CapaCadastroTextosÁudiosAutoresMuralEscrivaninhaAjuda



Texto

As etapas do pensamento Sociológico de Raymond Aron - Auguste Comte

Auguste Comte



  Auguste Comte viveu durante um período em que a sociedade européia estava em crise, a questão é que a sociedade européia do século XVIII passava de uma ordem histórica teológico-militar para uma ordem social científica-industrial, “transformando” totalmente os conceitos até então vigentes. A transformação de tudo em "objeto da ciência" da mentalidade positiva esconde a transformação de tudo em objeto. Sem o histórico processo de objetificação. Sua lógica é "industrial". As operações que lhe cabem são somente aquelas que permitem a construção, a utilização social do conhecimento visivelmente como poder. Sua eficácia (verdade, objetividade, aplicabilidade). O fato de Comte ser um reformador, mas não ser um doutrinário à moda de Marx muito menos de Montesquieu ou Tocqueville, esta ligado à questão que Comte propunha uma reforma social e uma religião totalmente fora dos parâmetros marxistas e das idéias expostas por Montesquieu e Tocqueville.
 
 O início do Texto “as etapas do pensamento sociológico” de autoria de Raymond Aron trata-se de uma introdução ao pensamento de Comte, com referências constantes a Tocqueville, Montesquieu e Marx, transmitindo perfeitamente todos os anseios de Comte, o fato de o positivismo ter reconhecido inicialmente a existência de princípios reguladores do mundo físico e social, o fato de acreditarem na superioridade de sua cultura (européia), a questão do darwinismo social, do evolucionismo etc. Adiante, Aron cita a lei dos três estados que consiste basicamente na questão de que o espírito humano passa por três “estágios” ou estados, assim como os estágios da sociedade não fazem mais do que refletir o estado das idéias,isto é o desenvolvimento intelectual da humanidade. O primeiro estágio seria o teológico, fictício, onde o espírito humano representa fenômenos como se fossem produzidos pela ação direta e continua dos agentes sobrenaturais, onde pode-se  dizer que seria como a infância da humanidade.O segundo estágio é o metafísico ou abstrato, neste estado o espírito humano deixa de dar lugar aos agentes sobrenaturais e começa a atribuir os fenômenos as forças abstratas como a natureza, seria como a fase adolescente da humanidade, e finalmente o terceiro estado que é o chamado estado científico ou positivo, no qual a humanidade teria chegado a maturidade deixando a busca de qualquer causa última de lado e passando a considerar os fatos e suas Leis efetivas, suas relações invariáveis de sucessões e semelhanças.Para comte a combinação da lei dos três estados com a classificação das ciências tem como objetivo provar que a maneira de pensar que triunfou nas chamadas exatas, deve se impor à política, levando a constituição positiva da sociedade, a sociologia.

 Esta combinação não tem como principal objetivo a necessidade de criar-se a sociologia para Comte, mas sim  partir da biologia intervindo decisivamente em termos de  metodologia deixando assim as ciências de serem analíticas e passando a sintéticas dando fundamento a concepção sociológica da unidade histórica, ou seja, ai entra a questão do “saber para prever e prever para poder” a formula básica do espírito da filosofia positiva, Comte rejeitou a economia política clássica, a qual definiu como abstrata, e estava certo de que combinando “ordem e progresso”, princípios positivas, superaria a teologia e a revolução, construindo uma sociedade unida, de uma religião da humanidade concretizando e aperfeiçoando os fundamentos da sociedade, e assim pensou ter encontrado a missão da sociologia, tomando emprestadas as conquistas do método científico, como mencionado anteriormente e aplicando-as  a observação e a emissão de leis relativas aos fenômenos sociais, assim preparou o objeto principal da sociologia, “a sociedade”, e a definiu como um corpo, um todo no qual os esforços são coordenados a fim de realizar um único objetivo, assim se percebeu o fato de que para Comte o todo prevalece sobre as demais partes, é o que  chamamos de organicismo.

Comte desejava ser um cientista e um reformador, a sua sociologia deixou os pormenores aos historiadores, os quais ele considerou como obscuros e perdidos em erudição medíocre. A doutrina Comtiana baseia-se na idéia de que toda a sociedade se mantém pelo acordo dos espíritos, só é possível haver sociedade se todos os seus membros têm as mesmas crenças, sendo assim a maneira de pensar é que caracteriza as diferentes etapas da humanidade que será marcada pela generalização do positivismo, do pensamento positivo, assim pensava Comte.O pensamento Comtiano da unidade humana divide-se em três formas, distribuídas em momentos distintos de sua carreira, a primeira forma é a mencionada anteriormente, o fato da superioridade da sociedade européia diante as outras demais sociedades servindo como modelo para toda a humanidade, a segunda é que a história da humanidade é a história do espírito, enquanto mudança, transformação ou mesmo enquanto aprendizado do pensamento positivo pela humanidade em totalidade, e a terceira é o fato de que a história da humanidade é o desenvolvimento da natureza humana.De acordo com Aron “as idéias principais de Comte não são pessoais”, ele teria as recolhido no clima da época, em que a sociedade estava passando da concepção teológica para a científica,  e a indústria torna-se o ponto fundamental de todos os observadores da sociedade, logo aparecem traços característicos da indústria e são divididos em seis sendo que, para Comte  três desses traços são primordiais, a questão de a indústria se basear na divisão cientifica do trabalho, a produção ser organizada direcionando-se para o lucro máximo, o fato de a humanidade desenvolver-se prodigiosamente, os recursos oferecidos pela ciência  e o fato de que a produção industrial leva a concentração dos trabalhadores nas fábricas e nas periferias das cidades surgindo a chamada massa operária.

Os outros três traços são desprezados por Comte, o quarto que trata da oposição entre operários e empresários para ele é resultado da má organização da sociedade industrial e pode ser corrigida por meio de reformas, para ele as crises são fenômenos episódicos e sem real profundidade, ou seja, patológicos, e ainda não considera o liberalismo como essência da nova sociedade, mas um elemento patológico também, uma crise dentro do desenvolvimento de uma organização que será mais estável do que a fundada no livre jogo da concorrência.A teoria da sociedade de Comte poderia ser definida como teoria da organização, Comte classificou o pensamento dos economistas liberais de metafísico e abstrato, o descrevendo como um pensamento baseado em conceitos, e apontou o fato de estes cometerem o erro de considerar os fenômenos econômicos e separa-los dos sociais, os criticou por superestimar a eficácia dos mecanismos de troca e de competição no desenvolvimento da riqueza, na questão que causa divergência entre socialistas e liberais, o fato de os primeiros admitirem que o caráter fundamental dessa discussão é a luta de classes e os liberais assim como Comte acreditarem na conciliação final dos interesses, no que se refere a Comte, este não acredita numa oposição fundamental dos interesses entre proletários e empresários.

Comte achava que o desenvolvimento da produção se ajustava aos interesses de todos, pois a lei da sociedade industrial é o desenvolvimento da riqueza, que exige a conciliação final dos interesses.Comte considerou os socialistas inimigos da propriedade privada, pois acreditava nas virtudes desta, justificando a concentração de capitais e dos meios de produção, que não lhe pareciam contraditórias com a propriedade privada, pois tal concentração aos seus olhos era inevitável e benéfica.A civilização material só podia se desenvolver se a cada geração produzisse mais do que é necessário para a sua sobrevivência.Comte justificou afirmando que a capitalização dos meios de produção é característica do desenvolvimento da civilização material, e levou a concentração. Contudo Comte não se sensibilizou com o argumento de que a importância dos capitais concentrados deveria determinar o caráter público da propriedade, a concentração dos meios de produção não o fez concluir que a nacionalização seria necessária, lhe era indiferente a oposição entre a propriedade privada e a pública, considerando que a autoridade política ou econômica é sempre pessoal, justificando com o argumento de que em toda sociedade são os homens em pequeno número que detêm o poder, Comte acreditou que a reivindicação da propriedade pública era a crença de que a substituição do regime de propriedade modificaria a estrutura da ordem social.

Sendo assim são sempre os ricos que detêm a parte do poder que não poderia deixar de acompanhar a riqueza, o que é inevitável em qualquer ordem social. Em todas as sociedades existem homens que comandam e é bom que os homens que possuem o capital concentrado sejam os que exerçam a autoridade econômica e social indispensável, os chefes temporais, industriais, banqueiros deveriam idealizar sua função como uma função social, sendo que a propriedade privada seria necessária e indispensável, só é tolerável quando assumida como exercício de uma função coletiva por aqueles que a sorte ou o valor pessoal indicou para isso. Comte pode ser considerado um organizador que deseja manter a propriedade privada e transformar seu sentido, tornando-a uma função social.De acordo com a idéia de caráter secundário da hierarquia temporal, Comte aceitava a concentração de riquezas e a autoridade industrial, pois para ele a existência dos indivíduos não se definia pelo lugar que ocupavam na hierarquia econômica e social; além da ordem temporal que comanda o poder, para ele existia uma ordem espiritual, a dos méritos morais, onde o objetivo supremo de todos deveria ser alcançado em primeiro lugar não na ordem do poder, mas na ordem dos méritos, acabando por limitar suas aspirações de reforma econômica, porque a sociedade industrial só poderia existir de maneira estável se fosse regulada, moderada e transfigurada por um poder espiritual, resumindo-se, pode-se observar dois aspectos fundamentais em Comte, a aceitação da ordem temporal autoritária e hierárquica e a superposição de uma ordem espiritual à hierarquia temporal.

A concepção da sociedade industrial de Comte está associada à afirmação de que as guerras seriam antiquadas, porém houveram  várias guerras que causaram decepção aos discípulos fiéis do positivismo, para Comte, a minoria ocidental que estava a frente de todo o desenvolvimento não devia conquistar os outros povos e impor-lhes a sua civilização, pois se cometessem o erro de expandir os seus domínios através da violência, das armas, o resultado seria desastroso, Comte acreditava que a guerra já não tinha função na sociedade industrial. A filosofia Comtiana inclinava-se em direção a reforma da organização temporal pelo poder espiritual que deveria ser exercido pelos filósofos e cientistas que seriam substitutos dos sacerdotes, o poder espiritual deve regular os sentimentos dos homens.O desejo de Comte era que através desta concepção os homens se unissem em torno de um trabalho comum, consagrando os direitos dos que governam e moderando o arbítrio e o egoísmo dos poderosos, Comte teria desejado um poder espiritual exercido pelos intérpretes da organização social, pensava que a organização científica da sociedade industrial levaria a atribuir a cada indivíduo um lugar proporcional a sua capacidade realizando-se assim a “justiça social”.Na sociedade industrial seria a aptidão individual que determinaria a posição de cada um.

Comte atribuiu a Montesquieu o mérito de ter afirmado o determinismo dos fenômenos históricos e sociais, a formula de Comte: “as leis são as relações necessárias que derivam da natureza das coisas” nesta formula enxergou o princípio do determinismo aplicado a diversidade dos fenômenos sociais e as mudanças das sociedades.Em Condorcet, Comte colheu a idéia de que o progresso do espírito humano é o fundamento da mudança das sociedades.A concepção central de Comte: Os fenômenos sociais estão sujeitos a um determinismo rigoroso que se apresenta sob a forma de um devenir inevitável das sociedades humanas, comandado pelos progressos do espírito humano.Observa-se que o objetivo de Comte era reduzir a infinita diversidade das sociedades, no espaço de tempo, a uma série fundamental, o devenir da espécie humana, e a um projeto único, o de chegar a um estado final do espírito humano, também pode ser considerado o ultimo discípulo do providencialismo cristão. Segundo Comte o único designo da história é o progresso do espírito humano, o modo de pensar positivo tem validade universal tanto em política como em astronomia, afirmou que só pode haver verdadeira unidade numa sociedade quando o conjunto das idéias e diretrizes adotadas pelos diferentes membros da coletividade forma um todo coerente, sendo uma sociedade caótica quando nela se acham modos de pensar contraditórios e idéias incompatíveis.

De acordo com o pensamento de Comte, o objetivo do devenir social é levar o pensamento humano a coerência, a qual esta destinado e que só pode ser realizada de duas formas; pelo fetichismo espontâneo ou pelo positivismo final. Diversas partes da humanidade se detiveram em sínteses provisórias em uma ou outra fase intermediária, chegando a pensar que certas populações poderiam passar de uma síntese inicial do fetichismo à síntese final do positivismo sem passar por todas as etapas da dinâmica social, sendo assim a história é o devenir da inteligência humana, e o progresso necessário do espírito é o aspecto essencial da historia da humanidade, voltando agora à questão do saber para prever e prever para poder, Comte afirma que os momentos principais do espírito humano poderiam ser previstos por uma inteligência superior, porque lhe correspondiam a uma necessidade, mesmo assim o movimento da inteligência determina a transformação de outros fenômenos sociais, Comte não encontrou, nem relacionou o progresso da inteligência humana e as transformações da economia, da guerra ou da política.

No que concerne o problema de Comte em explicar a diversidade, estaria relacionado ao fato das diferentes partes da humanidade não compartilharem do mesmo passado, ele justificou enumerando três fatores de variação, a raça, o clima e a ação política.Comte propôs fazermos com que os políticos e os reformadores sociais perdessem a ilusão de que um indivíduo poderia modificar o curso da história, porém não se recusou a admitir que dependeria das circunstâncias, dos encontros ou dos grandes homens que a evolução necessária se produzisse de modo mais ou menos acelerado e que o resultado inevitável fosse mais ou menos custoso. Mas Comte com base na sua teoria do curso inevitável da história se opôs as ilusões dos grandes homens e as utopias dos reformistas.A estática e a dinâmica são duas categorias centrais da sociologia de Comte, a estática consiste no estudo do consenso social, a estática social comporta de um lado a analise anatômica da estrutura da sociedade num certo momento, de outro a análise dos elementos que determinam o consenso, que fazem do conjunto dos indivíduos ou famílias uma coletividade, e da pluralidade das instituições uma unidade.

Comte expôs suas idéias sobre a natureza humana no que chamou de “quadro cerebral”, apresentando-o como um estudo científico das localizações cerebrais, contudo são hipotéticas, o que ele mesmo admitiu, indicou ainda que se poderia considerar que a natureza humana pode ser dupla ou tripla, considerando que o homem é ao mesmo tempo sentimento, atividade e inteligência, ele afirmou que o duplo sentido da palavra coração é uma ambigüidade reveladora, ter coração pode significar ter sentimento ou coragem.Ainda afirmou que o homem não foi feito para perder seu tempo com especulações e dúvidas, foi feito para agir, sendo assim seu impulso virá sempre do sentimento, a alma da humanidade é o motor da ação, a inteligência nunca será mais do que um órgão de direção ou controle.A classificação que Comte deu aos sentimentos é curiosa, ele enumerou os sentimentos egoístas nutritivo, sexual, maternal, e acrescentou as inclinações que embora egoístas, já estão voltadas para as relações com os outros: as militares e as industriais. O instinto militar é o que impulsiona a destruir obstáculos, o industrial é o que nos induz a construir meios, acrescenta mais dois sentimentos, o orgulho e a vaidade, o primeiro é o instinto da dominação, e o segundo é a procura da aprovação dos outros.Os sentimentos não egoístas são três, a amizade, a veneração e a bondade. A inteligência poderia ser dividida em concepção e expressão, a concepção poderia ser ativa ou passiva quando passiva seria abstrata ou concreta quando ativa  indutiva ou dedutiva, a expressão poderia ser mímica, oral ou escrita.A atividade se dividia em três tendências, a virtude, que pressupõem a coragem de empreender, a prudência na execução, e a firmeza na realização ou perseverança, esta é a síntese da teoria da natureza humana de Comte exposta na obra de Aron.

Para Comte as inclinações essenciais estariam presentes desde as origens, ser positivo significaria descobrir essas leis que governam os fenômenos, sendo assim se opôs a um modo otimista e racionalista de ver a evolução da humanidade, e esboçou uma teoria da religião, uma teoria da propriedade, da família, uma teoria da linguagem, do organismo social ou da divisão do trabalho, a sua análise da religião tinha como objetivo mostrar a função da religião em toda sociedade humana, toda sociedade comportaria obrigatoriamente um acordo entre as partes, uma união de seus membros, a unidade social exigiria um reconhecimento de um princípio de unidade por todos os indivíduos, uma religião.Para Comte é a religião que constitui a base da ordem social, é a afeição e a atividade e ao mesmo tempo dogma e crença.

Voltando a questão da importância da propriedade para Comte, não importa se a propriedade é pública ou privada, enquanto função essencial da civilização, é o fato que permite que as obras materiais dos homens durem além da existência de seus criadores e que seja possível a transmissão aos nossos descendentes daquilo que produzimos.No que diz respeito a família para ele é a unidade afetiva, e o organismo social ou a divisão do trabalho corresponde ao elemento ativo da natureza, voltando a família, considerou o modelo ocidental como perfeito, qualquer outra organização familiar diferente era considerada patológica.Para Comte era evidente que o homem deveria sempre comandar a família, pois é ativo e inteligente e deve ser obedecido pela mulher que é sensibilidade, logo na família o poder espiritual esta com a mulher, embora tivesse o sentido de igualdade dos seres, essas igualdades para ele se baseavam em diferenças radicais entre funções e disposições, neste conceito de família podemos convir que para ele a mulher é intelectualmente inferior ao homem, logo é uma situação de superioridade para o homem. Na família os homens têm a experiência da continuidade histórica e aprendem o que corresponde a condição básica da civilização, a transmissão de geração para geração, do capital físico e das aquisições intelectuais.

No que se refere ao subtítulo do subtexto “da filosofia à religião” Raymond Aron deixa bem claro que “a única idéia de religião concebível retirada da sociologia é a de Comte”, pois, não ensina a amar uma sociedade entre outras, o que seria um fanatismo tribal, ou amar a ordem social do futuro, que ninguém conhece e em nome da qual se exterminaram os céticos, o que ele recomenda é o amor à excelência de que alguns homens devem se elevar, e não o amor a sociedade francesa de hoje e nem a russa de amanhã, de acordo com Aron “a sociocracia de Comte é a que lhe parece melhor filosoficamente”, e por isso tenha sido a mais fraca politicamente, de acordo com o que Aron escreve se não fosse um romance com Clotilde de Vaux “Comte não teria concebido a religião da humanidade” se não fosse esse chamado pelo autor de acidente biográfico, Comte desejaria que os homens embora destinados a viver indefinidamente em sociedades temporais fechadas, estivessem unidos por convicções comuns e um objetivo único, o amor.

Bom, a partir do presente texto pode-se concluir que, o positivismo se opôs as abstrações da teologia e da metafísica ao método experimental e ao objetivo da ciência, o positivismo de Comte tentou a síntese dos conhecimentos positivos de sua época. Ao contrário do que afirmaram alguns divulgadores, Comte nunca se inclinou a favor de um empirismo radical. Pelo contrário, situava o positivismo entre o empirismo, a pura experiência direta do fato e o racionalismo, que ele chamava também de misticismo. O saber científico dependeria tanto de dados empíricos como da elaboração racional. O espírito reage, reelabora os dados dos sentidos e os organiza segundo uma hipótese de trabalho e cria uma imagem de mundo formada por elementos empíricos e racionais.

No pensamento social de Comte manifesta-se a influência de seu mestre, Saint-Simon, teórico do socialismo utópico, que recomendava uma reforma da sociedade. Comte se propôs a dois objetivos básicos: a elaboração de uma sociologia, disciplina criada por ele e à qual pensou dar o nome de "física social" sobre a base exclusiva do estudo científico dos dados da experiência, e a reorganização das ciências de acordo com o mesmo critério.A doutrina de Comte, exposta no Curso de filosofia positiva baseou-se na chamada lei dos três estados ou etapas do desenvolvimento intelectual da humanidade.Como vimos anteriormente o primeiro estágio é o teológico, no qual o homem explica os fenômenos da natureza mediante o recurso a entes sobrenaturais ou divindades. No segundo estágio, o metafísico, não se interpreta o mundo sensível em função de seres exteriores a ele, mas apela-se para forças ou conceitos imanentes e abstratos. Por último, no estado positivo, o homem se limita a descrever os fenômenos e a estabelecer "as relações constantes de semelhança e sucessão entre eles". Nesse estágio, que é o da filosofia positiva, não se pretende achar as causas ou a essência das coisas, mas descobrir as leis que as regem, já que a filosofia está "destinada por sua natureza não a descobrir, mas a organizar".

O objetivo básico da filosofia positiva é a ordenação e a classificação das ciências. Comte estabeleceu uma pirâmide de seis ciências puras, na base da qual se encontrava a matemática e a sociologia em seu cume. Todas seriam regidas pelo mesmo método descritivo, e cada uma delas utilizaria os dados proporcionados pelas anteriores. Comte estabelecia assim o princípio da unidade da ciência, incumbiu-se de relacionar os diversos sentidos da palavra "positivo": relativo, orgânico, preciso, certo, útil, real. No mesmo ensaio, parte dessas características do positivo para chegar a uma significação moral e social mais ampla, de reorganização da sociedade, com predomínio do coração e dos sentimentos sobre a razão e a atividade, cujo ápice é a religião da humanidade. O positivismo contém assim uma teoria da ciência, uma doutrina de reforma social e uma religião.
Uma segunda fase na vida do criador da doutrina positivista e principalmente da sociologia, a ciência da sociedade, inicia-se com o predomínio dos propósitos práticos em perda dos teóricos ou filosóficos, fase da qual é bem representativo no seu Sistema de política positiva. Constitui-se então a chamada "religião da humanidade", com ídolos, novo fetichismo, sociolatria, sociocracia, sacerdotes, catecismo, tudo confessadamente muito próximo do catolicismo. Assim, o positivismo assume a condição de um credo baseado na ciência, que não exclui a abertura de templos e a prática de culto. Os aspectos religiosos do positivismo se encontram tratados em O catecismo positivista, o qual infelizmente ainda não tive o privilégio de conhecer, ou melhor, ler.
   
Bianca Wild
Enviado por Bianca Wild em 16/02/2011
Código do texto: T2796282
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2011. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Comentários

Sobre a autora
Bianca Wild
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
88 textos (468090 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/09/14 04:00)