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*ilustração - "Dissection" (caricatura de Flaubert dissecando Madame Bovary) 



Na Cama com Flaubert e Madame Bovary


Se você é daqueles que aprecia a literatura a ponto de leva-la para a cama, pelo menos, duas horas antes de dormir como um bom amante. Se você é um escritor, amador ou profissional que se espanta às vezes, com os caminhos que a sua mente faz quando cria algum texto ou se você é daqueles que ficam extremamente preocupados com críticas, leitores que possam associar sua vida à dos personagens, sempre deixando claro que tudo aquilo que escreve é apenas uma ficção, essa crônica diz à que veio.
Para os amantes da leitura que não o conhecem, apresento: Monsieur Gustave Flaubert. Experimente ir para cama com ele e sua Madame Bovary. Do trágico ao cômico, fica muito difícil delinear todas sensações que ele provoca. É um romance denso e envolvente em que você viajará na França provinciana do século XIX e ainda assim se lembrará dos nossos tempos, afinal, Madame Bovary não morreu completamente. Seus resquícios, ainda se encontram por aí. Você os identificará.

Mergulhar no universo da ficção não é tarefa fácil. Exige um despojamento total de si mesmo. O processo criativo, visto sob uma perspectiva quase mística pede um desencarnar do próprio eu e, ao mesmo tempo, uma exposição de si mesmo. Ele vasculha nosso inconsciente, nossas memórias e experiências submersas como um manancial de vida emprestado e muitas vezes, sem o nosso consentimento, nos invade pegando só o que interessa, o que é precioso naquele momento.
Dizem que Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre trocavam figurinhas sobre suas experiências extra conjugais que, por vezes, serviam de material para suas produções. Isso nunca foi, de fato, comprovado. Certo ou errado, eu diria: " O processo criativo tem razões que a própria razão desconhece". O próprio Sartre escreveu um extenso estudo sobre Flaubert em 1971, L'Idiot de Famille.
Uma coisa é certa: Quem quer escrever e publicar seus trabalhos tem que se expor, espremer seus miolos para expressar sua subjetividade e esquecer o escritor, pois na verdade, quem fala, quem tem estilo é o narrador que também é um personagem. Assim, é também o Eu lírico e a técnica na poesia que alcançam um alto grau de condensação de emoção e acima de tudo, do domínio dela e não o sentimento pessoal do poeta.

Nesse processo tão rico que é a criação, pensei nessa beleza de obra da mais pura manifestação de arte literária. Acho que, melhor do que eu, o gênio e autor Gustave Flaubert e seu magistral romance, "Madame Bovary" falarão por si mesmos. Escolho esse autor pelas qualidades óbvias citadas acima e porque a língua que escolhi quando estudei literatura foi o francês. Ler Madame Bovary e analisar Flaubert me proporcionou um prazer inominável. Espero conseguir compartir um pouco do deleite dessa descoberta com os leitores.

Flaubert pegou um tema sem grandeza aparente como um desafio para superar dificuldades técnicas. Na verdade, ele queria vencer o romantismo exarcebado na época. O resultado foi uma obra-prima em que Émile Zola descreveu da seguinte maneira: "Quando Madame Bovary apareceu, foi uma completa revolução literária. Teve-se a impressão de que a fórmula do romance moderno, esparsa pela obra colossal de Balzac, fora reduzida e claramente enunciada em quatrocentas páginas de um único livro". Estava escrito o código da nova arte e a revolução não se deu somente a nível literário, mas vejamos o enredo.

Uma jovem senhora que, sufocada pelo sem-gracismo do cotidiano, pela sem sabor da vida provinciana, decepcionada com a mediocridade do marido e a infelicidade do casamento, encontra no adultério e nos pequenos luxos o único meio de realizar o romântico modelo de existência com o qual sonhara desde sempre. Confrontada, entretanto, com as dívidas impagáveis, e desmoronada a fortaleza de mentiras em que se encastelara, ela comete suicídio. Eis em suma a trágica história de Emma Bovary, a heroína pós-romântica de Flaubert.

Flaubert rompeu, definitivamente com os chavões românticos. Emma Bovary, diferentemente das heroínas românticas, partilha da hipocrisia que reina no meio social - ela conta com a hipocrisia, usa-a em seu favor na mesma medida em que é usada por ela e não só apenas a hipocrisia afinal, porque não usar tudo? A mediocridade, o egoísmo, o amor do prestígio, dos prazeres e do dinheiro fazem de Emma, não apenas uma representante típica do seu tempo, mas o símbolo mesmo da sociedade burguesa então nascente e talvez aqui, possamos entender o significado mais profundo na afirmação de Flaubert : Madame Bovary, c'est moi.

Sem dúvida nenhuma, o autor captou o inconsciente coletivo feminino da época, causando mais do que um desconforto moral para a sociedade mas, provocando também, um verdadeiro escândalo. Quando o livro foi publicado em 1857, ele foi levado aos tribunais acusado de ofensa à moral e à religião, num processo contra o autor. A Corte Correcional do Tribunal do Sena absolveu Flaubert, porém os críticos puritanos da época, jamais o perdoaram. Para eles, o tratamento cru que o autor deu ao romance, ao tema do adultério e a crítica ácida ao clero e à burguesia calaram fundo. Flaubert, o esteta, aquele que buscava o mot juste (a palavra exata) e burilava os seus textos por anos a fio, mergulhou exaustivamente na consciência e na sensibilidade da sua personagem. Atingiu, com a impecável prosa de Madame Bovary, um dos mais altos graus de penetração e análise psicológica da literatura universal. Não havia quem não perguntasse : "Quem é Madame Bovary?" provavelmente porque, no fundo, a personagem retratasse um pouco de cada uma daquelas senhoras na época. Flaubert não se furtou a resposta que ficaria na história; "Madame Bovary, c'est moi” (Madame Bovary, sou eu).

Essa pequena descrição da personagem, no romance, nos dá uma prévia de sua natureza psicológica, suas frustrações, sua densidade interna e a pena afiada de Flaubert ao condensar sua personalidade em poucas palavras :

" A voracidade de Madame Bovary acompanhava-se de permanente insatisfação: "ela não era feliz, nunca o fora [...] cada sorriso escondia um bocejo de tédio, cada alegria uma maldição, qualquer prazer um desgosto e os melhores beijos deixavam nos lábios apenas um irrealizável desejo de uma maior volúpia" (p. 298).

Cito agora, alguns trechos, com tradução em português, de cartas escritas pelo próprio punho do autor enquanto criava, Madame Bovary. Seu desabafo, seus momentos de crise e a tentativa de supera-las. Seu tédio e até mesmo um mal estar em conviver com essa personagem intensa, mostram a grandeza e o trabalho árduo em escrever como quem realmente se despoja do seu Eu.
Aqui, o autor define como se dá a criação da sua personagem, os princípios que ele adota e que independem de sua vida pessoal :

« Madame Bovary n'a rien de vrai. C'est une histoire totalement inventée ; je n'y ai rien ni de mes sentiments, ni de mon existence. L'illusion (s'il y en a une) vient au contraire de l'impersonnalité de l'oeuvre. C'est un de mes principes, qu'il ne faut pas s'écrire. L'artiste doit être dans son oeuvre comme Dieu dans la création, invisible et tout puissant ; qu'on le sente partout, mais qu'on ne le voie pas. »

"Madame Bovary não tem nada de real. E´uma estória totalmente inventada. Eu não coloquei nada dos meus sentimentos, nem da minha existência. A ilusão (se existe uma) vem, ao contrário, da impersonalidade da obra. É um dos meus princípios não me inscrever nela. O artista deve ser na sua obra como Deus na sua criação, invisível porém poderoso; nós o sentimos por todo lado, mas não o vemos."

A Mlle Leroyer de Chantepie. 18 março 1857

( Na verdade, Flaubert se inspirou na tragédia real de um oficial e a esposa do mesmo que suicidou-se e aqui, eu diria que: Sempre entram resquícios da nossa memória no processo criativo)

Se, por um lado, ele buscava de forma obsessiva, o ideal de uma literatura em que a mão do autor desaparecesse por completo, por outro, é interessante notar a sua intensa entrega e convivência com a personagem que faz com que Flaubert, desabafe com amigos :

«Quand j'écrivais l'empoisonnement de Madame Bovary j'avais si bien le goût de l'arsenic dans la bouche, j'étais si bien empoisonné moi-même que je me suis donné deux indigestions coup sur coup, - deux indigestions réelles, car j'ai vomi tout mon dîner.» 

"Quando eu escrevia sobre o envenenamento de Madame Bovary, eu tinha claramente o gosto do arsênico na boca, eu mesmo estava tão envenenado que tive duas indigestões, uma seguida da outra - reais, pois vomitei todo o meu jantar"
                                                 A Hippolyte Taine. 20 novembro 1866.

« Ce livre me tue ; je n'en ferai plus de pareils. Les difficultés d'exécution sont telles que j'en perds la tête dans des moments. On ne m'y reprendra plus, à écrire des choses bourgeoises. La fétidité du fonds me fait mal au coeur. »

“Esse livro esta me matando: Eu não farei mais comparações. As dificuldades de execução são tantas que em alguns momentos, eu perdi a cabeça. Eu não vou retomar mais a escrita de temas burguesas. O cheiro fétido no fundo deles me dá enjôo"
                                                   
                                                            A Louise Colet. 16 abril 1853.

« Je suis, en écrivant ce livre, comme un homme qui jouerait du piano avec des balles de plomb sur chaque phalange. »

"Eu sou, escrevendo esse livro, como um homem que tocasse piano com balas de chumbo em cada falange"
                                               
                                                       A Louise Colet. 26 julho 1852.

« Dieu ! que ma Bovary m'embête ! J'en arrive à la conviction quelquefois qu'il est impossible d'écrire. J'ai à faire un dialogue de ma petite femme avec un curé. - Dialogue canaille ! et épais. - Et, parce que le fonds est commun, il faut que le langage soit d'autant plus propre. L'idée et les mots me manquent. je n'ai que le sentiment»

"Deus, como a minha Bovary me chateia ! Ela me leva a convicção às vezes, de que é impossível escreve-la. Estou criando um diálogo da minha pequena mulher com um padre - diálogo canalha e grosseiro e como o fundo é muito ordinário, é necessário que a linguagem seja um tanto quanto própria. As idéias e as palavras me fogem. Tudo que tenho é apenas o sentimento"
                                              
                                                              A Louise Colet.10 abril 1853.


Diante de uma obra dessa magnitude não é de se admirar, que ela foi objeto de vários estudos psicanalíticos e filosóficos, inumeráveis ensaios e análises literárias.
Espero que essa crônica possa despertar o prazer do leitor e faze-lo experimentar essa deliciosa aventura que é: Ir para a cama com Flaubert e Madame Bovary.


* Para aqueles que se encantarem com a linguagem flaubertiana. Em 2004 saiu um pequeno volume que merece a atenção dos leitores e autores de ficção, sobretudo os contistas. Trata-se de uma nova tradução, de Milton Hatoum e Samuel Titan Jr. (décimo sétimo título da coleção Prosa do Mundo, Cosac Naify, ) dos extraordinários: "Três contos" , de Gustave Flaubert, Trois contes, como se chama no original, constitui um marco na prosa de Flaubert.


* Esse trabalho é fruto de pesquisa, condensação de leituras, criação e tradução de textos originais em francês para o português. Respeite os Direitos Autorais !

Ana Valéria Sessa
Enviado por Ana Valéria Sessa em 12/08/2006
Reeditado em 16/11/2010
Código do texto: T214858

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Ana Valéria Sessa
São Paulo - São Paulo - Brasil
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