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Resenha de "1001 Noites de Sonetos & Rabiscos" - de Nathan de Castro

Resenha do livro “1001 noites de sonetos & rabiscos”
de Nathan de Castro
® por Lílian Maial*


1) Capa

A beleza e simplicidade do livro começam pela capa: é limpa, em tons de caramelo, já expressando a doçura dos versos, a neutralidade das intenções sinceras, sem deixar de haver o toque vermelho no nome do autor, o que pode traduzir a agitação, o contraste e a paixão, que vertem do seu âmago.

2) Sumário

A ausência de sumário, no livro, pode estar indicando que todos os poemas são o mesmo – um auto-retrato - ou que todo o livro é um poema, como se o autor não conseguisse enumerar os fragmentos de sua alma peregrina.
         
3) Introdução

Nathan de Castro, nesses seus 109 poemas, entre livres e sonetos, exprime sua íntima relação com os astros e seus mistérios, com a solidão – muitas vezes companheira e amiga (“Senhora Solidão”) - e com as paixões, que movem o poeta em sua trajetória. Ele vai muito além do poeta. Em suas viagens, redescobre a vida e a morte, e chora o amor.

4) Descrição do assunto

O livro “1001 noites de rabiscos & sonetos” é repleto de lirismo, descortinado através de um amor não concretizado, ou interrompido, ou mesmo não conhecido. A cada novo poema, novas viagens, novas emoções, porém com aquele gosto conhecido de café fresquinho do interior de Minas, com as margens delimitadas pela poesia, com a certeza de uma surpresa dentro de uma embalagem amiga, acolhedora, terna.
O poeta se mantém fiel, desde a primeira até à última página do livro, em seu intento de não querer agradar ao leitor (mesmo agradando), nem pretendendo ser estrela, apenas deixando fluir o rio de amor que jorra pelos versos.
Nathan não se detém diante dos apelos pós-modernistas e contemporâneos de concisão e concretude, ao contrário, ele descreve um mundo de sonhos, vez por outra resvalado em abismos de solidão, salpicado de poemas de lembranças de um passado, tão proximamente remoto, quanto elegante e, necessariamente, distante, que gravitam ao redor de uma realidade sem maiores possibilidades, dentro de métrica e rimas das Gerais, dos sonhos, e de um poeta, que o subjuga e enaltece.

Em alguns de seus poemas como: “Coração de Maria-Fumaça”, “Funerária”, “Caveiras de Abóboras Sorridentes”, “Casa Enferrujada” e “Pedras Apaixonadas”, o poeta discorre sobre um mundo de lembranças vivas (“Coração trem-mineiro singrando pelos vales, montanhas e lugarejos esquecidos no mapa das Gerais”), de traquinagens dos tempos de menino (“Moleque que treinava para poeta, cavando cavernas e construindo casas de bambu e pita”), de homem perplexo com as mudanças da modernidade (“O casarão e a Rua do Internato já não abrigam sonhos de criança”), e, em outras vezes, mostrando que guarda o passado em um pote de mel (“Asas de borboleta e as sombras das paineiras ficaram na colméia de sonhos, no enxame das letras e varandas dos meus fins de tarde”), ou em uma fotografia mágica (“Pedra de poesia retirada do coração da serra, e que tem, incrustados, os amores dos galhos das estações de luas e saudades. Pedras Apaixonadas!”).

Já nos poemas “Ausência”, “Canção de Amor”, “Contando Lobos”, “Soneto Chorinho”, “Auroras” e tantos outros, a saudade e a solidão são a tônica, escancarando o coração do poeta que habita o poeta, aquele que teme a dor do amor, o que abomina a luta e as rotinas, e busca na memória - nem sempre vivida - o refúgio para essa ausência de matéria, de personificação do sentimento. Quem sabe o poeta nunca tenha amado, ou ainda espere a encarnação do paraíso? (Feliz quem sabe o amor nos galhos da estação e voa na poesia sem tocar o chão... ausência de palavras não lhe mete medo”).
No poema “Senhora Solidão” o próprio poeta reconhece a sua insistência, quase desejo: “Senhora Solidão, aceite o abraço deste poeta amigo e de um só tema.”

          Como se autodenomina “poeta argonauta”, em seu livro não poderiam faltar viagens alucinantes pelo reino da fantasia, a começar pelo poema-título “Mil e Uma Noites”: “Na solidão do meu silêncio busco as madrugadas no fundo de oceanos com dragões, duendes e fadas das mil e uma noites de sonhar vinte mil léguas e os quarenta ladrões da inspiração não me dão tréguas.”
          Em “Poeta Argonauta” ele viaja mais: “Marujo velho e amigo das estrelas, ao brilho de Canópus me entreguei, para beber da luz e absorvê-la, mas nada... meu poema não achei.”

Mas o mais interessante neste livro de Nathan de Castro, é que ele, lembrando o cineasta Woody Allen, ri de si mesmo e de suas andanças atrapalhadas entre rimas tortas e versos sem razão (“Hoje eu vi um sabiá comendo alpiste na porta de um soneto atrapalhado, e o canto dos pardais na tarde triste, calando este meu verso desbotado.”).
Em “Soneto Piegas”, o autor zomba do poeta que vive dentro dele: “Não zombes dos meus versos despejados. Bem sabes que, de ti, vêm estas luas, com todas as histórias e os bordados, que arrastas dia e noite pelas ruas.”.

Nathan oscila entre a certeza de que o verso é banal - e para nada serve - e a intuição de que ele é fundamental: “Ele é o espelho claro dos palhaços, que não sabem de estrelas... só de abismos.”

Por fim, libera o dragão que solta “labaredas de versos pelas ventas”, mas que engole as brasas incandescentes de paixões sem final feliz, como se uma inércia de anestesia ocupasse seus nervos e sinapses, tendendo a mantê-lo prisioneiro da poesia: “O meu dragão navega e aporta caravelas-solidão de escrever poemas, nada mais.”

Em “Epílogo”, uma promessa nas entrelinhas: “Talvez eu solte o verbo e bata as minhas asas, talvez o verso em paz alinhe os desenganos, talvez, quem sabe, a dor retorne às águas rasas.”


5) Apreciação Crítica

    O “1001 Noites de Sonetos & Rabiscos” é um livro para se ler e reler com o espírito da poesia romântica, que canta as dores de amor, a solidão, a saudade e a inquietação. Porém, Nathan de Castro não rasga, em seus poemas, o amor a uma musa de carne e osso e figuras celestiais, como no simbolista Alphonsus de Guimarães:

                           “Celeste... É assim, divina, que te chamas.
                           Belo nome tu tens, Dona Celeste...
                           Que outro terias entre humanas damas,
                           Tu que embora na terra do céu vieste?”
                                                      ( PULCHRA UT LUNA – Alphonsus de Guimarães)


Nathan prefere a musa que não conhece, aquela por quem o seu poeta espera, e que, enquanto não vem, deixa o poeta de braços dados com a Senhora Solidão:

                         “Procuro o teu olhar, as tuas linas
                          e todas as florestas que eram minhas,
                          para fechar, no peito, estas clareiras.”
                                                                       (CLAREIRAS – Nathan de Castro)


  Em alguns poemas, como em Chorinho, percebe-se a nota triste de uma juventude de tempos idos, não tão intensa, como nos versos do neoparnasiano Humberto de Campos:

                    “Nada: ao fim do caminho percorrido,
                             o ódio de trinta vezes ter jurado
                             e o horror de trinta vezes ter mentido!”
                                                                (RETROSPECTO – Humberto de Campos)


                      “Pandeiro e violão: instrumentos do crime.
                            Polícia e camburão, sol nascendo entre as grades.
                            E tudo em Patrocínio era felicidade!
                                                                      (CHORINHO – Nathan de Castro)
                                                     

 Talvez não tão efusivo como J.G. de Araújo Jorge, mas em alguns poemas seus, Nathan se encaixa com perfeição:

                     “Amo os rios! E a estranha solidão em festa,
                              dessa alma que possuo multiforme e inquieta
                              como a alma multiforme e inquieta da floresta!”
                                                               (AMO! - J.G. de Araújo,Jorge)




                            “Vai cheio de mato, saudades ao vento,
                             pingado de chuva, brindando ao momento
                             e às águas que jorram poemas de lua.”
                                                              (POEMA DE LUA – Nathan de Castro)



 Ou nos de Manuel Bocage:

                     “Deus, ó Deus!... quando a morte a luz me roube,
                             Ganhe um momento o que perderam anos,
                             Saiba morrer o que viver não soube.”
                                                       (SAIBA MORRER O QUE VIVER NÃO SOUBE – Bocage)


                             “Mistérios dessas noites de chorinhos,
                              Limo no peito e a dor de cachoeiras.
                              Saudades de acordar pingando estrelas!”
                                                         (CACHOEIRAS – Nathan de Castro)




Não posso afirmar que a inspiração dos poemas de Nathan de Castro venha de Florbela Espanca, de Fernando Pessoa, ou de Bandeira, que muitas vezes lembram verdadeiras maravilhas desses autores. No entanto, em seu centenário, certamente Mario Quintana teve muita influência nos versos deste poeta, como em seu soneto “Os Parceiros”:

                                                                 “Insiste em quê?Ganhar o quê? De quem?
                                                                  O meu parceiro...eu vejo que ele tem
                                                                  um riso silencioso a desenhar-se

                                                                  numa velha caveira carcomida.
                                                                  Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce...
                                                                  Como também disfarce é a minha vida!”
                                                                           (OS PARCEIROS – Mário Quintana)


                                                                 “Ah! Vida, vida... Enquanto a voz do tempo passa,
                                                                  Eu passo medicando as marcas das esgrimas
                                                                  E suturando sonhos, paixões e saudades.”
                                                                     (ENQUANTO A VOZ DO TEMPO PASSA – Nathan de Castro)





             6) Considerações finais:

              A cada geração de escritores, mais e mais se buscam alternativas aos clássicos, numa tentativa de “fugir às cópias”, de inovar, de não ser um poeta à imagem e semelhança de outro. Contudo, o que move o poeta é a beleza, e a beleza não pode ser medida, mas sentida. Então, dizer que um autor é melhor ou pior que o outro, apenas pela sua capacidade de inovar, de criar maneiras diferentes de fazer e dizer poesia, é algo tão insensível, quanto afirmar que o nascer e o pôr-do-sol são monótonos e repetitivos, uma vez que a mesma cena se refaz, incansável e deliciosamente, a cada novo dia.
             A poesia de Nathan de Castro é um nascer do sol em cada página, e resta aos leitores a descoberta das diferenças em seus versos, assim como as proporcionadas pela natureza.
             A técnica que Nathan de Castro emprega em seus sonetos é bastante correta e musical, embora não se prenda a elas para uma discreta quebra aqui ou ali, que só fazem beneficiar o poema.
             Não há erudição redundante, ao contrário, a beleza de seus versos encontra-se na simplicidade mineira e no aconchego de noites de frio e som de grilos, onde se chega a sentir o cheiro do mato, do café e do pão de queijo.
             O livro traz muita satisfação ao leitor que se interessa por poemas de amor e saudade, de lirismo e romantismo, de beleza e tristeza de mentira. Sim, porque todo poeta é um fingidor...


6) Referências Bibliográficas:
               - Alphonsus de Guimarães - Dona Mística (1899); Kyriale (1902), ;A Escada de Jacó (1938); Pulvis (1938);
               - Humberto de Campos – Poesia completa – 1933;
               - J.G.de Araújo Jorge – “Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou” – 1963, 1966, 1970;
               - Manuel Bocage - introdução a "Sonetos" e "Poesias Várias", Lisboa, 1943 – Vitorino Nemésio;
           - Mário Quintana -  Poesias (1962);  Antologia Poética (1966),  Prosa e Verso (1978),  Nova Antologia Poética (1981).
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*Lílian Maial é escritora e poeta carioca.
Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 20/04/2006
Reeditado em 29/09/2006
Código do texto: T142441

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