(Anjo da Fé, cemitério São João Batista, Rio de Janeiro)

 
 
"Na bruma sepulcral que o céu embaça
Quem me dera morrer então risonho
Fitando a nebulosa do meu sonho
E a Via-Láctea da ilusão que passa!"
(Augusto dos Anjos, in Ecos d'Alma)
 
 


NA HORA DO ADEUS
 
Eis que o céu escurece no frio espaço,
Já não há encanto na poesia e no amor,
A noite se aproxima – sinto seu passo -  
Penetra meu íntimo seu infindo fragor...  
 
Na alma sinto mover todas as dores,
Até as aves, tristes, cessam seu canto,
No jardim, já sem vida, as minhas flores
Lançam à terra sua tristeza em pranto...
 
O melhor de mim também, hoje, morreu,
E em brancas e frias vestes subiu ao céu…  
Na hora do adeus as flores s’agitaram:
 
No crepitar da memória inda presente,   
Despediram-se daquela que amaram,
Espirando seu aroma em ritmo dolente...
 
Ana Flor do Lácio




Obrigada, mestres Miguel Jacó e Jacó Filho, pelas brilhantes interações. A presença dos dois irmãos poetas iluminou infinitamente a minha sala e me deixou muito feliz. Abraços em ambos, com a amizade e a consideração de sempre.



ESTE TÉDIO TAMBÉM JÁ ME TOMOU
 
Mas este tédio também já me tomou conta,
O meu corpo é andarilho sem mas vertentes,
Quando escrevo é um simples prestar conta,
Dum pensar que não reflete a minha mente.
 
Tempos antes minhas vísceras eram afoitas,
Estremeciam quando diante dum corpo lindo,
Já hoje em dia parece até que ando fugindo,
Não me apetecem mas as chamas de um coito.
 
Os sentimentos aos quais velei todo o fervor,
Me abandonaram neste momento sem calor,
Me sinto apático sem remorsos e sem dores.
 
Nada ficou daquele ser com as redundâncias,
Se quer os ventos sopram com a mesma ânsia,
Morreu em mim,todo ensejo,homem criança.

 

Miguel Jacó





"O RENASCIMENTO"

Somos rosa colhida na força dos ventos,
Cujo frescor e cheiro, ficam no caminho...
Partimos tal nascemos, e agora sozinhos,
Desvendamos a eternidade, num momento...

Revemos em câmara lenta, a nossa vida,
Aprendemos ao partir, o grande segredo...
Poderia ter vivido, não fizemos de medo...
A essência do existir passa despercebida...

Lágrimas quentes nossa lápide, molham,
Após escorrer no rosto de quem amamos...
Já não faz diferença pra onde nós vamos...

As ordens divinas, lá do alto, nos olham,
Refazem na luz o caminho que andamos...
E pra cobrir as faltas, um dia retornamos...


Jacó Filho
Ana Flor do Lácio
Enviado por Ana Flor do Lácio em 01/08/2013
Reeditado em 27/08/2013
Código do texto: T4415479
Classificação de conteúdo: seguro
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