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As Aventuras de Pi (Análise e crítica)

Baseado na literatura fantástica “Life of Pi”, de Yann Martel, chega aos cinemas brasileiros, neste final de semana, este que é apontado como um dos melhores filmes do ano e forte concorrente a ganhar várias estatuetas do Oscar: “As Aventuras de Pi”, do diretor Ang Lee.

O longa conta a história do garoto indiano (cujo nome verdadeiro é Piscine), que, rumo ao Ocidente, perde sua família em um naufrágio. Tido como único sobrevivente, ele acaba resgatando alguns animais durante o trajeto, já que eles pertenciam ao zoológico que seu pai tinha e estavam no navio. São eles uma zebra, um orangotango, uma hiena e o tigre-de-bengala Richard Parker. Aparentemente simples, foi um grande desafio para o diretor justamente pelo fato de ser tão complexa ao mesmo. Afinal, como se deveria narrar 90 minutos de convivência entre um garoto e um tigre dentro de um bote, perdidos no meio do Pacífico? Como não se repetir, e ainda prender o espectador, e fazê-lo sonhar e refletir?

Bem, vamos por parte. Até chegar o momento do desastre, leva determinado tempo, pois se optou em contar um pouco a vida do rapaz, até para que o público se familiarizasse com o personagem. E funciona. Embora algumas críticas apontem este ato do filme como longo e cansativo, é a partir dele que conhecemos a estrutura familiar de Pi (Suraj Sharma/Irrfan Khan), a sua filosofia de vida e seus valores, que serão postos em xeque durante sua luta para sobreviver. Além disso, ficamos com a bela fotografia de Claudio Miranda, que já no primeiro momento abre o filme com uma linda sequência de cenas. Por o fio condutor da trama ser costurado pelo flashback, compreende-se o adulto (que relata os acontecimentos) pelos olhos do menino que um dia ele foi.

Para os céticos de plantão, talvez incomode um pouco o fato de a produção se apoiar em critérios subjetivos para justificar os resultados. Explico. Criado em uma família indiana mais liberal, em que o pai é (ou se mostra ser) ateu e a mãe hindu, Pi cria raízes com o cristianismo, islamismo, hinduísmo e a cabala, levando todos os preceitos desses crédulos dentro de si. Assim, a sua fé é sempre questionada e a sua salvação se dá em nome de Deus, uma vez que parece o cristianismo ser a doutrina mais presente no rapaz. Pode-se perder, desse modo, o gosto da aventura pela simples aventura, e a história mais se assemelhar a uma alegoria bíblica, que, como todas as outras, tem a intenção de exemplificar e moralizar a fé no deus cristão.

O que não estaria fora de questão. É cabível a interpretação de que a vida de Pi (como no original) fosse um grande pastiche à alegoria bíblica de Noé, que com sua arca teria levado um casal de cada espécie animal. Lógico que, aqui, em proporções menores. E, na verdade, existe claramente uma referência a tal episódio no filme, quando Pi saúda seu orangotango dizendo “Bem-vindo à arca de Pi”. Não é à toa que se poderia ouvir na plateia cristãos se manifestando toda a vez que o nome de Deus era clamado, seja em forma de louvor ou de questionamento.

Respondendo às duas perguntas anteriormente feitas, a adaptação e o roteiro de David Magee não deixam o filme literalmente se afogar ou morrer na praia. (Ainda) não li a obra para poder traçar paralelos, mas a escolha pelo humor ingênuo e ao mesmo tempo desesperado foi uma grande sacada. A relação entre o tigre e o garoto é tão humana, que nos pegamos analisando a nós próprios. Antes alvo de um tigre faminto – e daí situações das mais inusitadas para dele fugir – a cumplicidade estabelecida faz que o felino termine a história deitado no colo de seu dono como se fosse um gato de estimação. Dividindo a fome, o medo, o cansaço e a desesperança, tornam-se um a companhia do outro e o motivo de suas respectivas sobrevivências. Isso prende o espectador.

Ademais, a direção de Ang Lee enaltece todos os elementos que compõem a obra. Sua “bipolaridade” construtiva é o que marca seu trabalho. Diretor de produções como o excelente “Razão e Sensibilidade” e do deprimente “Hulk” (2003), sempre é uma tensão assistir aos seus trabalhos. Mas em “As Aventuras de Pi” ele presenteia o público com uma [quase] perfeita construção narrativa, em que um olhar ou somente um gesto dos personagens dizem infinitamente mais que quaisquer palavras. A sua escolha por Suraj Sharma é correta, afinal quem diria que existia um grande ator dentro de um simples estudante indiano que apenas fez um teste para tentar concorrer ao papel. Sharma, pelo contrário, além de sua beleza fotográfica singular, mostra ter um talento nato e ser formado em uma grande escola de atores, tamanha sua honestidade e entrega ao personagem. Sim, sua grande escola foram as mãos de Ang Lee, conhecido como extremamente perfeccionista (algo normal na ideologia oriental de ser).

O 3D não é utilizado de forma vã. Há interatividade (que bom!!!) com o espectador e alguns sustos também. Entretanto, os efeitos visuais capturados pela tecnologia, como a cena do balé de águas-vivas e a dos peixes-voadores, são o que transmitem emoção. Que somada às belas interpretação, fotografia e trilha sonora de Mychael Danna transporta a todos ao mundo de sonhos e de fantasia. Nunca a imagem no cinema poderá superar as artimanhas da imaginação na literatura, mas no caso de “As aventuras de Pi” ouso dizer que a fronteira se tornou bastante tênue.

O final do filme pode desmotivar um pouco, principalmente quando Pi conta uma outra versão em relação a tudo aquilo que antes presenciamos. Atenção a este momento, pois é de extrema importância para a narrativa. Quem não conseguir compreendê-lo perderá a possibilidade de refletir sobre as metáforas e simbologias usadas, além do emprego da fábula, para esconder os tristes acontecimentos reais originados pela tragédia em alto mar. Assim, a fábula tem a função de torná-los mais gentis e eufônicos.

Sem dúvida, uma superprodução e que vale ganhar todos os prêmios a que concorrer. Ideal para esta época do ano, em que acostumadamente nós revisamos valores e pensamos sobre nossas atitudes e erros, e as possibilidades para consertá-los.

Nota: 9,0.
Daniel R Machado
Enviado por Daniel R Machado em 23/12/2012
Código do texto: T4049812
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Sobre o autor
Daniel R Machado
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 32 anos
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