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O MITO DA CONTINUIDADE

Resenha do filme "O REI LEÃO" de Walt Disney - material produzido na ESPECIALIZAÇÃO EM PSICANÁLISE E CIVILIZAÇÃO - Curso de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá em agosto de 1999.


        O mito é aquilo que pode ser contado sem ser visto, é uma tradição oral, um relato de acontecimentos antigos que se perderam no tempo, onde a origem do acontecimento é divina, traz um simbolismo que tem como personagens deuses, seres sobrenaturais, heróis, presentes em todas as culturas. O mito aloja-se entre a razão e a fé, pode referir-se a origem dos deuses, a criação do mundo, o destino do homem, além de tentar explicar a sociedade, a origem de algum povo, está presente no folclore, cantos poéticos e nas artes. Irá fazer referência ao sofrimento, o ser trágico, esse sofrimento que não pode ser evitado leva a uma passividade, uma paralização frente a tragédia que vai contá-lo. Esse discurso em torno do sofrimento ( tragédia) estaria associado aos conteúdos primitivos do inconsciente, isto é, conteúdos recalcados, que se renovam, do mesmo modo que o sofrimento.
Analisando esses conceitos e  ao assistir  o filme de Walt Disney, “O Rei Leão”, ocorreu-me questionar a possibilidade do mito da continuidade da vida, aquilo que é preservado e transmitido às próximas gerações, o legado presente desde o nascimento, como que impingindo ao ser a responsabilidade de perpetuar-se no outro e não somente isto, mas, em dar continuidade a espécie, seus valores, seus credos, sua cultura.
Assim, passarei ao relato e comentário da película para melhor entendimento do que pretendo expor. Neste filme vários conceitos psicanalíticos são visualizados através de questões edípicas e narcísicas, além de elaborações de luto e atitudes maníacas em seus personagens.
No início ocorre  o nascimento de um leãozinho, chamado Simba, filho do rei Mufasa, atual monarca da selva, admirado e amado pelos seus súditos, o primogênito é levado por seus pais à uma grande pedra, um promontório, onde é  exibido diante dos demais animais que se curvam ante o herdeiro daquele reino. Neste primeiro ato fica claro a questão do narcisismo primário e o ideal do ego, onde o narcisismo infantil é depositado nessa instância somando-se também a influência dos pais e modelos já existentes, bem como a expectativa desses pais em relação ao filho, um macho da espécie que irá dar continuidade ao reino, dar continuidade a vida, as suas vidas de leões.
Simba passa momentos agradáveis na selva junto ao pai, observa seu poder, beleza e vigor, se identifica com ele, este lhe ensina obediência e limites, e que um dia este reino será seu, que chegará o momento em que precisará governá-lo.  Numa dessas ocasiões seu pai fitando o céu lhe mostra as estrêlas  e afirma que lá de cima os antigos reis observam e zelam pela preservação do ciclo da vida, fica-lhe então marcada a memória desse momento, um momento especial onde um legado de natureza mítica lhe é transmitido.
Transbordando de inveja e ciúme surge Scar, irmão de Mufasa, que na ânsia de poder tornar-se rei, arquiteta um plano junto às oportunistas hienas para  usurpar o reino, prometendo comida em abundância quando chegasse ao poder. Para tal, seduz o sobrinho levando-o a um desfiladeiro enquanto as hienas atacam uma manada  promovendo um “estouro” nos animais em direção a Simba, que ainda sendo pequeno, não consegue se livrar sozinho, Mufasa prontamente corre em sua direção e livra-o de ser pisoteado, alçando-o sobre uma pedra segura, mas ele mesmo não consegue escapar das duras patas dos desesperados,  apesar de muito ferido com dificuldade agarra-se numa pedra e pede ajuda a seu irmão Scar que a tudo assiste impassível, este segura suas patas mas deliberadamente, devolve-o a turba enlouquecida que incontrolávelmente atropela-o, deixando-o estendido no chão e sem vida. O leãozinho aproxima-se do pai morto e por alguns minutos permanece debaixo de sua grande pata, num processo de negação da morte ( psicose alucinatória do desejo, citado por Freud ), tenta dialogar com o pai, aqui o objeto real já não existe mais, não há mais vida, mas o investimento libidinal era muito grande, o pai lhe dava prazer, ele quer preservar esse prazer, não quer abrir mão de algo que lhe satisfaz, portanto há uma resistência natural em liberar essa libido do objeto, conseqüentemente aparecendo a negação.
Em seguida aparece Scar, aproxima-se de Simba e de modo bastante perverso  lhe diz: “você é o culpado” , “se não fosse você ele estaria vivo” , neste momento sua figura funciona como a parte crítica do superego; o pequeno Simba frente ao mecanismo instalado do luto, que compreende o processo de identificação com o pai, porém de forma ambivalente, aceita a crítica e entra na melancolia. Então, seu tio lhe ordena que desapareça e nunca mais volte para casa, como poderia explicar a sua mãe  e aos demais que por causa dele seu pai morreu, ele tristemente se afasta indo embora, abandonando o trono, aceitando o exílio. Aqui encontramos um superego bastante rígido que envolvido em elementos de pulsão de morte, ataca o ego fazendo-o sofrer. Scar manda as hienas perseguirem-no e acabar com ele, estas partem agressivamente ao encalço do pobre infante que foge deseperado, corre com todas as forças e escapa através de um providencial espinheiro que as detém. Sozinho, cansado, sentindo-se culpado pela morte do próprio pai, afasta-se, arrastando-se pelo deserto, por fim já exausto sucumbe a melancolia e permanece inerte no chão quente, ao sol escaldante. Aqui aparece nítido o sofrimento, também o risco da perda da existência, o risco de interromper a continuidade da vida.
Nisto aparecem em cena  Pumba, um gordo javali e Timon, um animalzinho semelhante a uma doninha, ambos vivem a vida despreocupadamente, encontram o que chamam de “filhote de leão” quase sem vida, socorrem o necessitado que se restabelece fisicamente e lhe propõem uma vida sem preocupações, um estilo de viver o qual denominam de “hakuna matata”, isto é, viver despreocupadamente, sem restrições ou responsabilidades. A princípio Simba declara “ não foi isso que me ensinaram”, mas depois para tentar sair da melancolia, numa tentativa de defesa, entra nesse processo de mania, onde o superego é negado, o ego se aproxima do ideal do ego, se fundindo num processo de idealização, se bastam e “tudo pode” ( hakuna matata ), coexistindo numa sensação de triunfo e plenitude, esquece de suas responsabilidades de futuro rei e assume um despreocupado estilo de vida.  Os três passam então a viver juntos na mata onde Simba cresce e se desenvolve tornando-se um  jovem e belo leão.
Certa noite os três amigos estão deitados contemplando as estrêlas, quando Simba tem a recordação do ensinamento de seu pai, sobre os tais reis  que cuidam da continuidade da vida, fica então bastante perturbado.
Enquanto isso o rei Scar obriga as leoas a procurar alimento incessantemente para servir às hienas, mas a comida vai acabando, já não há mais caça, o reino entra em desequilibrio, está devastado. Então, a jovem leoa Nala, amiga de infância de Simba, foge em busca de ajuda. Após atravessar o deserto, para sua surprêsa e alegria encontra Simba, julgava-o morto segundo a versão de  Scar, conta-lhe a situação de desolação em que estão submetidos, insiste em que ele volte e retome o que é seu por direito; mas este se nega a retornar, entra num grande conflito, as lembranças, a culpa, o medo de ser rejeitado pelos seus.
Nisto chega um místico babuíno do reino, Rafiki, e leva-o por um caminho pantanoso, sombrio, cercado por vegetação densa e escura à procura de seu pai, ele diz que seu pai está vivo, representa um adentrar em seu inconsciente, uma busca pelas lembranças mais remotas. Chegam a beira de um rio e o sábio fala para ele olhar a imagem refletida na água, ele obedece mas diz: “É só o meu reflexo!”, o sábio insiste: “Ele vive em você! Olhe de novo, olhe melhor!”, então Simba consegue visualizar a figura de seu pai na água, este lhe diz: “Você esqueceu quem é, assim me esqueceu! Precisa assumir seu lugar no ciclo da vida, lembre de quem você é!”. Aqui é marcante o processo identificatório com o pai, a mesma relação que ele tem com a sua imagem no espelho, o reflexo, é a mesma relação que ele tem com o outro ( o pai ); como existe uma díade, o eu e o outro ( do espelho), sempre o que eu quero é o que o outro quer.  Vale lembrar uma frase de Goethe em Fausto , citada por Freud em Totem e Tabu : “Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu.”
Simba retorna ao seu lar e encontra-o destruído, seu reino acabado,     enfrenta seu tio Scar que confessa a autoria da morte de Mufasa diante de todos, as leoas agora lideradas por Simba expulsam as hienas que matam Scar. Simba restabelece seu reino e fica junto a Nala que será sua companheira. A vegetação volta a brotar, os animais a se reproduzirem, os pássaros a cantar. O filme encerra com a cena do casal Simba e Nala no topo da grande pedra, o promontório, onde recebem das mãos do sábio babuíno, um lindo filhote, o ciclo da vida se restabelece.
Freud afirma : ”...o mundo externo no qual o indivíduo se descobre exposto, após desligar-se dos pais, representa o poder do presente; que o id, com suas tendências herdadas, representa o passado orgânico, e que  o superego, que vem a juntar-se a eles posteriormente, representa, mais do que qualquer outra coisa, o passado cultural, que uma criança tem por assim dizer, de repetir como pós-experiência durante os poucos anos do início de sua vida...”, e ainda continua: “...não poucas das novas experiências da criança serão intensificadas por serem repetições de alguma primeva vivência filogenética.”
Penso que de certo modo a continuidade da vida se faz pela reedição de milhares de anos de história da espécie, somos herdeiros da história de nossos ancestrais e iremos transmití-la àqueles que vierem nos suceder, assim um recém-nascido hoje pode ser mais velho, no aspecto herança histórica, que um homem de 80 anos. Freud   conclui: “...As experiências do ego parecem, a princípio, estar perdidas para a herança; mas, quando se repetem com bastante freqüência e com intensidade suficiente em muitos indivíduos, em gerações sucessivas, transformando-se, por assim dizer, em experiências do id, cujas impressões são preservadas por herança. Dessa maneira, no id, que é capaz de ser herdado, acham-se abrigados resíduos das existências de incontáveis egos; e quando o ego forma o seu superego a partir do id, pode talvez estar apenas revivendo formas de antigos egos e ressuscitando-as.”
Assim, nesse filme é contado o sofrimento, a luta, a saga de um herói para tornar possível a manutenção da vida, seus valores e sua cultura, aquilo que pode ser contado sem ter visto, enfim um mito. Fica uma indagação permeando meu pensamento: “Não seria esta a história de cada um  de nós?”


                   Esmeraldo Ribeiro da Costa Filho





BIBLIOGRAFIA




1. FREUD, S.  ( 1940 [ 1938] )   Esboço de Psicanálise,  vol.XXIII,   p. 220 in
                      Obras Completas, Ed. Standard Brasileira, RJ, Imago Editora.

2. FREUD, S.  ( 1923)   O ego e o id ,  vol. XIX , p. 53 , in Obras Completas,
          Ed. Standard Brasileira, RJ , Imago Editora.

3. FREUD, S.  ( 1914 )  Sobre o narcisismo: uma introdução,   vol.XIV,     in
           Obras Completas, Ed. Standard Brasileira, RJ, Imago Editora.

4. FREUD, S.  ( 1917 [1915] )    Luto e melancolia.      Jornal de Psicanálise,
tradução de Marilene Carone, p. 27-44   - Ano 18- nº 36 -  1985.

5. RAMOS, G. Le social dans la construction freudienne de la Psychanalyse
            Paris, l’Harmattan, 1997,  parte do texto traduzido:    A identificação
  em Psicologia de massas e análise do eu, de S. Freud.


costa filho
Enviado por costa filho em 14/12/2005
Código do texto: T85823
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