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Anos 70 – Novos e Baianos – (Luiz Galvão)

 Mal começava o ano de 1967. Moraes Moreira dormia sossegadamente na pensão de dona Maritó, Rua Democrata, 17, Salvador, Bahia. De repente, no meio da manhã ensolarada, recebeu a visita inesperada de Luiz Galvão, que ainda era apenas um engenheiro agrônomo na cidade de Juazeiro. Ele nem esperou Moraes se levantar da cama e foi logo disparando:
     
     _Tom Zé me mandou aqui. Estávamos fazendo música, mas a Tropicália o chamou para São Paulo e ele profetizou que seríamos parceiros.
     
     Nesse mesmo dia, Galvão trazia no bolso a letra de nada menos que “Ferro na Boneca” e “Rua Chile”. O irmão de Moraes, Zé Valter, lhe cedeu uma cama na pensão e, em quinze dias, “a dupla Moraes Moreira e Luiz Galvão já contava com dez músicas prontas”.
     
     “É ferro na boneca/ é no gogó neném”
     
     No meio de uma, das muitas festas que aconteciam na casa de Tuzé de Abreu, onde Moraes Moreira e Luiz Galvão sempre batiam ponto, apareceu uma figura elegante e super desinibida, que começou a bater um samba de Riachão numa caixa de fósforos. “Sua voz e a sua malandragem logo chamaram a atenção de todos”. Seu nome: Paulinho Boca de Cantor.
     
     Assim que terminaram todas as jam sessions dessa histórica noite, Paulinho, Moraes e Galvão foram matar a fome e tomar a(s) saidera(s) no Braseiro da Carlos Gomes. A partir desse dia, o trio passou a se encontrar diariamente, principalmente no Braseiro, que era um dos lugares mais freqüentados por Caetano quando estava em Salvador.
     
     Passaram-se dois anos de muita praia, sol, sexo, noitadas, maconha e uma overdose diária de música brasileira. “Quanto mais suingado, quente e abaianado melhor, nada de bate estaca”. Até que em julho de 1969, o trio estava participando de um programa na TV Itapoan, quando se renderam ao som das guitarras elétricas dos garotos Pepeu e Jorginho Gomes, líderes de um grupo de rock chamado Leif’s. Nessa mesma noite, todos saíram juntos da TV a fim de beber em algum lugar. No caminho, encontraram uma amiga de Galvão chamada Ediane, que estava andando com uma “linda garota de dezesseis anos, trajada com muita originalidade, usando uma calça jeans rasgada no joelho e um espelho colado na testa”. Nem precisa dizer que a gatinha era Baby Consuelo, mas que nessa época ainda atendia pelo seu nome verdadeiro, Bernadete.
     
     Baby havia fugido da casa de seus pais, em Niterói, no Rio de Janeiro e chegara sozinha à Salvador. “Ela dizia que estava na Bahia para reaprender tudo, até escovar os dentes”. E assim estava formado o grupo que iria revolucionar a música brasileira do pós-bossa-nova-tropicália, alguns diziam que foi o “Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio Universal”, e esses bichos foram batizados de Novos Baianos.
     
     O grupo logo se organizou para montar um espetáculo que misturava música, teatro e artes-plásticas e que inclusive recebeu o nome de “Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio Universal”. Mas os primeiros shows tiveram que ser adiados, porque Caetano e Gil convocaram os Leif’s para o show de despedida no teatro Vila Velha, o antológico “Barra 69”. Mas finalmente, quando aconteceu a estréia dos “bichos” em agosto de 1969, não demorou muito para que esses novos baianos ficassem conhecidos por todo o Brasil. Inclusive pelo ídolo maior de todos eles, João Gilberto, que já era um artista reconhecido mundialmente, e que desde o show no Carnegie Hall em 1962, residia nos EUA.
     
     No começo da carreira, os baianos sempre moravam juntos, com suas mulheres, filhos e amigos. Não importava o lugar, essa verdadeira comunidade hippie nunca se separava, eles habitavam desde pequenos apartamentos até casas e, de maneira nenhuma, se importavam de passar longos períodos em “ócio criativo”. Assim que chegaram ao Rio de Janeiro, a primeira moradia coletiva foi na Rua Maria Angélica, no Jardim Botânico, mas ficaram por pouco tempo. Logo depois o grupo se mudou para São Paulo, quando classificaram a música “De Vera” para o festival da Record ainda em 1969. O diretor da TV, Marcos Rizzo, perguntou qual era o nome do grupo. Ao responderem, disseram que Nelson Motta tinha sugerido Baianovos, mas eles acabaram recusando porque acharam “muito carioca”. Foi então que Marcos sugeriu: “por que não Novos Baianos?”.
     
     Quando terminou o festival, eles ainda ficaram morando por mais oito meses em São Paulo, passaram pelo Hotel Paramount, onde também morava “o cantor das multidões” Orlando Silva. Depois foram para o Hotel Danúbio, e por último alugaram uma casa no bairro do Imirin. Mas para evitar confusão com a polícia e também com a malandragem da região eles acabaram voltando para Salvador.
     
     Na capital baiana, eles ficaram no extinto Hotel Miramar,
     em Porto da Barra, mas a polícia chegou rasgando e prendeu todo o grupo. Baby, Pepeu e Galvão foram levados para a prisão da Misericórdia, conhecida como “calabouço”. Paulinho havia sido detido um dia antes num bar, e Moraes conseguiu escapar porque não estava com nenhum deles no dia da prisão. Após alguns dias em cana o grupo foi solto e se mudou para Arembepe, onde passou um tempo antes de retornar novamente ao Rio em 1971.
     
     De volta a cidade maravilhosa, os baianos alugaram um apartamento na Rua Conde de Irajá, em Botafogo. O lugar era bastante freqüentado por João Gilberto, que certa vez ouvira falar da comunidade criada por seus conterrâneos e um dia decidiu aparecer para uma visita, pois já conhecia Galvão que também havia nascido na mesma cidade do mestre: Juazeiro.
     
     Vale ressaltar que poucas pessoas tinham o privilégio de receber uma visita sua, entre elas estavam Tim Maia e João Donato. Mas depois desse primeiro contato, que varou a madrugada e terminou com um café da manhã, toda vez que passava pelo Brasil, João aparecia para uma visita inesperada, onde quer que eles estivessem.
     
     A fase do apartamento em Botafogo foi talvez a mais produtiva para os baianos, ali foi feita a música “Acabou Chorare” e grande parte das canções desse disco lançado em 1974. Galvão escreveu a letra quando estava na janela do seu quarto às seis da manhã e uma abelha sentou na palma de sua mão. Imediatamente, Galvão ligou para João Gilberto a fim de contar o fato e lhe dizer que isso havia lhe dado inspiração para uma letra. João, que adorava falar ao telefone, lhe contou que quando ele morava no México, sua filha Bebel havia sofrido uma queda e João com a aflição de pai foi correndo socorrê-la, mas a menina surpreendentemente foi quem acalmou o pai dizendo na sua inocência de criança: “Não, acabou chorare”. Com a letra pronta, Galvão mostrou para Moraes que colocou a música na hora:
     
     “Acabou chorare/ ficou tudo lindo/ De manhã cedinho”.
     
     No período botafoguense, Galvão ainda fez um curta-metragem com a participação de Caetano Veloso. No dia da gravação na casa de um conhecido, estavam presentes nada menos que seis generais da censura. E mesmo com a presença dos milicos, Galvão e Moraes acenderam um baseado e mandaram brasa em outra música recém saída do forno: Tinindo Trincando.
     
     “Eu vou assim/ Tirau/ E venho assim? Tan-ti-ti-ta-ta-tirau/Porque quem vai de não/ Não chega/ Chega não porque pra ir/ Só mesmo assim/ Há sim/ Um dia assim/ Tirau/ Um dia assado/ No duro tinindo/ Tinindo Trincando”.
     
     O apartamento em Botafogo também foi palco de acontecimentos inacreditáveis e surreais. Às vezes, acreditem, acontecia de um quarto estar sendo ocupado por Caetano Veloso em meio a um agitado bate papo filosófico, em outro podia estar Gal Costa, Moraes e Paulinho fazendo um conjunto vocal e, na sala, João Gilberto e Baby sendo acompanhados pelo violão virtuose de Pepeu Gomes, e tudo isso na mesma noite. Sem falar que de vez em quando até o “mensageiro do delírio” Glauber Rocha aparecia por lá, e quase sempre acompanhado pelo também “transcendental” Rogério Duarte, autor da maioria dos cartazes do Cinema Novo e das capas de discos tropicalistas.
     
     Por falar em Glauber, logo depois que o cineasta fez uma entrevista para o Pasquim com os baianos, Galvão saiu para visitar uma namorada em Niterói, mas, quando chegou, a garota disse que queria terminar o relacionamento com o compositor. Na volta, sentado na famosa barca que liga as duas cidades, Galvão começou a se lembrar de todos os amores que teve na vida, em especial de Socorrinho, uma de suas primeiras namoradas em Juazeiro. E, para esquecer a tristeza e dar a volta por cima, ele passou a mentalizar apenas coisas boas e colocou tudo no papel.
     
     “Enquanto eu corria/ assim eu ia/ Lhe chamar/ enquanto corria a barca/ Por minha cabeça não passava/ Só, somente só/ Assim vou lhe chamar/ Assim você vai ser/ Preta, preta, pretinha/ Abra a porta e a janela/ E vem ver o sol nascer/”.
     
     
     Baby e Pepeu, adolescentes, mas cada um segurando a sua barra, levados pelos sonhos de se firmarem como artistas e pela independência que o momento revolucionário lhes conferia, “aproveitaram esse clima e começaram um dos amores mais bonitos dos anos 1970”. A última moradia coletiva do grupo foi num sítio em Jacarepaguá, perto da Boca do Mato. “Ali foi feita a foto do disco ‘Novos Baianos Futebol Clube”, tirada por Pedrinho, filho de Vinícius de Moraes. Jacarepaguá foi a época em que o futebol passou a dividir espaço com a música. Os baianos, que agora seguiam a filosofia hindu e haviam se convertido ao vegetarianismo, se orgulhavam pelo fato de o sítio possuir um campo com as dimensões oficiais da FIFA, e organizavam vários campeonatos. O time de Evandro Mesquita e Vinicius Cantuária era presença garantida nas competições.
     Mas apesar do clima de alegria, foi nesse período (1975), que o grupo sofreu sua primeira baixa: Moraes Moreira, que decidiu sair dos Novos Baianos para viver uma vida mais “privada” com sua família. Na época, Moraes disse que até ficaria, mas somente se não fosse obrigado a continuar vivendo em comunidade, o que acabou não acontecendo. Baby e Pepeu deixaram o grupo em 1980 e seguiram carreira solo. Paulinho e Galvão ainda agüentaram por mais um tempo, mas logo depois o grupo se desfez.
     
     Mesmo com o fim do “sonho”, o que vai ficar marcado na história é o processo de renovação que eles estabeleceram no cenário da cultura nacional. Os Novos Baianos escreveram, cantaram e deram o toque de movimento que faltava no Brasil. “Além de ter vivido na prática sua canções e textos, o grupo assumiu uma posição dificílima, tudo com um tom anárquico. Enfrentou a ditadura como numa partida de futebol, dando sangue, suor, inteligência, calma, juventude, alma e todas as virtudes para vencer e, na pior das hipóteses, empatar, porque derrotas todos tiveram, mas os transformavam em vitórias, não podiam perder, representavam a vitória, o sol, a alegria, a irreverência, a criatividade, o sonho e a paz”, explica Galvão.
     
     E para contar em detalhes como foram os bastidores desse período de turbulência tanto na música, quanto na política do país, Luis Galvão, o mentor intelectual do grupo, conhecido por ser um daqueles que melhor conseguiu ”traduzir com lisergia poética aqueles tempos de cólera”, reuniu essas e outras histórias num livro cheio de causos e crônicas, “sem economizar cenas do trinômio sexo, drogas e rock (chorinho e outras bossas). Os Novos Baianos deitaram e rolaram – mesmo com a ditadura, tinindo, trincando os dentes contra eles”, como escreveu o jornalista Tárik de Souza.
     
     Enfim, na definição do próprio Galvão, os baianos “acrescentaram um molho Brasil, um drible garrincha, um toque genial Pelé, um acorde João, um verso Caetano e um discurso Glauber” no caldeirão cultural da música popular brasileira.
Danilo Nuha
Enviado por Danilo Nuha em 06/08/2006
Reeditado em 07/08/2006
Código do texto: T210234
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Sobre o autor
Danilo Nuha
Japão, 38 anos
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Danilo Nuha