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Resenha: Dom Casmurro - Machado de Assis

                              Oblíquo olhar de Capitu

                                                             Júlia Marssola
 

   O Realismo no Brasil origina-se a partir de um mesclado de relevantes influências filosóficas e literárias europeias, como o positivismo, niilismo e determinismo. Seus autores praticantes guiaram-se por vertentes distintas, adequando sutilmente suas obra ao referido modelo. Além de Aluísio Azevedo e Raul Pompeia, outro ilustre representante desse modelo é Machado de Assis, com destaque para um de seus mais famosos clássicos: Dom Casmurro.

   Torna-se claramente perceptível a incorporação de alguns princípios realistas à sua composição, a começar pelo universalismo, isto é, escolha de um tema inerente aos seres humanos inseridos em sociedade, no caso, adultério. Há também a utilização constante da metalinguagem, explorada como poderoso recurso para aliviar a tensão da narrativa. A divisão textual em capítulos curtos denota a importância relativa de cada etapa para o narrador que, por estar em 1ª pessoa, permite-se ao deleito da parcialidade.

   Machado de Assis adentra os traiçoeiros labirintos da mente humana através da descrição, em flashback, dos periclitantes infortúnios de um garoto extremamente inseguro e apreensivo que busca, por meio de um dramático relato de sua vida, encontrar-se a fim de atar as duas distantes pontas da juventude e da velhice..

   Bentinho nasce já encarregado do cumprimento da dolorosa promessa de sua mãe que, aturdida pela morte do primeiro filho, compremete-se a fazer do segundo padre. Vizinho de ordinários trabalhadores, apaixona-se, no auge de seus ingênuos 15 anos, pela enigmática jovem Capitu, cujos hipnotizantes olhos de ressaca atingiam poder imensurável. Como que um porto seguro, representava-lhe uma figura de caráter superior, marcada pela astúcia, segurança e dissimulação. É evidente em algumas passagens que demonstram essas suas intrínsecas e peculiares características a prática da estrutura Realista, como a ironia e o sarcasmo. Irrevogavelmente envolvido por esse romance, procura incessante de frustradamente livrar-se da promessa, desejando diabólicas circunstâncias que não se concretizam, como a morte de D. Glória, sua mãe. Essa extensa primeira parte da infância e adolescência foge, a partir de envolventes digressões e alusões literárias adicionadas com maestria pelo autor, à monotonia. Seus sucessivos malogros resultaram no maior pesadelo dos enamorados: a separação. Vai para o seminário, período brevemente relatado no livro, evidenciando o baixo grau de importância para o narrador. Lá conhece Escobar que, ao revelar-se como amigo fiel e inseparável, conquista a confiança de D. Glória e consegue, juntamente com Bentinho, deixar o seminário, uma vez que também não lhe agradava a castidade. Assim que livres, este se forma em direito, e aquele segue carreira como comerciante.

   Ocorre, então, um compartilhamento de consistentes vínculos afetivos: Bentinho, cumprindo seu deslumbrado juramento infantil, casa-se com Capitu, cuja melhor amiga Sancha, torna-se esposa de Escobar. A aparentemente inofensiva amizade dos casais estreitava-se gradativamente. Nesse instante crucial da narrativa, nota-se também algumas referências à situação feminina e econômica da época, evidenciadas pela insistência de Capitu à inserção na vida social e a retratação das mulheres como autoras de seu próprio destino, criticando implicitamente a sociedade marcada pelo machismo e preconceito. Com o passar do tempo, vem a primeira filha Capitolina, assim nomeada por Escobar e Sancha a fim de homenagear a amiga. O outro casal, em contrapartida, não conseguia ter filhos, que se tornavam objetos de profunda aspiração e desejo. A euforia é alcançada com a notícia da vinda do herdeiro de Bentindo, Ezequiel. É com a chegada desse que origina-se a grande interrogação da obra, acerca de sua paternidade, a qual não nos é dirimida. Curiosamente, à medida que crescia, revelava obscuras semelhanças com Escobar: o andar, os olhos, a feição…

   Tomado pelo desenfreado ciúme, perpetuam-se nefastos pensamentos de ódio e horror, que são agravados pelo comportamento da esposa frente à morte de Escobar. Diante disso, não lhe restara outra alternativa senão a separação. Capitu vai com o filho para a Suíça;

   Anos depois, já após a morte de seus entes queridos, o filho regressa para comunicar-lhe sobre a morte da mãe: a explícita figura de Escobar.

   O intrigante desfecho propõe ao leitor um período de profunda reflexão sobre a genialidade da obra, minuciosamente desenvolvida com um possível intuito de desabafo. Elegantemente escrito, contribui consideravelmente para a ampliação do vocabulário e escrita. Inundado de preciosa intertextualidade, como nas passagens que remetem às obras de Shakespeare e Raul Pompeia, é notável a influência para extensão do conhecimento de mundo.

   A ambígua e envolvente trama é formentada em consistentes críticas aos costumes da época, que apresentam-se como indispensáveis fatores à formação de opiniões. O púlbico-alvo é selecionado. Contudo, seria interessante a leitura de jovens de 14 a 18 anos cujo conhecimento e maturidade já suportam uma leitura de tamanha magnitude cultural e literária.

   Fantástica, é também uma excelente opção para os amantes intelectuais de Machado de Assis e apreciadores da boa literatura.
Júlia Marssola
Enviado por Júlia Marssola em 13/06/2011
Código do texto: T3032481
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Sobre a autora
Júlia Marssola
Uberaba - Minas Gerais - Brasil
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