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Robocop 2 (1990) – Um ataque ao estado mínimo

Minha Avaliação: Um filme emocionante que em sua época teve muito de seu sucesso atrelado aos efeitos especiais. É datado tanto tecnicamente quanto na estrutura do roteiro. Mesmo assim tem características de um clássico imortal.

Pontos fortes: O modo como o herói e o sistema se chocam é simplesmente genial. O mundo apocalíptico em que o Estado não tem nenhuma força também é genial.

Pontos fracos: A mesma crítica que fiz a 007 – Operação Skyfall se aplica aqui ainda com mais intensidade: o filme espera que o espectador (por já estar acostumado com algumas características do desenvolvimento dramático) seja tolerante com um desenvolvimento abrupto. Como o espectador vai aceitar o que o filme oferece ele não se preocupa em persuadi-lo. Como tenho uma resenha sobre o tema não  abarcarei o tema aqui, quem tiver curiosidade leia a resenha sobre o 007. Há que se notar que esta característica que elenco como defeito (e me incomoda) é vista como qualidade por Syd Field ao falar do filme Hannibal no livro '4 Roteiros'. Ele também possibilita que o filme tenha mais tempo para tratar com maestria o seu tema mais importante.

Em um bairro de classe média uma moça está sendo observada. De dentro de uma viatura de polícia um mostro metálico a observa. Se trata de um ciborgue. Seu cérebro, rosto e talvez um pouco de suas vísceras são humanos (restos do que um dia foi o policial Alex Muphy). A pessoa a quem RoboCop observa é sua ex-exposa. A sua, digamos assim, viúva. É incrível como com tão pouco o filme mostra o conflito mais interessante do filme. Seria tentador colocarmos este como o conflito entre a máquina e o humano, ou mesmo de colocar o conflito entre o humano e o monstro (como a Bela e Fera). Na realidade este conflito é muito mais interessante e é sobre ele que falarei na conclusão.

Em RoboCop 1 uma dupla de policiais (Alex Murpy e Anne Lewis) estão em uma perseguição ao final da qual Alex é alvo de muitos e muitos tiros de armas de alto calibre. Daí ele oficialmente morre e nasce o RoboCop – por um lado um ciborgue cujos donos são uma corporação, por outro lato um policial cujo dever é proteger a lei. Quando RoboCop chega à delegacia de polícia sua ex-parceira reconhece o jeito peculiar com que ele guarda a arma (similar ao modo como cowboys o faziam em filmes de faroeste). De fato a corporação de polícia e o RoboCop têm tanto sucesso no enfrentamento ao crime que este está caindo bastante. RoboCop é um sucesso e a OCP está ansiosa para produzir mais ciborgues como ele (para vendê-los).

Entretanto  a OCP tem algumas questões para resolver.... Primeiro existem negócios mais lucrativos do que a produção de ciborgues como policiais. Segundo, Alex Murphy parece ser um caso único. Os ciborgues criados à maneira como RoboCop o foi (usando bons policiais) não deram certo. Aparentemente RoboCop só deu certo porque Alex tinha características pessoais únicas: o filme cita seu senso de dever e de compromisso com a família típico de famílias descendentes de irlandeses. Que eu saiba os Irlandeses não são famosos por isto, mas tudo bem, acho picuinha questionar este detalhe do filme. O que é interessante é que todos os ciborgues criados suicidam.

Paralelamente a isto percebemos uma movimentação nas delegacias de polícia. Os policiais enfrentam redução dos salários e de seus direitos trabalhistas. Em uma fala um diz, “Parece que eles querem que façamos greve.” O fato é que a corporação está com os salários atrasados e redução em seus direitos trabalhistas e – como se não fosse pouco – enfrenta redução nos seus salários.

No começo do filme os índices de criminalidade estão baixos – graças especialmente a atuação do RoboCop. O que não significa que o crime esteja controlado. Uma organização religiosa/criminosa está produzindo e lucrando muito com uma droga muito viciante, o Nuke. Com o desenrolar do filme a polícia entra em greve e os índices de criminalidade ficam apocalípticos. Por todo lado vemos roubo, inclusive por parte de crianças. O que aconteceu foi que a cidade estava deficitária e se endividou com a OCP. Esta organização exigem em troca da dívida a privatização do serviço de segurança pública. Daí chegamos a um momento interessantíssimo do filme. A entidade privada (e legal) se esforça ao máximo para tornar os serviços essenciais cada vez mais precários (para que assim consiga apoio público para seu intuito de privatizar a cidade). Por seu lado o chefão do tráfico do Nuke resolve se encontrar com o prefeito para quitar a dívida da cidade. Os traficantes querem que a economia funcione normalmente e que tudo esteja em ordem para que possam vender sua droga sem serem incomodados (se for sob a guarda de um prefeito corrupto ainda melhor). Ou seja, a empresa legalmente constituída concorre para as mazelas do Estado, a empresa do tráfico de drogas concorre para a ordem do Estado.

Como nosso herói se enquadra neste quadro caótico? No âmbito pessoal RoboCop tem espreitado a esposa. Ela o vendo chega à conclusão de que o marido está vivo. Isto é uma séria ameaça à OCP. Primeiro porque as próprias peças que constituem RoboCop são extremamente caras. Mas principalmente porque a ideia de ciborgues como propriedades (portanto comercializáveis) é essencial à estratégia   da empresa. Então um executivo de alto escalão persuade RoboCop de que a única forma da mulher tocar a vida (e se casar novamente) é entendendo que seu marido faleceu. RoboCop diz a ela para pegar em seu rosto. O rosto é frio. RoboCop diz que é uma máquina.

Já no que diz respeito ao combate ao crime RoboCop é seriamente avariado em uma luta contra traficantes. Quando de seu concerto a OCP aproveita para inserir em seu cérebro várias e várias diretrizes que acabam por limitá-lo demais. As diretrizes são as clássicas como, 'Cumprir a Lei', algumas diretrizes esperadas e bem limitantes como 'Não contrariar membros da OCP', mas foram somadas várias e várias diretrizes do tipo, 'Dê bons exemplos às crianças', ou 'Tire o gato do alto de árvores'. Diretrizes que acabaram por debilitá-lo. Ao ouvir que a única forma de se livrar destas diretrizes era sofrer uma grande descarga elétrica RoboCop vai até uma fiação e se eletrocuta. Deste modo ele fica livre das diretrizes.

Talvez você tenha visto este filme a muito tempo atrás (foi o maior sucesso de 1990 no Brasil) e lembre do vilão imenso com braços de metralhadora e com um monitor (como o de TV) no lugar do rosto. Era um vilão aterrador e visualmente muito bem feito para os padrões da época. Foi também bem elaborado como personagem: A OCP desiste de usar cérebros de bons policiais para fazer seus ciborgues. Passa a procurar criminosos e para usar seu cérebro. Acham o ideal no ex líder da produção e tráfico do Nuk: Seu vício pela droga o torna obediente.

Os principais confrontos se dão contra este vilão. Primeiro quando ele era o chefe do tráfico, depois quando ele era um ciborgue viciado em Nuk. Talvez por isto se você procurar um pouco na internet verá algumas resenhas dando bastante enfoque na luta contra os traficantes. Estas analises são eminentemente equivocadas. No começo vemos RoboCop se aproximando de sua humanidade: ele se aproxima de suas memórias, busca ver a esposa, sofre. Mas aí vemos a OCP o confrontando e o pondo em seu lugar como propriedade. Em seguida vemos os policiais. No começo eles cumprem bem sua função de monopólio da força do Estado. Mas logo eles são sucateados para serem privatizados (de modo que o monopólio da força física do Estado passaria a uma empresa particular). E tanto o herói quanto o bandido representam a luta entre algo que deveria ser individual (a liberdade de se dispor de si mesmo) e a invasão da propriedade. Ou seja, o grande debate do filme é: 'possibilidade de tornar bens vendáveis x indisponibilidade de bens'. Em outras palavras, a grande questão do filme é o esforço da iniciativa privada de tonar tudo mercadoria avançando em bens que consideramos inalienáveis: O monopólio da força (Estado), a vida humana (a de   Murphy – RoboCop).

Neste sentido RoboCop continua extremamente atual. À época o FMI fazia exigências de privatizações as mais variadas (sistema de educação, estatais de todos os tipos, sistemas de saúde) a todos os países que iam a bancarrota. Em que caso levar um patrimônio público às leis de mercado é um debate que não cabe aqui. Mas certamente sempre há na iniciativa privada alguém pronto a tornar bens que considero inalienáveis como um filão. Com a crise mundial a pleno vapor podemos ver esta avidez na Grécia, Portugal... Mas a poucas décadas a própria Índia privatizou o sistema de saúde. A poucos anos (e acho que ainda é assim) na California haviam prisões particulares. Em que casos a iniciativa e as forças de mercado devem reger nossas vidas é uma questão que deixo a cada um de vocês. Mas certamente RoboCop 2 se posiciona muito claramente mostrando uma grande corporação tão amoral quanto a organização narcotraficante.
Chico Acioli Gollo
Enviado por Chico Acioli Gollo em 28/11/2012
Reeditado em 28/11/2012
Código do texto: T4009540
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Sobre o autor
Chico Acioli Gollo
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 33 anos
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