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Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar

Resenha descritiva
FREIRE, P. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho dágua, 1997.

Paulo Freire, ao escrever esse livro, resume-o no mote de que ideologicamente as classes dominantes procuram incutir na sociedade a figura da tia em lugar de professora. Tal designação de acordo com o autor é reducionista em relação à professora, porque a tia sugere outro tipo de responsabilidade legado a parentes consanguíneos. Nesse sentido, uma tia pode nem mesmo amar ou se responsabilizar por seu sobrinho, mas a professora não, esta tem um compromisso ético para com seus alunos diante a profissão escolhida.
Por outro lado, Paulo Freire também mostra a situação relativa aos educandos, fazendo uma reflexão sobre o ato de pensar e de escrever. Para ele, pensar e escrever não são coisas dicotômicas, mas ações conjuntas realizadas pelo indivíduo. Dessa forma, ao pensar ou refletir sobre um objeto, este deve ser pensado e repensado até que se chegue a conhecê-lo, e nesse processo o objeto é diversas vezes reformulado ou transformado. Freire, ao falar acerca de livros escritos por ele anteriormente, diz que ao lê-los atualmente, não faz a mesma leitura, do contrário estaria mentindo.
Os comentários do autor a esse respeito são justamente para afirmar que o analfabetismo castra do adulto, tema predileto do autor, a capacidade de fazer tais reflexões sobre um objeto. Sendo assim, sem habilidade reflexiva, a pessoa pensa mecanicamente e superficialmente em relação ao objeto. Isso tem implicações, como por exemplo, a privação da vida social.
Diante desse quadro político perverso, oriundo do Brasil colônia e atualmente reforçado pelo neoliberalismo, vivido por educador e educando que o autor enfatiza a necessidade de um posicionamento ideologicamete contrário por parte do professor, uma vez que ao se preparar para assumir a profissão, pode fazer as escolhas certas para promover a mudança.
Essas escolhas estão concentradas nas cartas escritas por ele das quais se falará de sete. Em primeiro lugar, o autor enfatiza o ato de estudar que para ele é algo solidário, porque implica em duas ações: o aprender e o ensinar como um ato dialógico entre o professor e o aluno. Isso porque, ao ensinar, o professor também aprende, por outro lado, o aluno ao aprender, aprende a ensinar. Isso requer do professor uma preparação e uma autovalorização, um pensar e repensar de suas práticas, fazendo uma leitura delas, assim como também levará aos alunos a aprender a ler, a compreender situações e sensações. Sobre isso Freire diz: “A leitura de mundo antecede a leitura da palavra”.
Em segundo lugar, o autor conclama os professores a lutar contra as dificuldades impostas pelo sistema neoliberal que impedem o exercício essencial da aprendizagem. Sendo assim, se o professor não se posicionar como progressista de maneira nenhuma conseguirá fazer uma leitura eficiente de seus alunos e de suas práticas. Essa tarefa não é fácil, por isso, muitas vezes pode acontecer de o professor se acovardar diante do primeiro obstáculo encontrado. E como isso é dialógico, e os alunos estão envolvidos nesse processo, como um professor que não sabe pensar suas práticas terá a competência de ensinar seus alunos a ler?
Isso requer a atenção do professor, pois este precisa ter compromisso diante da escola da profissão.  Nesse sentido, ser professor porque não teve outra opção é está buscando um infortúnio para si e para os alunos. Ser professor é um exercício de amor, porque ele terá que se responsabilizar a ensinar/aprender a alunos que necessitam ser mais bem integrados a sociedade e, para isso, enfrentará momentos difíceis. Além disso, a profissão passa por graves problemas políticos e econômicos oriundos do Brasil colônia, como por exemplo, baixos investimentos no magistério. Diante disso, sem o amor e sem a autovalorização como profissional o professor estará fadado ao desânimo, cumprindo mal suas tarefas. Mas um progressista não deve agir dessa forma, todavia, deve descruzar os braços e lutar a fim de encontrar soluções para os problemas educacionais. Mas essa luta, muitas vezes é incompreendida pela sociedade, que acha um absurdo a greve dos professores, por exemplo. Isso é um sinal claro de que os profissionais da educação são vistos por ela como tias. Assim, sem um posicionamento e uma autovalorização dos professores, como vencer essa ideologia neoliberal?
Voltando a falar sobre a atuação do professor na sala de aula em relação aos alunos, ele precisa nutrir certas qualidades frente aos métodos tradicionais, tais como: humildade; amorosidade; tolerância; decisão, segurança, paciência/impaciência. A humildade é importante, pois ensina ao professor a não agir como se soubesse tudo e seu aluno como se fosse uma tábua rasa. Se o professor agir dessa forma não estará acontecendo um diálogo, mas o professor estará agindo com arrogância, com falta de amor, com intolerância, sentimentos contrários a quem educa. E isso resultará em alunos nutridos com os mesmos sentimentos. Paulo Freire vê isso como educação bancária, ou seja, o professor faz os seus depósitos para que futuramente os alunos os usem e os reproduzam. Assim, diante de alunos ainda pouco instruídos e de diversos meios sociais, o professor deve ser tolerante sabendo como respeitá-los, e assim também estará ensinando-os o respeito.
O estabelecimento de diálogo com os educandos e o trabalho pedagógico em si com suas dificuldades pode causar medo ao professor. Mas Freire vê isso como algo natural do ser humano, todavia, é preciso ter coragem para vencê-lo. Freire afirma que o medo é como se fosse uma autodefesa do ser humano, pois quando ele vem à mente, o indivíduo reflete melhor, busca clareza para as suas ações etc. E é esse medo, por conseguinte, que ajuda o professor a ser decidido e a tomas decisões quando está diante de impasses. Mas é somente por meio da segurança que o professor consegue apurar cientificamente se as decisões tomadas estão de acordo com a ética e a política educacional adotada. Paulo Freire ressalta ainda que diante das estratégias e os objetivos a serem alcançados, o educador precisa saber equilibrar a paciência e a impaciência, pois essas são duas qualidade que agem conjuntamente. Em último lugar, Paulo Freire coloca a alegria de viver, qualidade que o professor deve se entregar como forma de se construir uma escola feliz. Segundo ele, não importa se com tristeza ou deslizes, o educador deve viver a alegria e reproduzi-la na escola.
Como seria o primeiro dia de um educador na sala de aula? Paulo Freire aborda tais dificuldades, afirmando que o educador pode expressar timidez, por não ter tido a oportunidade de agir como titular em sala. Essas dificuldades podem levá-lo a agir de forma autoritária para com os alunos. Segundo o autor, é necessário colocar em prática as qualidades indispensáveis vistas nos dois parágrafos anteriores. Usar no diálogo a humildade é um bom caminho, fazer a leitura dos alunos e conhecer de que contextos culturais fazem parte são outras sugestões.
Em sexto lugar, segundo Freire as relações entre educadores e educandos envolve questões tais como: conhecer-ensinar-aprender. Além disso, o discurso do professor reflete aquilo que ele é, por isso, deve-se ter o extremo cuidado para não dizer algo aos alunos e na prática ter uma atitude contrária. Dessa forma, como progressistas, os professores devem optar por agir em favor da justiça e da liberdade em defesa dos menos favorecidos. Fazer com que alunos, por exemplo, cujos pais são favelados e viciados em álcool possam compreender que podem se preparar, estudar e alcançar uma vida melhor é muito difícil. Esse é um dos obstáculos com os quais os professores se deparam no âmbito escolar. A criança ou até mesmo um adulto nesta situação não tem o pleno conhecimento nem mesmo da realidade em que vive, como então poderá ir para a escola e aprender outras realidades? Segundo Freire, é nessa relação entre educador e educando citada acima que está o segredo da mudança, pois essa relação é uma forma de intervenção.
Em fim, nos assuntos abordados nas cartas está a receita para não ser tia ou tio, mas para se assumir como verdadeiro profissional de educação. Além disso, é possível dela extrair contribuições notáveis para o ensino de jovens e adultos.
A tendência pedagógica de Paulo Freire facilita a alfabetização de jovens e adultos, porque é libertária, ou seja, não está ligada aos métodos tradicionais em que há hierarquia, em que os saberes do professor é que contam. Mas, partem dos conhecimentos tanto do professor quanto do aluno, ambos estando em um mesmo nível. Nesse sentido, toda vivência e a experiência do adulto torna-se importante para o processo de alfabetização, porque Freire as une com o conhecimento teórico. É óbvio que nem tudo o professor irá utilizar, mas observando seus alunos priorizará aquilo que for mais relevante para a aula. Essas estratégias criadas pelo educador driblam outro problema comum quando se fala em alfabetização de jovens e adultos: o material didático, que muitas vezes é pouco adequado para essa idade. Por fim, pode-se destacar ainda na educação libertária a questão da avaliação. Para Freire, a avaliação não é um instrumento de tortura que deve reprovar o aluno caso não atinja pontuação positiva, mas serve somente para medir o desempenho.

MENEZES, L. F.
LeandroFreitasMenezes
Enviado por LeandroFreitasMenezes em 08/03/2011
Código do texto: T2834974
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
LeandroFreitasMenezes
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