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O CAVALO DE SOL - TEOLINDA GERSÃO

“Era ela que se julgava o sol, disse levantando um dedo. A esse papel, e não a ele, ela amava. Porque lhe dava a ilusão de poder tudo.”

Encerro o romance O cavalo de sol de Teolinda Gersão a toda a brida. O título instigante traduz as metáforas fundamentais, a natureza dos seres e a iluminação no zênite de vivências da protagonista. Não é possível ser um mero (a) leitor (a). O romance conduz a um percurso ousado com necessidade de incondicional entrega para sentir intimamente os movimentos em passo, trote, galope e salto.

Vitória chega à Casa de Cabeça de Cavalo ainda criança. A menina órfã de Lisboa é agregada à família de parentes da província e convive com a crueldade conseqüente das ações dadivosas. A menina é assumida como uma cruz a ser carregada por Marcionila e vive sob a estreita vigilância de Maria Comba e Liberata. Vitória cavalga todos os dias em plena comunhão com a natureza do cavalo. Seu caráter livre busca horizontes. Integra-se aos movimentos do animal sem querer controlá-lo. Há uma perfeita sintonia nos instantes indomáveis, emoldurados pelas fortes cores das estações e testemunhado com intensidade na narrativa da autora.

A convivência familiar converge para o noivado de Vitória com o primo Jerónimo. Seres com perspectivas e anseios completamente divergentes, mas que se unem na expectativa de se complementarem. Vitória é a amazonas, a vida, o movimento. Jerónimo é o caçador, a introspecção, o espectador. Ambos estão presos a um relógio parado.

“Reparou que o relógio da parede não batia, era um relógio novo, virgem de qualquer uso, que só marcaria as horas quando eles habitassem a casa e se sentassem ali, no canapé, debaixo dos retratos, então o pêndulo começaria a oscilar, dentro da caixa de vidro, e ouvir-se-ia no silêncio o tiquetaque infindável de um pequeno coração mecânico batendo.”

Suas vidas são simbolizadas na aliança de noivado com a pedra que cristalizara em volta de um pequeno inseto. “Um pequeno fóssil, envolto há milênios num cristal de rocha. Que agora brilhava na mão com que ela segurava uma das rédeas. Um insecto petrificado, perfeito, cercado de cristal para sempre.”

Vitória entrega-se a Amaro, o criador de cavalos, e conhece o amor na intensidade da pele. Jerónimo encontra a mulher domada na nostalgia alardeada da jovem viúva Melícia, gostaria de zelar por aquela dor que lhe é própria. Melícia é uma presa combalida e merece ser poupada. Vitória é a caça perfeita para sua natureza de caçador.

A vivacidade de Vitória está exposta em trechos como: “Há o cavalo do corpo e o cavalo do tempo, correndo sobre um campo. Mas cada dia é uma vida, e eu não conto os dias.” Enquanto Jerónimo observa distante o cavalo correr sobre o campo e, fadigado, deixa o cavalo do tempo o arrastar.

“Parar o sol. Os cavalos do sol. Segurar-lhes as rédeas, com mão firme. Saindo-lhes de repente ao caminho.”

O final é imperativo. Um salto sobre as circunstâncias. A libertação.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 25/10/2006
Reeditado em 25/10/2006
Código do texto: T273210
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
614 textos (789861 leituras)
2 áudios (1258 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 07:01)
Helena Sut

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