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O livro vermelho dos pensamentos de Millôr (1973)

"Imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados"


   
“O homem atingirá a sabedoria total no dia em que for completamente marxista – 40% de Groucho, 30% de Chico, 20% de Harpo e 10% de Karl”. Assim é o escritor, poeta, cronista, jornalista, chargista, tradutor, pintor, humorista e teatrólogo Millôr Fernandes. “Mas quem é ele? É um anarquista, um progressista ou um reacionário? È um idealista ou um materialista? Um socialista ou um Direitista?”. Para achar essa resposta, somente lendo O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr, obra publicada no ano de 1973, em plena ditadura militar.
      Essa é uma pequena antologia dos discursos, comentários e conversas do escritor com seus melhores amigos, desde Jorge Amado, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Antonio Houaiss, Tom Jobim, Carlos Drumond de Andrade, Zuenir Ventura, Érico Veríssimo até Di Cavalcanti. Os encontros foram gravados em lugares incomuns e inusitados: em um avião com um motor parado entre Londrina e Hong Kong (1965), nas dunas de Abaeté com Dorival Caymmi (1952), no campo do Vasco com a presença de Zagalo e Paulo César (1972), fora da arrebentação da praia de Ipanema (1971), na arquibancada do Maracanã com Ziraldo (1968) e na cozinha de uma amiga quando fazia um discurso para os empregados (1961).
     Se tratando de Millôr, podemos esperar de tudo, principalmente um humor de alto nível que mistura ironia à mais dura crítica aos modismos e convencionalismos existentes na sociedade contemporânea. “É necessário não apenas contestar. É mais importante contestar também pelo direito inalienável de contestação. Isso não exclui, é claro, antes inclui, como coisa definitiva, o direito de contestar a contestação dos outros”, aconselhou aos acadêmicos da Faculdade de Engenho Novo no Rio, em 1948, aos 24 anos. E completa: “Fiquem tranqüilos irmãos, sempre se pode provar o contrário”.
      As palavras ácidas do humorista parecem não ter nenhum alvo fixo, seus tiros de fuzil em forma de texto são disparados deliberadamente contra qualquer tipo de injustiça social e principalmente contra seus causadores. “Não respeito nenhum movimento feminino brasileiro que não cuide, em primeiro lugar, das desgraçadas das empregadas domésticas, ainda hoje tratadas como caso de polícia”.
      Apesar de seu largo prestígio, o autor é pouco afeito aos círculos acadêmicos, especialmente àqueles mais conservadores, muito preocupados com a imortalidade literária. “A Academia Brasileira de Letras, com aqueles velhinhos viciados em mil gramatiquices, é um lugar em que se acredita que as pessoas têm gênero, mas não tem sexo”.
      Em um bate-papo com o jornalista Mino Carta em 1969, nem Deus ficou de fora de suas punhaladas literárias. “Se tudo isso que esta aí é realmente obra de um DEUS TODO PODEROSO, que PATIFE!”. Dez anos antes, o jornalista já refletia sobre o assunto. “A Terra é um saco de gatos, sem qualquer programação. Come-se mal, as condições sanitárias são lamentáveis e, o que é pior: chove dentro. Por que um DEUS TODO PODEROSO extremamente aperfeiçoado colocaria a vida exatamante nas condições que a temos? ” (1959).
     O narrador também aproveita para destruir o mito do Natal e seus presentes. “Papai Noel, filho da exploração comercial, da ignorância infantil e da incapacidade de reação paternal, é um velho meio idiota, meio malandro, extremamente desonesto, que se presta para servir de intermediário para o enriquecimento da sociedade de consumo, em todo o mundo” (1958). “A pressão da sociedade de consumo foi levado a tais extremos que os presentes de natal já não os damos por generosidade mas por medo” (1972).
     Millôr recorre a um variado arsenal de recursos estilísticos para provocar e manter o impacto que leva o leitor “a pensar e pensar-se”. “O fundamental é aproveitar o tempo, não só no sentido utilitário e materialista, mas no sentido do gozo existencial, do dia-a-dia, da hora-a-hora, quem perde tempo se perde no tempo. Você passa da metade da existência e ainda está em Pirapora”.
      Nesta obra, o autor elaborou um verdadeiro manifesto contra a passividade, se declarando um inimigo ferrenho dos acomodados. “A mística cega e irrefletida seria ridícula se não fosse sinistra. O cara que jogou a bomba em Hiroshima também dizia que estava cumprindo ordens” (1948).
      Nascido no dia 16 de agosto de 1923 no Méier, subúrbio do Rio de Janeiro, com o nome de Milton Viola Fernandes, Millôr, “que sempre se antecipou às leis, mudou seu nome de Milton para Millôr aos 18 anos. E diz que está pensando em mudá-lo novamente para Bulbo Raquidiano”.
     Filho de Francisco Fernandes e de Maria Viola Fernandes, o pai, engenheiro emigrante da Espanha, morre em 1925, com apenas 36 anos. A família começa a passar com dificuldades, e sua mãe passa horas em frente a uma máquina de costura para poder sustentar os 4 filhos. Em 1935, também com 36 anos, falece sua mãe, o que leva os irmãos Fernandes a ter uma vida dificílima.
     Em 1934, a chegada ao Brasil das histórias em quadrinhos, fazem Millôr dar vazão a sua criatividade e, sob a influência de seu tio Antônio Viola, tem seu primeiro trabalho publicado em um órgão da imprensa - "O Jornal", do Rio de Janeiro, tendo recebido o pagamento de 10 mil reis. Era o início do profissionalismo, adotado e defendido para sempre. Estuda na Escola Ennes de Souza, de 1930 a 1935, por ele chamada de Universidade do Meyer, mas que na verdade era uma escola pública.
     Juntamente com Steinberg, obteve o primeiro prêmio na exposição realizada pelo Museu da Caricatura, de Buenos Aires, em 1955. Conquistou também o segundo prêmio no Salão Canadense de Humor (1963), contando com sala especial na Trienal de Caricatura de Tolentino (Itália). Em 1957, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro reuniu mais de trinta de seus desenhos humorísticos à bico-de-pena, numa exposição apresentada por Antônio Houaiss.
      Fez parte do grupo que "implantou" o frescobol no posto 9, em Ipanema, no Rio, em 1958. Nessa época foi censurado pelo mais liberal de todos os presidentes da República: Juscelino Kubitschek. Seu programa de T.V., "Lições de um Ignorante", foi proibido após uma crítica à primeira dama do país: "Dona Sarah Kubitschek chegou ontem ao Brasil depois de 5 meses de viagem à Europa e foi condecorada com a Ordem do Mérito do Trabalho."
      Em 1961 trabalhou sete dias no jornal "Tribuna da Imprensa", Rio, que mais tarde pertenceu a seu irmão Hélio Fernandes. Foi demitido por ter escrito um artigo sobre a corrupção na imprensa. Os editores, o poeta Mário Faustino e o jornalista Paulo Francis pediram também demissão em solidariedade. Colaborou, entre outras, com as seguintes publicações: Cruzeiro, Pif Paf, Veja (antes de ser uma revista de moda e fofoca), Pasquim, Correio da Manhã, Isto É (quando ainda era uma revista de jornalismo), Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e UOL. Sua obra para teatro inclui 113 trabalhos, entre originais, traduções e adaptações, entre elas, de Shakespeare, Molière, Ibsen, Shaw, Racine, Pirandello, Pinter, Becket, Brecht, uf!.
      O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr, na opinião dos coordenadores da antologia, “é um documento que revoluciona todo o pensamento ocidental e oriental, é de uma atualidade permanente e extraordinária, é uma fonte na qual todos deverão embeber-se, é uma leitura recomendada para pessoas conscienciosas, ponderadas e descomplexadas, é um verdadeiro orgasmo filosófico que fará estremecer o mundo nas suas bases”.
      Luiz Carlos Lisboa, do Jornal da Tarde, diz que “as resistências ao humorismo de Millôr ou são produto de preconceito ou podem ser explicadas pela indigência intelectual dos que preferem a graça da televisão”. Para Millôr, “não há sabedoria, conceito ou preconceito, definição ou verdade, por mais popular, estabelecida ou definitiva que seja, que não admita reexame e uma nova interpretação”.
     Millôr deixa um recado para aqueles mais conservadores (incluindo também os covardes) que ficam arrepiados só de pensar em implantar alguma novidade que possa revolucionar suas vidas monótonas e sem nenhuma graça. “È sabido que o fato novo assusta os indivíduos, que preferem o mal velho, testado e vivido, à experiência nova, sempre ameaçadora. Por isso o cidadão deve ficar alerta, sobretudo para com os malucos, excepcionais e marginais, pois estes, quase sempre, são os que trazem as mais espantosas propostas de renovação contra tudo que foi estabelecido”.
 
Danilo Nuha
Enviado por Danilo Nuha em 07/08/2006
Código do texto: T210782
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Sobre o autor
Danilo Nuha
Japão, 38 anos
42 textos (47210 leituras)
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Danilo Nuha