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Caminho da Liberdade - Resenha acompanhada das teorias de T. Parsons e A. Giddens


     A história do negro americano é composta de vários períodos. Inicia com a chegada dos escravos africanos, suas lutas e adaptações a essa situação em um longo período de regime escravocrata. Com a evolução do capitalismo através da industrialização, era necessária uma sociedade consumidora das mercadorias produzidas, uma classe proletária, assalariada. Assim, a escravidão não era mais viável para a nova burguesia industrial, e nos países da América ocorreram vários processos que visassem o fim deste regime.
     Caminho da Liberdade é um romance, escrito por Howard Fast, em 1944, que nos mostra como foi a luta dos negros estadunidenses por um novo lugar na sociedade: como se adaptaram às mudanças, às leis, ao preconceito, e como os brancos, do Norte e do Sul, viam a nova situação e o que fizeram para interagir com uma nova classe livre, com novos sujeitos sociais, ora superando barreiras culturais e econômicas, ora insistindo em manter o negro na ordem em que antes estava, marginal à sociedade.
     Entender a História é fundamental para desmascararmos a realidade e compreendermos o lugar do negro americano nos dias de hoje.

     O presente livro tem início com a volta dos soldados para suas casas, após a guerra civil entre o Norte industrializado, protecionista e o Sul agrícola, escravagista, a famosa Guerra da Secessão, que se estendeu de 1861 a 1865, nos Estados Unidos. O personagem principal é o ex-escravo Gideon Jackson, que vive na fazenda dos Carwell, seus antigos proprietários. Lá, ele, sua família e sua comunidade, ainda atônitos e, ao mesmo tempo, ansiosos e motivados, buscam meios de se adaptar à nova situação: o que farão para sobreviver, onde residirão, que direitos terão, sob que regras estarão, qual será sua função na nova sociedade que se aproxima, como se dará sua escolarização, e, talvez o mais delicado, como será agora sua interação com os brancos num país que parecia querer igualar todos os grupos étnicos, livres e libertos.
     A aventura começa com uma carta de convocação para Charleston, que fez com que Gideon percorresse o trajeto a pé, pelas estradas da Carolina do Sul, até essa cidade. Lá, ele conhece pessoas que o apóiam, conhece a oposição, e um novo mundo, um novo ambiente se desenrola perante tudo aquilo que viveu e aprendeu; aprimora suas leituras e tem em mente sempre que a Educação liberta, ela é uma arma que ninguém consegue tirar, e assim, não é possível escravizar alguém liberto pelo conhecimento. Motivado e interiorizado por essas novas idéias, Gideon vai crescendo como líder e se adaptando à nova ordem, sentindo o valor que tem o dinheiro através do trabalho e dos benefícios que se pode conseguir, esperançoso pela igualdade entre os homens e pela paz entre eles através da solidariedade.
     Em Charleston, Jackson participa, cheio de expectativas, de uma série de reuniões da chamada Convenção para a elaboração de uma nova Constituição.
     A partir do momento em que a Convenção se estendera por meses, o medo inicial de Gideon foi-se perdendo e as coisas para ele se naturalizavam, sua personalidade se fortalecia inconscientemente, e aos poucos percebia que não era mais o mesmo, sua percepção do ambiente era outra. Com a prática, o que era novo se transformara em hábito.
     O mais importante é que Jackson simboliza a voz de todos os negros ansiosos por uma liberdade continuada, seguida de instrução e capacitação para um convívio igualitário entre brancos e negros, e que isso se tornasse um padrão. O que acontece é que não apenas negros, mas alguns brancos do Sul se encontravam na mesma classe: eram fazendeiros que haviam perdido tudo e seu único status era a cor branca de sua pele. Eles se sentiam humilhados de estarem na mesma condição que os ex-escravos, e dificultaram bastante sua convivência até aceitarem a situação e terminarem por interagir com eles.
     Não obstante, com a Abolição, a classe dominante rural ficou desprovida de propriedade e trabalhadores, estavam arruinados e não proviam de meios para fazer uma revolução. Uns saíram de suas terras endividados, onde os negros que ali moravam começaram a trabalhar. Essa foi a primeira fase da abolição.
     Em seguida, houve a guerra, frente às pretenções separatistas do Sul, para que a posição de liberdade fosse garantida e o país se reunificasse. Foi quando as forças militares da União passaram a ocupar esses estados. Os distritos convocaram os delegados para a Convenção. Os escravocratas acharam que isso não ia dar em nada e torciam para que os delegados fracassassem, porém, formaram eles um corpo legislativo forte, e uma Constituição estava surgindo.
     Apesar disso, a imprensa ajudava a formar o senso-comum da população quanto a cultivação do preconceito. E Junto a isso, alguns se fortaleciam em grupos específicos, como o forte símbolo da Ku Klux Klan, extremistas com o objetivo de levar o terror aos negros e desencorajá-los de conviverem no mundo dos brancos, e cujo objetivo final era a arianização do sul, ainda mais com o fracionamento das fazendas em pequenas propriedades, juntado com a educação, o que transformaria o sistema social de vez.
     Em 1868, a Constituição estava pronta. De volta ao lar, em Carwell, a aprendizagem fez de Gideon menos religioso, mais humanista, em oposição à tradição de sua comunidade. Mas as mudanças na própria comunidade também aconteciam. Era preciso manter essa estrutura. Gideon tinha um projeto de realização de objetivos: primeiro, manter o poder pelo voto, uma revolução democrática, seguida da escolarização para todos, uma revolução educacional, e, por fim, pela cultura da terra. Esse sonho de solidariedade, esses valores compartilhados com a comunidade significavam progresso, que viria com muito sofrimento e trabalho.
     O filho de Gideon, Jeff, chega a se formar em Medicina, na Escócia, mas quando retorna, sete anos depois, para seu país, as coisas não estavam como a comunidade negra sonhava: o congresso era pressionado por homens poderosos e racistas, e a nação se vê imersa em leis segregacionistas, a ponto de se notar locais só para brancos e locais só para negros, e , por incrível que pareça, essa ainda é a época da Reconstrução: o começo do novo e a morte do velho, um teste para a democracia.
     Mas o pior estaria por vir. Havia uma forte pressão de autoridades racistas para que as tropas da federação se retirassem do sul. Se isso acontecesse, a Klan levaria de volta com todas as suas forças o caos e o terror.  E foi isso mesmo o que aconteceu.
     Ora, temos aí, com essa nova situação, uma análise completa dos momentos dos sistemas de ação, de Parson, que o livro aborda, onde os homens agem ora uns com os outros, ora uns contra os outros. Primeiramente, a escravidão representava um período de inércia; com a abolição seguida pela guerra temos um período de instabilidade através do elemento da atividade pelo processo de diferenciação. O sistema tende a se equilibrar novamente em uma nova estrutura através do elemento da aprendizagem e pelo processo de integração, haja vista as convenções, a posse das fazendas a serem convertidas em pequenos lotes, as escolas nas comunidades, etc, levando novamente o sistema a um momento de inércia pela socialização. Mas, esse período dura um curto espaço de tempo, quando os movimentos racistas visam desestabilizar esse novo sistema, modificando-o através da força, também pela atividade e pelo processo da diferenciação, com o fim de criarem um novo sistema, similar ao primeiro, no qual poucos brancos estariam no poder e o resto ficaria à margem, promovendo a estabilidade desta estrutura, chegando novamente, por fim, a mais um momento de inércia, desta vez pelo controle social.
     A presente obra mostra, através das corajosas palavras de Gideon, que se pensava que a chamada “doença sem cura” havia sido sanada com a guerra, no entanto, as idéias escravocratas permaneceram na mente de muitos poderosos, cujo propósito era trazer a escravidão de volta em tudo, menos no nome. Esse era o objetivo da Klan: destruir a democracia no sul, eliminar os agricultores independentes, em suma, separar novamente o branco do negro, dando poder a uma classe oligárquica e deixando os demais na pobreza e desorganizados, como era antigamente. Nesse ambiente a diferença era massacrante: A Klan era uma força organizada composta de fazendeiros, delegados, ex-capatazes, homens públicos, enfim, tinham poder de influência no legislativo, no judiciário, e no executivo, além de dinheiro e armas. Suas máscaras nada mais eram do que um símbolo, um símbolo da covardia do terror e da bestialização do racismo, do ódio pelo externamente diferente, da sede do egoísmo de não aceitarem o novo sistema. Enquanto isso, do outro lado, os negros - e alguns brancos agricultores que estavam na mesma leva que os negros no que se refere à pobreza e união a esses – não tinham amparo algum, nem do governo nem da sociedade. Estavam literalmente sós e tinham que lutar sós, novamente, pela manutenção de sua liberdade.
     A situação fica de tal forma crítica que a comunidade societária de Carwell passa a andar armada, devido a ataques esporádicos de terror da Klan, que eram apenas o começo do grande conflito. Com a saída das tropas do governo, o Sul fica sob as leis dos brancos que lá estão no poder, cujo objetivo é destruir o negro livre, mesmo que isso destruísse o próprio negro em si, destruir o que uma década havia construído.
     A perseguição oficial começa com acusações ridículas das autoridades a respeito de crimes praticados por negros, mas eles, cientes e com a noção do que realmente estava latente por detrás dessas acusações inventadas, não se entregaram. E a fazenda é atacada.
     A comunidade se refugia no casarão dos ex-patrões e lutam ardorosamente até serem massacrados pelas armas pesadas da Klan.
     O Sul se encontrava isolado do resto do país, entregue às próprias leis, leis essas racistas e retrógradas. Era o fim do sonho daquela comunidade, que era apenas um símbolo literário do que acontecia em outros lugares do Sul, por toda aquela época.
     Antes de ser exterminado com os seus, Gideon tem firme em sua mente quão forte era o povo de sua terra, povo livre, algo que não se podia definir, pois não se entregaram, esse todo, essa massa de cores e suor, sonhos e projetos, esse Um que Gideon concluiu como o inconquistável.

Vitor Junior
Enviado por Vitor Junior em 21/04/2006
Reeditado em 02/06/2010
Código do texto: T142532
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Vitor Junior
Maringá - Paraná - Brasil, 36 anos
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