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RESUMO DO LIVRO “LITERATURA PARA QUÊ?” DE ANTOINE COMPAGNON

                                José Flávio Nogueira Guimarães
                                Mestre em Letras: Estudos Literários pela UFMG

        Trata-se de palestra inaugural da nova cátedra de literatura do Collège de France em Paris, proferida no dia 30 de novembro de 2006 às 18 horas diante de um anfiteatro lotado quando telões tiveram que ser alocados nos salões externos para as pessoas que queriam assistir à leitura de “Literatura para quê?” e não puderam entrar devido à superlotação.
        O autor também é professor e inicia seu discurso com uma pergunta: - “Torna-se professor aquele que não soube deixar a escola?”
        Antoine Compagnon afirma que teoria e história ainda designam as duas “maneiras” da crítica, a antiga e a nova, e usa os dois verbetes como subtítulos da sua nova cátedra: “Literatura francesa moderna e contemporânea: história, crítica, teoria”.
        Retórica e poética, história literária e filologia não chegam ao âmago de uma obra literária, mas apenas a generalidades e ao circunstancial: um movimento, uma escola; algo que pode ser explicado pelo contexto. “A alternância da filologia e da poética foi, portanto, durante muito tempo, a regra. Reprovava-se à história literária ser somente uma sociologia da instituição, fechada ao valor da obra e ao gênio da criação: ‘A biografia, as moralidades, as influências [...] são os meios de dissimulação dados à crítica para mascarar sua ignorância do objetivo e do tema’, censurava Valéry. Acusava-se o formalismo de limitar o texto a um jogo abstrato e anônimo, a ‘uma solução anônima ou geométrica das probabilidades da linguagem’”. Coube então a Georges Blin  “conciliar o melhor das duas tradições” e engendrar o reencontro do estudo literário com o “conhecimento disciplinar das obras da comunidade de uma época e sob o privilégio de um destino”. Toda essa disputa não teve mais razão de ser no final do século XX.
        “Sem desconhecer a tensão secular entre criação e história, entre texto e contexto ou entre autor e leitor, por minha vez, proporei aqui sua conjunção, indispensável ao bem-estar do estudo literário. Talvez porque eu tenha vindo a este inocentemente e por vias insólitas, sempre resisti a esses dilemas impostos e recusei as exclusões mútuas que pareciam fatais à maior parte de meus contemporâneos. O estudo literário deve e pode consertar a fratura da forma e do sentido, a inimizade factícia da poética e das humanidades.”
        “A teoria e a história serão as maneiras, mas a crítica – quero dizer, o julgamento ou a avaliação – serão sua razão de ser. [...] A história que remete o texto a suas origens, e a crítica que o traz para nós. Aqui será necessário imaginar uma hélice tripla, pois os três fios da teoria, da história e da crítica tornam-se essenciais para amarrar o estudo literário, ou para reatar com ele na plenitude de seu sentido. Para mim, depois dos tempos da teoria e da história, veio o momento da crítica.”
        “Calvino ainda falava como Proust no ‘Tempo recuperado’: ‘A vida verdadeira, a vida afinal descoberta e tornada clara, por conseguinte a única vida plenamente vivida, é a literatura.’ A realização de si, julgava Proust, acontece não na vida mundana, mas pela literatura, não somente para o escritor que se consagra a ela inteiramente, mas também para o leitor que ela emociona durante o tempo em que ele se dá a ela: ‘Somente pela arte, continuava Proust, podemos sair de nós mesmos, saber o que enxerga outra pessoa desse universo que não é igual ao nosso, e cujas paisagens permaneceriam tão ignoradas de nós como as por acaso existentes na lua’.”
        “A míngua da cultura literária não nos traça, portanto, um futuro impossível. Eis porque, ao lado da pergunta tradicional desde Lamartine, Charles Du Bos e Sartre, ‘que é a literatura?’, questão teórica ou histórica, coloca-se hoje mais seriamente a pergunta crítica e política: ‘O que a literatura pode fazer?’ Em outras palavras: ‘Literatura para quê?’ E azar se, arriscando-se a respondê-la, parece-se ingênuo ou ‘démodé’ depois de anos de discussão teórica sobre a ‘literariedade’ – qualidade da forma que estabelece a literatura como literatura mais que a função cognitiva, ética ou pública da literatura -, pois a esquiva seria irresponsável quando um ‘Adeus à Literatura’ se publica a cada temporada.”
        “Qual a pertinência [...] da literatura para a vida? Qual é a sua força, não somente de prazer, mas também de conhecimento, não somente de evasão, mas também de ação? Essas adições se tornam mais imperiosas depois da época das vanguardas, quando a fé no progresso faz uma pausa. Que se tenha sido a favor ou contra ela, essa fé determinou o movimento da modernidade: a literatura era conduzida pelo projeto de ir sempre além, seguindo um impulso que, com as vanguardas, tomou a forma do ‘sempre menos’: purificação do romance e da poesia, concentração de cada gênero em si mesmo, redução de cada ‘medium’ à sua essência. Os desafios técnicos ocupavam o primeiro plano: restrição da personagem ao ponto de vista ou ao monólogo interior, posteriormente apagamento da personagem. O ‘Nouveau Roman’ erguia-se contra o romance de análise, a poesia contra a narrativa, o Texto contra o autor... [...] Toda menção ao poder da literatura era julgada obscena, pois se entendia que a literatura não servia para nada e que somente o domínio dela contava. Mas em nossa época de latência em que o progressismo como confiança no futuro não está mais na ordem do dia, o evolucionismo sobre o qual a literatura repousou durante todo um século parece ter chegado a seu termo. Em sua última aula no Collège de France, em 1980, Roland Barthes, em busca de uma terceira forma literária entre o ensaio e o romance, esperava o advento de um ‘Otimismo sem Progressismo’. Se sua história, seu progresso e seu movimento autônomo não legitimam mais a literatura, como fundamentar sua autoridade?”
        “’A verdade é que as obras-primas do romance contemporâneo dizem muito mais sobre o homem e sobre a natureza do que graves obras de Filosofia, de História e de Crítica’, assegurava Émile Zola. Exercício de reflexão e experiência de escrita, a literatura responde a um projeto de conhecimento do homem e do mundo. Um ensaio de Montaigne, uma tragédia de Racine, um poema de Baudelaire, o romance de Proust nos ensinam mais sobre a vida do que longos tratados científicos.”
        Agora o autor lembra três explicações familiares do poder da literatura.
        1. “A primeira é a definição clássica que permite a Aristóteles, contra Platão, reabilitar a poesia em nome da boa vida. É graças à ‘mimesis’ – traduzida hoje por representação ou por ‘ficção’, de preferência a ‘imitação’ – que o homem aprende, ou seja, pelo intermédio da literatura entendida como ficção.”
        2. “Uma segunda definição do poder da literatura, surgida com o Século das Luzes e aprofundada pelo romantismo, faz dela não mais um meio de instruir deleitando, mas um remédio. Ela liberta o indivíduo de sua sujeição às autoridades, pensavam os filósofos; ela o cura, em particular, do obscurantismo religioso. A literatura, instrumento de justiça e de tolerância, e a leitura, experiência de autonomia, contribuem para a liberdade e para a responsabilidade do indivíduo, valores do Século das Luzes que presidiram à fundação da escola republicana e que explicam o privilégio que esta conferiu ao estudo do século XVIII em detrimento do XVII, católico e monarquista, a Voltaire contra Bossuet. [...] O próprio Sartre, fiel ao espírito do Século das Luzes, imputava à literatura – mesmo que ‘não haja livro que tenha impedido uma criança de morrer’ - o poder de nos fazer escapar ‘das forças de alienação ou de opressão’.”
        “A literatura é de oposição: ela tem o poder de contestar a submissão ao poder. Contra poder, revela toda a extensão de seu poder quando é perseguida. Resulta disso um paradoxo irritante: a liberdade não lhe é propícia, pois a priva das servidões contra as quais resistir. Por conseguinte, o enfraquecimento da literatura no espaço público europeu no final do século XX poderia estar ligado ao triunfo da democracia: lia-se mais na Europa, e não somente no Leste, antes da queda do muro de Berlim.”
        “Mas todo remédio pode envenenar: ou ele cura, ou intoxica, ou então cura intoxicando, tal como o ‘remédio do mal’ do belo título de Jean Starobinski. Fica-se doente de literatura como Madame Bovary ou dês Esseintes. Se a literatura liberta da religião, ela mesma se torna um ópio, isto é, uma religião de substituição, segundo a visão marxista da ideologia, pois tal é a ambivalência de todo substitutivo.”
        “A literatura teve o papel de moral comum no século XIX e no início do século XX, depois da religião e esperando a vez da ciência: Auguste Comte, Sainte-Beuve, Gustave Lanson – ou Matthew Arnold na Inglaterra – promoveram uma substituição realizada de maneira exemplar na escola da Terceira República. Muralha contra a ‘barbárie do interior’, como os perigos do imoralismo proletário eram designados na Inglaterra, ela elevará o povo a um ideal estético e ético e contribuirá para a paz social. É assim que os grandes escritores foram arregimentados a serviço da nação.”
        3. “Segundo uma terceira versão do poder da literatura, esta corrige os defeitos da linguagem. A literatura fala a todo o mundo, recorre à língua comum, mas ela faz desta uma língua particular – poética ou literária. Desde Mallarmé e Bergson a poesia se concebe como um remédio não mais para os males da sociedade, mas, essencialmente, para a inadequação da língua.”
        [Proust] “concebe a memória involuntária como o lugar do verdadeiro eu, mas o filósofo dentro dele choca-se contra essa intuição, ao passo que o romancista, deslocando os contornos da língua, fará com que nós a compreendamos. Ensinando-nos a não sermos enganados pela língua, a literatura nos torna mais inteligentes, ou diferentemente inteligentes. O dilema da arte social e da arte pela arte se torna caduco face a uma arte que cobiça uma inteligência do mundo liberta das limitações da língua.”
        Foucault => “As próprias vanguardas teóricas, mesmo que tenham tentado, não souberam renunciar ao poder que teria a literatura de exceder as limitações da língua e as fronteiras da filosofia. Michel Foucault nunca trata a literatura como um dispositivo de poder com o mesmo estatuto dos outros discursos. Iludindo seu regime geral, ela continua a ser uma referência privilegiada, situada fora da filosofia, livre dos determinismos aos quais os outros discursos estão sujeitos, excessiva. A literatura lhe servia para ‘[s]e livrar da filosofia’. Foucault mostrava que todos os discursos eram só literatura mas que, como somente esta assumia seu estatuto, por um tipo de ironia poética ela se sobrepunha aos outros discursos e conservava sua grandeza.”
        Barthes => “Quanto a Roland Barthes, aqui mesmo ele qualificou a língua como ‘fascista’, ‘pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer’. E acrescentava tão logo – o de que menos se lembrou – que só a literatura, trapaceando com a língua, trapaceando a língua, salvava a língua do poder e da servidão, como Bergson opunha o ‘se fazendo’ da poesia ao ‘feito’ da filosofia: ‘Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder [...], eu a chamo, quanto a mim: ‘literatura’.”
        A literatura e o Holocausto => “Mais gravemente, Theodor Adorno e Blanchot contestaram a possibilidade de ainda se compor um poema ou de se escrever uma narrativa depois de Auschwitz. Julgavam a literatura vã ou mesmo culpada, pois ela não havia impedido o inumano. A partir de então, a arte não mais podia pretender redimir o horror nem reabilitar a vida, e a literatura estava acometida por interdições.”
        “A recusa de qualquer outro poder da literatura além da recreação pode ter motivado o conceito degradado da leitura como simples prazer lúdico que se difundiu na escola do fim do século. [...] A literatura quis responder com sua neutralização ou banalização ao dano causado por sua longa conivência com a autoridade, e inicialmente com os Estados-nação cuja emergência ela ajudou. Depois dos Estados Unidos, a França foi conquistada pelo ressentimento contra a literatura vista como o exercício de uma dominação. Invertendo a idéia do Século das Luzes, ela é cada vez mais freqüentemente percebida como uma manipulação, e não mais como uma libertação. Outro dia, surpreendi três meninos parados na porta de uma livraria, como se fosse um local suspeito; um deles protestava orgulhosamente: ‘Nunca abri um livro na vida. Você me faz entrar justo aí dentro!’”
        “Ora, é mais cômodo anular a literatura que reconstruir sobre ela. [...] Não há, com efeito, saída extraordinária – isso se saberia – nem remédio miraculoso. Por que ler? Outras representações rivalizam com a literatura em todos os seus usos, mesmo moderno e pós-moderno, seu poder de ultrapassar os limites da linguagem e de se desconstruir. Há muito tempo ela não é mais a única a reclamar para si a faculdade de dar uma forma à experiência humana. O cinema e diferentes mídias, ultimamente consideradas menos dignas, têm uma capacidade comparável de fazer viver. E a idéia de redenção pela cultura carrega um ranço de romantismo. Em suma, a literatura não é mais o modo de aquisição privilegiado de uma consciência histórica, estética e moral, e a reflexão sobre o mundo e o homem pela literatura não é a mais corriqueira. Isso significa que seus antigos poderes não devam ser mantidos, que não mais precisamos dela para nos tornarmos que somos?”
        “A literatura deve, portanto, ser lida e estudada porque oferece um meio – alguns dirão até mesmo o único – de preservar e transmitir a experiência dos outros, aqueles que estão distantes de nós no espaço e no tempo, ou que diferem de nós por suas condições de vida. Ela nos torna sensíveis ao fato de que os outros são muito diversos e que seus valores se distanciam dos nossos. [...] Sobre essa premissa revigorada, a fórmula humanista, doravante fora de todo conflito com a religião e a ciência, pode ser repensada, a de Montaigne ou Bacon, assegurando que o homem culto vive melhor, que a literatura contribui para a boa vida. Samuel Johnson havia perfeitamente resumido: ‘O único fim da literatura é tornar os leitores capazes de melhor gozar a vida, ou de melhor suportá-la.’ T.S. Eliot repetia em 1949 que ‘a cultura pode ser descrita simplesmente como o que torna a vida digna de ser vivida’. Para ele, a condição humana não podia ser compreendida em sua complexidade sem o auxílio da literatura e, portanto, aqueles que lêem os melhores escritores, julgava, sabem mais sobre o mundo e vivem melhor.”
        “Por sua vez, o crítico Harold Bloom e o escritor Milan Kundera não mais têm escrúpulos para reatar com uma ética da leitura: ‘A resposta final à pergunta – por que ler? – escreve Bloom, é que somente a leitura intensa, constante, é capaz de construir e desenvolver um eu autônomo.’ Em favor da leitura cria-se uma personalidade independente capaz de ir em direção ao outro. Paul Ricoeur não sugeria outra coisa quando colocava que a ‘identidade narrativa’ – aptidão em colocar em forma de narrativa de maneira concordante os acontecimentos heterogêneos de sua existência – era indispensável à constituição de um ética. [...] ‘Torne-se quem você é!’, murmura-me a literatura.”

REFERÊNCIA:
COMPAGNON, Antoine. Literatura para quê? Trad. Laura Taddei Bandini. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2009.

 
José Flávio Nogueira Guimarães
Enviado por José Flávio Nogueira Guimarães em 30/11/2011
Reeditado em 26/08/2014
Código do texto: T3364464
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Flávio Nogueira Guimarães
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