Cronicontística na literatura goiana

Cronicontística na literatura goiana

Para Alfredo Bosi, a atividade literária, assim como toda obra de arte, ultrapassa toda especificidade individual e se torna um instrumento de enorme importância para a formação e a caracterização da cultura de um povo. Assim, o autor José Faria Nunes transcende a arte literária através da “cronicontística” (neologismo dado à fusão de crônica com conto), pois evidencia através de seus contos no livro “Um rosto miscigenado e outras histórias” os costumes e a religiosidade de um povo. Mesmo sem demarcar uma região específica( em alguns contos), eles retratam, em sua maioria, as cidades interioranas e pacatas, os estereótipos de indivíduos, intertextualidade bíblica, revelação de culturas, costumes, crenças enraizadas socialmente, bem como o erotismo. Tudo isso permeado por um paradoxo: ironia e crítica, aguda e sutil ao mesmo tempo, pois são expostas dentro de uma alegoria premeditada.

Literatura contemporânea. Essa é a principal característica presente nos contos jotafarianos, projetada através de linguagem clara, formal, mas sem ser rebuscada, com predominância do discurso indireto-livre e também há presença de períodos curtos, construídos propositadamente, visando movimento e dinamismo aos textos que expõem os gêneros (cronicontística) mais lidos na literatura brasileira, conforme declara Rubem Braga.

O conto “Um rosto miscigenado” que dá título ao livro jotafariano é narrado em 3ª pessoa e reflete sobre os descasos e hipocrisias sociais. Revela que esse rosto miscigenado (representando uma das raças do povo brasileiro) é, mesmo que inconscientemente, a escória da nossa organização social. A partir de um sepultamento nada convencional, que se passa numa cidade do interior, começam a surgir manifestações ideológicas desse povo, através das ponderações e apresentações feitas pelo narrador. Quem é aquele homem, um indivíduo que ninguém sabe de onde veio “Até parece ter chegado ali só para morrer”. O caixão é doado, o rosto miscigenado (revelado só no final do conto) só não foi ignorado, a esmo, por causar transtornos como mau cheiro. A ironia é evidente. Esse indivíduo não tem identidade, não apresenta memória construída socialmente. Ele é só um corpo, que em estado de decomposição, poderia incomodar os cidadãos “descentes”. Assim, o cortejo fúnebre tornou-se um serviço de utilidade pública. O autor revela o brilhantismo de sua crítica social e política através de sua obra.

Uma recorrência evidente, na maioria dos contos da obra em estudo, é a intertextualidade com tradições e manifestações religiosas. Além disso, José Faria reporta-se à mitologia a fim de construir personagens como Eros e Afrodite, todavia esses personagens percorrem tempo e espaço e são apresentados no contexto moderno, permeados pela linguagem tecnológica, midiática e moderna. Outro interessante recurso, evidenciado na cronicontística jotafariana, é a presença de juízos de valor socialmente aceitos ou em fase de aceitação como liberdade sexual e homossexualismo (presente no conto “O culpado”), bem como interessante feed back ,isto é, uma lembrança ou um fato que se passa dentro do outro(memória), porém evidencia, neste ponto, a arte literária individual do autor em estudo para discutir uma temática dentro de outra. Exemplo claro está no conto “A perseguição” em que ele “o jovem” julga que está sendo perseguido, e revela seus conflitos psicológicos, transita entre o problema de consciência, notifica costumes, e reflete sobre a postura de um indivíduo a fim de concorrer a uma eleição, demonstrando tais reflexões com leve humor.

No conto “Zezinho e o pé de frango” José Faria desperta emoção, mesmo sem fazer uso de sentimentalismos. Com linguagem clara, direta (estilo similar a Graciliano Ramos em Vidas Secas), leva o leitor à reflexão, através do discurso indireto livre em que o narrador, além de expor as dúvidas de Zezinho, revela embate entre as tradições religiosas e a efetivação de fé proposta pelas Escrituras, pois, muitas vezes, essas tradições são seguidas, mas sem justificativas e reflexões. Todos os questionamentos de Zezinho passam ser também, graças ao talento literário do autor, indagações do leitor. Além disso, a situação socioeconômica da família de Zezinho aparece diluída no conto a fim de apresentá-la aos poucos ao leitor e causar impacto com um final surpreendente do qual se pode fazer de uma relação de intertextualidade: “Ao filho, o pé de frango”.

Interessante e recorrente é o fato de os contos jotafarianos partir da premissa de pensamento de criança. Assim como o Zezinho, em “O carneirinho do presépio” o narrador revela não só a linguagem socialmente discriminada, como a postura de uma criança em noite de natal: os sonhos, os desejos. Mesmo em 3ª pessoa, a visão do menino é evidente, reflexiva. Vale ressaltar ainda, que após a leitura do conto, o título fica bem mais persuasivo, pois afinal, quem é o carneirinho “do” presépio? Podem-se valorizar também as respostas aos enunciados do cotidiano (referência a Bakhtin), confirmando que o presépio é também uma metáfora ou basta apreender a condição daquele menino, na igreja, em noite de natal.

“Um rosto miscigenado e outras histórias” é uma obra que revela brilhantismo e talento presentes na literatura goiana.

Rosimeire Soares
Enviado por Rosimeire Soares em 09/06/2011
Código do texto: T3023968