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O diálogo entre a poesia e a música




Não gosto de karaokê. Gosto da roda de violão (piano, flauta...) em que todo mundo participa,mesmo os desafinados, que vão se afinando porque estão cantando com os mais afinados, e vira aquela "boniteza" que só o Brasil conseguiu
produzir. O Karaokê é assim: eu sou desafinado e você vai ter de me agüentar. Que conversa!

Nelson Luiz de Oliveira



O pensamento que Nelson Luis de Oliveira deixou aqui no sábado, pelo menos para mim, alcançou sua meta: me fez pensar. Tal pensamento, ilustra a poeticidade toda própria de uma música de boa qualidade, em que, através do improviso, se dá a comunhão de vozes e instrumentos, buscando afinidade e afinação com o poético. Não pude deixar de pensar no diálogo entre música e poesia. Nos poetas que transitam entre essas duas artes, duas estéticas diferentes, porém com muitas similaridades. Essa boa música, me lembrou "um Brasil, que já foi mais delicado" como Chico Buarque, meio saudoso, declarou . Essa "boniteza" no soul da nossa música me remeteu a letras de um extremo bom gosto, tão bem elaboradas ! A boa música inspira boa poesia e o casamento entre elas se dá de forma criativa, ousada e bela, como podemos ver em : Caetano Veloso, Tom Jobim, Vinícius de Morais, Chico Buarque, Cartola... e que se une a Leminski, Haroldo de Campos, Arnaldo Antunes, Alice Ruiz e outros. Um exemplo bastante claro são as muitas análises literárias feitas com letras de Caetano Veloso, esse filho do refinamento urbano da bossa nova, em que a literatura descobre uma riqueza enorme em suas construções. Não pude me furtar a delícia de aqui citar, ainda que brevemente, alguns exemplos, extraídos de um texto de Romildo Santana, analisando Caetano Veloso, como este, em que, sob a inspiração da Poesia Concreta, Caetano relê e embarca na musicalidade de João Guimarães Rosa para realizar sua "A Terceira Margem do Rio" onde escreve, acariciando a sonoridade das palavras: "Asa da palavra... proa da palavra... água da palavra... casa da palavra... brasa da palavra... hora da palavra... fora da palavra... tora da palavra... (Circuladô - 1991). Em "O Ciúme" (Caetano - 1987), dialogando com o poema "Motivo" de Cecília Meireles, lança o cantar de desalento: "quem nem alegre, nem triste, nem poeta / entre Petrolina e Juazeiro canta". "Em Cecília Meireles, como em tantos poetas, a partir dos provençais do século 12, poesia é o mesmo que um cantar". Um outro exemplo bastante interessante é a letra "Rapte-me camaleoa" (Outras Palavras, 1981) Nela Romildo Santana discorre sobre "os efeitos aliterativos que remexem no interior do contexto sonoro e semântico, na reduplicação das mesmas vogais "ei", sugerindo a sensualidade da curvatura de seios instigantes na imaginação de um personagem:" "lEItos perfEItos, seus pEItos dirEItos me olham assim". Repare os efeitos expressionistas e a polifonia pela incrível sonoridade que pulula na construção da letra: “ Rapte-me, camaleoa, / Adapte-me a uma cama boa,/ Capte-me uma mensagem à toa/ De um quasar pulsando loa,/ Interestelar canoa,/ Leitos perfeitos, seus peitos direitos/ Me olham assim,/ Fino menino, me inclino pro lado do sim,/ Rapte-me, adapte-me, capte-me, it's up to me, coração,/ Sem querer ser, merecer ser um camaleão./ Rapte-me, camaleoa, adapte-me ao seu ne me quitte pas ". Esse admirável blend de poesia e música traduz a beleza e a sofisticação da nossa música popular, a qual Nelson se referiu ao falar da roda de violão. E´a boa música pegando carona na poesia e vice versa. Na contramão desse trem bom, pra lá de afinado, nos deparamos com o "bonde do tigrão", pegando carona no mal gosto e o karaokê, em que você paga pra desafinar e todo mundo tem que ouvir. O Nelson tem razão : "Que conversa!" e eu me pergunto : kara - o - kê - kê - isso ??!!! mas a nossa boa música, assim como a poesia não pode parar. Ela continua lutando para ser afinada, antenada, como veículo poderoso de consciência que é, portanto, fecho essa crônica, com alguns trechos de um texto de Arnaldo Antunes (Release para "Planet Hemp - MTV ao vivo") Fica aqui o improviso da voz, o hap, a poesia, a palavra falada, na luta, sem pausa, para se afinar com uma consciência maior.
"a mente é arma, a voz é bala" ... aqui onde as palavras caem afiadas lâminas na base crua sem pôr guarda-chuva contra a chuva nem peneira contra o sol "que vem sem dó" cobrindo zinco e telha e o que der na telha asfalto morro e o som de sua conexão planet hemp .. uma vez que o som é a própria substância entorpecente leva pra catarse ou transe coletivo o público cantando junto não mente o recado mente aberta e corpo solto sem pecado pra sobreviver como quiser falando de qualquer barato...sendo o eixo de onde desabrocha crítica política atitude estética reivindicação de liberdades íntimas e sociais conquistas comportamentais direitos de cidadania e muito mais prazer vontade autonomia pra seguir viagem pra deixar a margem pra ter malandragem e dignidade significando-se mutuamente no discurso livre cravado no groove que remove as crostas da incompreensão das costas de quem canta dança e berra paz ...”






Ana Valéria Sessa
Enviado por Ana Valéria Sessa em 29/01/2006
Reeditado em 16/05/2008
Código do texto: T105653

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Sobre a autora
Ana Valéria Sessa
São Paulo - São Paulo - Brasil
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