diretor, temo, assim como  aconteceu na minissérie A CASA DAS SETE MULHERES, uma deturpação do real a título de melhor contar a história.
De fato, e por semelhança ao que está acontecendo com a minissérie, a divulgação do Rio Grande turístico é  fantástica.
Mas como declarou o Secretário de Turismo do Estado, Luís Augusto Lara, “Ou a gente cola nessa minissérie ou não vai passar apenas um , mas uma tropa de cavalos encilhados na nossa frente”  e complementa dizendo “que é a melhor divulgação que o Rio Grande já teve em todos os tempos” ( ZH-12/03/03). E este é o fator preocupante neste momento: o de colocar em mausoléu de ouro uma mulher que veio ao nosso país para conspirar contra ele a soldo do movimento comunista internacional. As críticas contundentes a apresentação de alguns personagens, caricaturando-os ridiculamente, na realidade deformando-os, tal como foi( ou está) sendo feito com Canabarro em nome de melhor apresentar a trama, é o ponto da questão.
Preocupa, e aí ocorre o perigo, pois quem não conhece como foi, e é, a articulação do movimento comunista internacional cada vez mais vivo, não pode ter a exata dimensão do trabalho executado por Olga: sua exata inserção na máquina ideológica que veio para desestabilizar o Brasil recém saído da Proclamação da República.
Apesar de nestes tempos bicudos, como diria o saudoso Mario Quintana, termos  pessoas com o perfil  de Olga no 1º escalão do governo, ou seja, treinados no exterior para conspirar dentro do nosso país e contra ele em missões de espionagem, assassinatos, seqüestros, sabotagem, roubos, e etc.., agora com a faca e o queijo na mão, chegando ao ponto de um deles , a mulher só saber seu verdadeiro nome após 4 anos de casado. Até então usava codinome. Vejam só a que ponto chegou: até no casamento e para a própria mulher. Se faz, ou fez isso, com a família, terá pena de você, pacato cidadão? Ou do país?
Não precisamos gastar fosfato para avaliar o que já tem sido feito desde que assumiram a máquina governamental. E não é só no governo atual e se sabe já vem de longa data.
Mas voltemos ao assunto. Olga Sinek ou Benário era sem qualquer sombra de dúvida uma agente soviética das mais qualificadas. Determinada, fria, calculista, extremamente obediente, disciplinada e educação ideológica muito solidificada  eram algumas das suas características. Cedo, ainda na Alemanha, despertou a atenção dos mais altos dirigentes do KPD-Partido Comunista alemão e depois da espionagem soviética. Nada menos do  IV Departamento do Estado-Maior do Exército Vermelho, órgão responsável pela espionagem no estrangeiro, que a recrutou.
A biografia feita, na melhor das intençõe$, por Fernando Morais, exclui o período de sua formação de militante, melhor dizendo, de formação de agente-espiã e sua colocação na hierarquia da espionagem soviética e suas missões. Se foi proposital não sabemos.
Mas o caso é que nem o pretenso motivo de  salvamento da prisão de Otto Braun na Alemanha  , tratado como um caso desesperado de amor, foi da forma como foi passado ao público.  Otto Braun, assim como Olga,  era integrante do M-Apparat, órgão militar do KPD- PC alemão. Era necessária uma operação para encobrir a ação executada e planejada pelo IV Departamento do Exército Vermelho contra uma instalação do exército alemão -o Reischwer e que teve participação de agentes soviéticos.  Otto Braun “foi escalado” para ser o culpado e preso. Foi realizada  uma operação para libertá-lo e Olga foi utilizada como isca, na planejada e bem sucedida  ação, pelo chefe do M-Apparat Hans Hippenberger. Nem Otto Braun aponta, em sua biografia, Olga como chefe da operação.
As atividades( de Olga) de espionagem política na seções militares do KPD eram todas secretas, posto que, eram controlados com diretrizes e ordens pelo IV Departamento. Apenas os seus chefes imediatos sabiam de sua subordinação ao IV Departamento. Suas atividades secretas então...De modo que foi escolhida por Dimitri Manuilski, dirigente do Komintern, para servir como segurança de Prestes e possibilitar que  chegasse ao Brasil com segurança. A importância dada a esse líder de uma futura revolução no Brasil nos moldes preconizados pelo Komintern determina a os cuidados necessários. Seus requisitos de competência e fidelidade á causa , além da indicação por Dimitri Manuilski, secretário da III Internacional, foram determinantes. O domínio da língua francesa, o convívio e trânsito nos meios comunistas dirigentes deram a Olga o cacife.
“ Eu gostaria que soubessem que ali eu cumpri duas tarefas: uma do partido e outra do coração” assim  se referiu Olga, logo ao chegar na URSS, no auditório lotado por jovens da Juventude Comunista internacional concludentes de cursos do Kommunist Internacional Molodoi-KIM,  sobre a libertação de Otto Braun em 11 de abril de 1928. Assim era Olga: cumpria todas as determinações do partido de forma ímpar. Se o partido determinasse...
Quando Manuilski cobrou-lhe a resposta se aceitava uma missão que lhe seria confiada, respondeu sem saber do que se tratava – “ Sabia desde ontem( que aceitaria), camarada: estou pronta para partir.”
Depois desta resposta, Manuilski contou-lhe  qual seria e aonde seria  sua tarefa. Então lhe foi apresentado Prestes. E foi sua última missão. Pouco mais de um ano após a chegada e fracasso do golpe comunista, foi deportada grávida para a Alemanha e sucumbiu numa câmara de gás em 1942. Para confirmação de sua morte e conseqüente identificação do corpo foram enviados oficiais do Exército Vermelho, confirmando a sua importância para aquela tropa. Estes fatos finais de sua vida vem confirmar a sua origem militar e suas atividades.
Mas a pergunta: o quê isso acrescenta a biografia e suposições na vida de Olga Benario ou Prestes ou Sinek ou Berger ou Maria Bergamo Vilar ou Eva Kruger e sua participação junto de Prestes? Acredito que muito, senão vejamos:
1. Militante comunista judia-alemã desde jovem;
2. Integrante, sempre, das alas com missões secretas e de cunho militar do KPD, PC Alemão;
3. Integrante da área de espionagem militar do Exército Vermelho, russo;
4. Possuía marido em Moscou; e Prestes?
5. Era de total confiança da cúpula do Komintern;
6. Foi determinada para cuidar da segurança de Luis Carlos Prestes na missão de desestabilizar o Brasil, tudo planejado por Moscou;
7. Era uma estrangeira conspirando no nosso país;
8. O seu grau de importância na hierarquia da espionagem russa deu-se no episódio de reconhecimento de sua morte e nas motivações nazistas para a liquidarem.
9. Trocando em miúdos, tinha muita culpa no cartório.

Com absoluta certeza será um filme romanceado ocultando suas tarefas “secretas”, bem ao gosto de toda esquerda órfã de Moscou. Isto já foi feito no filme LAMARCA.
Fontes-Prestes-Cavaleiro da Esperança-de Jorge Amado-Ed Circulo do Livro; Olga- de Fernando Morais-Ed Alfa Omega; Camaradas-de Willian Waack-Ed Biblioteca do Exército.
(texto escrito em 2001/2002)
FLAVIO MPINTO
Enviado por FLAVIO MPINTO em 09/06/2006
Código do texto: T172479

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Sobre o autor
FLAVIO MPINTO
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 65 anos
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