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Texto

"Quá Quá é a mãe" Texto teatral de Flávio Cavalcante

Quaquá é a mãe...
Comédia teatral
De
Flávio Cavalcante



ROLL DOS PERSONAGENS

MARILDA
QUAQUÁ
ALBUQUERQUE





A estória se passa em uma sala de uma determinada residência de família classe média. Estilo do texto. Comédia. Marilda está em cena com o telefone na mão.


MARILDA
(Nervosa e caricata). Quaquá venha cá...
QUAQUÁ
Eu já falei pra senhora que Quaquá é nome de pato... Eu não agüento mais os meus colegas de classe estarem me chamando de pato... Não tinha um nomezinho mais feio pra colocar em mim não?
MARILDA
Eu recebi uma queixa de sua professora... E resolvi enfiar a mão...
QUAQUÁ
(Espantado e com medo). Na minha cara?
MARILDA
Não, múmia, dentro de sua bolsa...
QUAQUÁ
(Com raiva). Eu não admito que ninguém mexa nas minhas coisas... Dessa vez a senhora errou feio... E foi longe demais...
MARILDA
Se eu fosse um homem nesse momento, eu partiria sua cara em pedacinho... (Transição). O senhor poderia me dizer o significa isso aqui, Quaquá? (Marilda puxa de dentro da bolsa um cigarro feito de palha).
QUAQUÁ
É um cigarro...
MARILDA
E desde quando você fuma, Quaquá?!
QUAQUÁ
Quaquá é nome de pato, eu sou um cara revoltado na minha vida... Se a senhora quer saber mesmo que cigarro é esse, eu vou lhe dizer... É maconha... Não é isso que a senhora gostaria de saber?!
MARILDA
(Escandalizada). Oh! Maconha? E esse vidro aqui, cheio de farinha?! ...
QUAQUÁ
Ôh mulher burra... Isso não é farinha... É cocaína... Pode meter a mão na bolsa que a senhora vai encontrar algumas seringas, algodão e também algumas agulhas descartáveis...
MARILDA
(Tensa e decepcionada). Você está precisando de um tratamento psiquiátrico... (Pega o telefone). Eu vou telefonar para o seu pai...
QUAQUÁ
Papai está trabalhando e no trabalho dele, não tem telefone, esqueceu?!
MARILDA
Então eu vou telefonar pra... Polícia... Isso é caso de polícia! (Disca o número). Alô, eu quero falar com a polícia... (Transição). Ah, é o delegado?! Então, me desculpa, eu disquei errado (Desliga o telefone bruscamente e atordoada)... Eu não acredito que eu pari um maníaco... A gente passa a vida toda dando de tudo pra um filho e depois o pagamento que a gente recebe é um desses...
QUAQUÁ
Maníaco não, revoltado... (Gritando). Eu odeio vocês... Os meus amigos cansam de me chamar de pato, por causa desse nome horroroso... Eu quero morrer... Eu vou tomar drogas até morrer... (Entra o pai de Quaquá).
ALBUQUERQUE
Que diabo de gritaria é essa mulher?! O que é que está acontecendo?! Na entrada do apartamento, eu pensei que tinha uma festa de carnaval aqui dentro... O que a vizinhança não vai falar de nosso respeito?!
MARILDA
(Em prantos). Albuquerque... Manda a vizinhança catar lata...
ALBUQUERQUE
Por que esse pranto, Marilda?! (Transição). O que foi que você andou aprontando com a sua mãe, Quaquá?
QUAQUÁ
(Repreende). Quaquá é a vovozinha...
MARILDA
Essa foi com a mamãe, Albuquerque... Eu não estou agüentando mais esse menino... Eu vou desabar de mundo á fora... Se quiser dê conta dessa praga, que por sua causa está aí me atormentando o juízo...
ALBUQUERQUE
Eu não admito que você fale assim da sua avó, Quaquá... Ela sempre foi uma pessoa que teve a cabeça no lugar, a coitadinha engoliu a dentadura e morreu engasgada... Pobre coitada, mas sempre foi uma boa pessoa...
MARILDA
(Desesperada escandalosamente). Albuquerque... Graças a Deus que você chegou... Esse amarelo, buchudo, ainda é cabeça de papagaio... E se ele não deixar de tá usando isso aqui, vai ficar encarquilhado, mambembe, esquizofrênico, estrepitoso, Albuquerque e ainda por cima vai ficar com um desvio nos olhos, Zarolho! Depois que eu quebrar o cabo da vassoura na cabeça dele... Eu não sei com quem ele aprendeu esse tipo de comportamento! Eu não dei esse tipo de educação...
ALBUQUERQUE
(Pega o material que estava dentro da bolsa de Quaquá). Você está tomando isso aqui?! Eu não acredito que você está tendo coragem...
QUAQUÁ
De mamar em onça... Todo tipo de droga eu estou por dentro... Isso aqui... (Com o cigarro). É chamado de palhinha... Morou, meu irmão?!...
MARILDA
(Escandalizada). E tá na gíria também, Albuquerque... Eu estava tão nervosa que não consegui ligar nem pra polícia...
ALBUQUERQUE
(De salto). Ligar pra polícia, Marilda!? Você enlouqueceu de vez?! Essas coisas a gente tem que abafar... A vizinhança não pode saber de nada... Feche as portas... Amanhã mesmo eu vou leva-lo para fazer o teste de HIV... (Transição). Desde quando você começou, meu filho?!
QUAQUÁ
Já tem um tempo... Eu vou lhe mostrar como eu aprendi tudo direitinho... Pega-se a seringa...
ALBUQUERQUE
(De salto). O que você pensa que vai fazer? Pelo amor de Deus largue isso aí... (Marilda desmaia). Tá vendo só o que foi que você acabou de fazer com a sua mãe? (Abana a Marilda).
QUAQUÁ
Ela só fez desmaiar... O que é que tem demais nisso? (Marilda vai acordando).
MARILDA
Filho desnaturado... Eu vou morrer antes do tempo, Albuquerque... Eu já estou de rugas na cara por causa deste traste, que todo dia vem com um assunto, uma história diferente... Mas pode ficar certo, Albuquerque... Antes dele me matar eu ainda acabo com um pestinha desse...
QUAQUÁ
(Aos berros). Pestinha! Mais uma pro meu caderno... Além de pato...
ALBUQUERQUE
(Tentando amenizar). Ela estava brincando, meu filho... Não vai se revoltar, por causa disso, não é mesmo?
MARILDA
Vamos ter uma conversa de mãe para filho... Me diga uma coisa ... Vem cá, Albuquerque... Fica perto de mim, por que se eu cair, não vou bater com a bunda no chão...
QUAQUÁ
Só não venha me perguntar se eu desmunheco...
MARILDA
Pederasta não... É demais pra uma mãe! Eu sabia que ele ia confirmar, Albuquerque... (Passando mal). Ai, dessa vez eu não levanto mais... (Faz menção de vai cair, mas o Albuquerque segura. Transição). Eu não vou cair não... Eu vou dar uma surra de cinturão nele que nunca mais ele vai aprontar essas coisas...
QUAQUÁ
Só por causa de minha revolta? Isso é o que me deixa mais revoltado ainda...
ALBUQUERQUE
Se acalme, Marilda... Se acalme! (Transição com o Quaquá). Eu vou lhe ajudar a sair dessa... É por causa de seu nome, que você faz essa coisas?! Vou arrumar o melhor advogado para mudar... Não quero ver você perdido no mundo com essas coisas que não prestam...
MARILDA
Marreta mesmo, Albuquerque... Essa juventude tem cabeça de cocô de galinha...
QUAQUÁ
O senhor me promete mesmo que vai trocar o meu nome...
ALBUQUERQUE
Claro que sim... Você pára com essa estória de drogas, que não tem valor de nada? E eu lhe prometo tudo, que você quiser...
QUAQUÁ
Mais é exatamente isso, que eu quero, parar com essas drogas... Veja bem o que vocês estão fazendo... Quer dizer então, que eu posso jogar todo material no lixo?! ...
MARILDA
Claro...  Eu mesma vou buscar o lixeiro... (Sai de cena).
ALBUQUERQUE
Agora você está sendo um menino de dar inveja...
 QUAQUÁ
E o senhor é uma paizão... Eu adorei a idéia... Me dê logo um cheque aí... Graças a Deus , eu não vou fazer esse maldito trabalho ...
MARILDA
(Entra em cena). Olhe aqui o lixeiro... Por favor, jogue tudo aqui dentro!
QUAQUÁ
(Joga tudo no lixeiro). Pronto... Nunca mais eu quero esse assunto na minha frente... Odeio esse tipo de Matéria...
ALBUQUERQUE
Do que você está falando?!
QUAQUÁ
Do trabalho que o professor passou... O senhor acabou de me livrar desse assunto chato...
ALBUQUERQUE
(Ri). Quer dizer então, que você estava estudando sobre as drogas?!
MARILDA
Você não estava tomando drogas, meu filho?! Você... Não desmunheca?
QUAQUÁ
Que idéia mais doida... Tou fora... O professor passou uma pesquisa sobre o assunto e eu, juntamente com o meu grupo, conseguimos todo material... Mas o senhor cortou o barato do professor... É isso aí paizão... O senhor é demais... (Beija o pai).
ALBUQUERQUE
Ah, então, trate de pegar tudo de dentro do lixeiro e dar continuidade ao seu trabalho... Houve um equívoco... Que droga!
QUAQUÁ
Eu não quero nem ver esse negócio na minha frente... (Até logo. Sai).
MARILDA
E agora, Albuquerque?!
ALBUQUERQUE
E agora nós temos que fazer o trabalho por ele, se não ele vai acabar repetindo o ano de novo e nós vamos ter que pagar o colégio de novo. (Os dois começam a pegar o material do lixeiro e espalha na mesa, abrem um livro e começam a fazer o trabalho no lugar de Quaquá. As luzes se apagam e chega o fim da peça).


(FIM).
Flavio Cavalcante
Enviado por Flavio Cavalcante em 11/04/2009
Código do texto: T1533420

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Sobre o autor
Flavio Cavalcante
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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