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Análise Literária - Das Pedras - Cora Coralina.

Atendendo a solicitação da Soaroir, lançaremos um breve olhar sobre um belíssimo poema de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas; uma doceira de Goiás que adoçava versos e ficou imortalizada como Cora Coralina.

A atenção deve estar aguçada, pois toda a poesia registrada pela nossa personagem segue encantando e desafiando os cultores de modelos e limites para a escrita da poesia. Onde tantos com conhecimentos mais sofisticados e modelados em notórias academias não alcançam o brilho e a identidade da obra desta preciosa poetisa.

Para quem acredita em poesia:

Das Pedras
De Cora Coralina

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.

Realizados em versos polimétricos, com variação na extensão, mas com um ritmo grave, devido à predominância das paroxítonas, a composição apresenta uma leitura fluente, onde um vocabulário corrente recebe uma intervenção delicada.

Os versos livres que conferem liberdade à forma transferem maior importância ao tratamento do tema e a realização da composição; a liberdade inicial, paradoxalmente, determina realização mais escrupulosa além da superfície do poema, metro e ritmo.

Para esta atividade pretendo fazer as anotações a partir das estrofes, pela divisão dos períodos conforme a autora:

“Ajuntei todas as pedras
 que vieram sobre mim. (Eufemismo);
 Levantei uma escada muito alta
 E no alto subi.
 Teci um tapete floreado (Metáfora/Alegoria)
 e no sonho me perdi.

Os dois versos iniciais são uma paráfrase de um provérbio: “As pedras atiradas contra mim construirão o meu castelo”; esta abertura registra uma resistência ou dificuldade que se evidencia no eu poético, quanto sua relação com a poesia.

Revela a insegurança da proposta, registrada na altura da escada e o desassombro ao realizar a empreitada. A seqüência é uma dupla figura, onde a poesia é um sonho, um devaneio, e ao mesmo tempo uma referencia e uma perdição.

“Uma estrada,
  um leito,
  uma casa,
  um companheiro. (Polissíndeto)
  Tudo de pedra.”

A segunda estrofe realiza em polissíndeto uma enumeração, onde o cotidiano é representado por referenciais bem anotados: estrada/trajetória; leito/pouso ou destino; casa/realização material e companheiro/realização afetiva são tratados como pedras, ou seja, a materialização da carga, do peso, que estas demandas continham.
Esta estrofe confronta num paralelo o tapete floreado e o sonho da primeira estrofe, quando um representa os desejos do eu poético o outro representa o percurso ordinário, que aquele tempo propõe.

“Entre pedras
  cresceu a minha poesia. (Metáfora)
  Minha vida... (Anacoluto)
  Quebrando pedras
  e plantando flores.” (Metáfora/metalepse)

Esta estrofe concentra a tensão poética que todo poema deve almejar, as duas metáforas com uma superposição de metalepse, realizam uma figura sofisticada que desvenda a relação lírica entre pedras/percalços e flores/poesia; as duas metáforas trazem entre si um anacoluto que irá realizar a transição de tempo nas flexões verbais. Anote-se a saída do pretérito para o gerúndio, criando um presente continuado, a partir de um passado de superação.

“Entre pedras que me esmagavam
  Levantei a pedra rude
  dos meus versos. ”(Metáfora)

O primeiro verso desta estrofe é a constatação da libertação que o eu poético alcançou, a flexão do verbo registra uma situação anterior e confirma a superação. A metáfora final é um verso para se guardar: “Levantei a pedra rude dos meus versos.”; esta lição registra que os obstáculos do poeta se fundam nele mesmo, o adjetivo “rude” aponta a origem desta lírica de artesã, que naturalmente aborda a sua arte e realiza um brilho incontestável.

A poesia é uma afirmação autônoma, alimenta-se da própria essência; ao partir de um provérbio, numa singular delicadeza, Cora Coralina cumpriu com pleno êxito a sua função de comunicar e encantar.

Utilizando da forma livre para os versos, cunhou com uma riqueza expressiva figuras que projetam a extensão do texto para além da superfície, cumpre registrar o uso singular de um léxico corrente, nenhuma palavra obstrui a leitura, não há figura que comprometa a extensão da figura pretendida.

O poeta e o poema conjuram pela compreensão do pleno e pela realização do belo, onde intensidade não é força e suavidade não é remissão.

Cora Coralina, mulher, goiana e eterna.




Dudu Oliveira
Enviado por Dudu Oliveira em 24/07/2009
Reeditado em 24/07/2009
Código do texto: T1717789
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Dudu Oliveira
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 50 anos
481 textos (159017 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/12/14 01:30)



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