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Resenha rápida sobre algumas questões em "A Hora da Estrela" de C. Lispector

 Maca é a visão de um autor inventado, o que nos obriga a interpretá-la duas vezes: uma pelos olhos de Rodrigo, outra (e mais difícil, pq é a temida relação autor-obra) pelos olhos de Clarice.

 Embora impregnado de Clarice (fácil reconhecer em sua escrita pensamentos e a inefabilidade dela), Rodrigo possui uma visão mais prática, mais pé no chão sobre o ato de escrever. Ele reconhece a dificuldade do processo da criação, mas se lança na necessidade de criar um personagem , uma história, talvez uma tese.

 É provavelmente por isso que tanto sentimos em Macabéa esse tom de denúncia, de retrato do Brasil, de problemática social. Quase a reduzimos ainda mais do que ela mesma já o foi pela sociedade e pelo seu autor, quase lhe negamos humanidade e, para piorar, ainda jogamos a culpa nas elites e intelectualidades (ou seja, nós mesmos, numa clara auto-punição), quase a transformamos num símbolo mudo de tudo o que ela não pode. Dizer que Macabéa é o retrato do Brasil miserável é reproduzir o preconceito, não denunciá-lo. Assumi-lo não basta para compreender esta obra, é necessário ir além, é necessário encarar Macabéa de frente e enxergar-se nela.

 Aí talvez entre o olhar de Clarice pairando sobre nossa Maca, nessa clara alusão a nós mesmos, nessa identificação estranha que sentimos com a personagem. Clarice sempre retratou o universal que é particular, o fabuloso que é cotidiano, os grandes mistérios do mundo que são todos embalados por um só segredo indizível. É mesmo isso, Clarice sabe a incomunicabilidade das palavras. Macabéa também, não podemos lhe negar isso. Maca sabe que não sabe. E não sabe que sabe, mas isso apenas por timidez ou falta de orgulho talvez, por não conseguir afirmar-se diante de um mundo que, agora sim podemos dizê-lo, não lhe dá um único olhar de humanização. É a incomunicabilidade de afetos que é, de fato, a grande carência de Macabéa. E é o afeto da promessa de um sonho que a mata, talvez o próprio sonho.

 E arrisco aqui a dizer que quem a matou foi Clarice, mas quem lhe deu o sonho, Rodrigo.
Solange Marques Oliveira
Enviado por Solange Marques Oliveira em 01/11/2006
Código do texto: T279478
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Sobre a autora
Solange Marques Oliveira
São Paulo - São Paulo - Brasil, 34 anos
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Solange Marques Oliveira