CapaCadastroTextosÁudiosAutoresMuralEscrivaninhaAjuda



Texto

Análise Literária do “Soneto de Fidelidade” de Vinícius de Moraes.

Análise Literária do “Soneto de Fidelidade” de Vinícius de Moraes.

Soneto de Fidelidade
                       Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é  chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.

Visando entender a estrutura rítmica determinada pelo poeta, buscamos pela escansão isolar as sílabas fonéticas. Esta prática tornará possível identificar o metro e o modelo aplicado além de permitir acesso preliminar aos efeitos de sonoridade construídos pela assonância e aliteração. Tal exercício possibilita compreender a forma como o poeta trata as colisões vocálicas e acomoda os versos na resolução das estrofes.

A atenção apurada nos mostrará uma leitura particular do sentido estrito deste soneto, bastante diversa da lição popular veiculada, tal como compreender o real valor da intervenção do poeta, através do seu gênio e empenho, obter pela via dos recursos conhecidos os efeitos buscados, permitindo diversos níveis de leitura numa peça sofisticada em seu labor, porém de fácil assimilação.

Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes

De/ tu/do ao/ meu/ a/mor/ se/rei/ a/ten/to/Pentâmetro Jambico 2-4-6-8-10.
An/tes,/ e/ com/ tal/ ze/lo, e/ sem/pre, e/ tan/to/Heróico 1-4-6-8-10.
Que/ mes/mo em/ fa/ce/ do/ mai/or/ en/can/to/Sáfico 2-4-8-10.
De/le/ se en/can/te/ mais/ meu/ pen/sa/men/to./Heróico 1-4-6-10.

Que/ro/ vi/vê-/lo em/ ca/da/ vão/ mo/men/to/Heróico 1-4-6-10.
E em/ seu/ lou/vor/ hei/ de es/pa/lhar/ meu/ can/to/Sáfico 4-8-10.
E/ rir/ meu/ ri/so e/ de/rra/mar/ meu/ pran/to/ Sáfico 2-4-8-10.
Ao/ seu/ pe/sar/ ou/ seu/ con/ten/ta/men/to/ Heróico 4-6-10.

E a/ssim,/ quan/do/ mais/ tar/de/ me/ pro/cu/re/ Heróico 2-3-5-6-10.
Quem/ sa/be a/ mor/te, an/gús/tia/ de/ quem/ vi/ve/Heróico 1-2-4-6-10.
Quem/ sa/be a/ so/li/dão,/ fim/ de/ quem/ a/ma/ Heróico 1-2-6-7-9-10.

Eu/ po/ssa/ me/ di/zer/ do a/mor/ (que/ ti/ve):/ Heróico 2-6-8-10.
Que/ não/ se/ja i/mor/tal,/ pos/to/ que é/  cha/ma Heróico 2-3-6-7-9-10.
Mas/ que/ se/ja in/fi/ni/to en/quan/to/ du/re./ Heróico 3-6-8-10.

Anotações sobre o metro e o ritmo.

Formalmente estamos diante de um soneto clássico decassílabo, onde prepondera o ritmo heróico explorado conjuntamente com o sáfico e o verso de abertura em pentâmetro jambico. Esta realidade formal nos coloca diante da exploração de uma cadência binária reforçada pela aplicação de subtônicas em situações de tonicidade variável. O padrão das rimas é parelhas interpoladas em esquema abba.

Alguns versos apresentam tonicidade na silaba de abertura, mas devemos atentar para estas ocorrências, pois tal situação não assimila de forma pacífica a disposição da cadência binária.

Analisemos então as estrofes para melhor relacionarmos os versos conjuntamente, colhendo assim, além da gênese o efeito alcançado.

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Esta estrofe apresenta um pentâmetro jambico de abertura seguido de dois heróicos separados por um sáfico. As sílabas de abertura são átonas nos versos ímpares e tônicas no verso par reforçando a idéia da cadência binária, mesmo na estrutura estrófica.

Os versos sempre graves, ou seja, terminando em paroxítona determinando a distância do final do verso com a próxima tônica no verso seguinte realizando a cadência que prevalece em todo o poema.

Apoiando a estrutura rítmica atentemos para a utilização precisa da aliteração em /t/, /d/, /z/, /c/, /p/, /m/, /n/; onde as linguodentais seguram a declamação e as nasais conferem a sonoridade grave que o verso exige.

O equilíbrio na aplicação das aliterações se dá de forma tão consciente e elaborada que a sonoridade que poderia parecer monótona e tediosa finda por tecer um contraponto interessante aos ouvidos. Um exemplo desta ocorrência é a utilização reiterada de encanto no verso três e quatro onde o radical recebe a sua derivação e sintaticamente ele deriva do substantivo abstrato ao verbo em curta distância, porém sem saturar o período.

As colisões vocálicas são tratadas de forma convencional sendo de fácil compreensão a qualquer leitor que tenha tido qualquer contato com a matéria.

A segunda estrofe:

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

Nesta estrofe o padrão de rimas se mantém e a disposição do ritmo segue a mesma orientação, versos cinco e oito heróicos e versos seis e sete sáficos.

As aliterações seguem no mesmo efeito há o uso pronunciado do /r/ seja como terminação verbal, na cesura da célula rítmica ou na alternativa /v/ para o efeito de contenção anotado anteriormente, cuja verificação é flagrante no verso cinco.

Convém, a esta altura ressaltar que a camada semântica ganha maior importância nesta estrofe e os recursos de construção e estilo passam a ser empregados para delinear o cerne do que o soneto pretende expressar.

Observando as células rítmicas das duas estrofes podemos concluir que elas contrastam entre si na abertura, abrindo em tônicas e átonas alternadamente, entretanto reparem no recurso empregado na abertura do verso sete, cuja sílaba inicial é átona, mas acaba sendo atraída pela última sílaba do verso anterior, constituindo um metro artificial para a escrita sem abandonar a proposta rítmica inicial. Como contraponto a este recurso o verso apresenta as suas tonicidades bem marcadas, estando às tônicas separadas por sílabas subtônicas segurando a cadencia para a declamação proposta.

Estilisticamente há duas divisões claras que se confrontam nesta estrofe a descrição dos estados extremos de tristeza e alegria expressados por antítese e reiteração estabelece um conceito harmônico entre idéias opositivas.

Esta estrofe nos obriga a uma breve análise do tempo e dos verbos na estrofe, a aplicação dos verbos parte do imperativo afirmativo vivê-lo para o infinitivo, mas a ligação estabelecida pelo verbo haver em “hei” no verso seis estabelece uma condição presente para o tempo das ações até o porvir.

Esta estrofe traz o verso que desvenda a ambigüidade que algumas leituras costumam produzir, chamo a atenção para o verso cinco onde o eu lírico anota: “Quero vivê-lo em cada vão momento” deixando claro que o amor ao qual ele seja fiel é o substantivo abstrato, não se referindo a qualquer paixão ou pessoa. A fidelidade almejada encontra-se na possibilidade de ser fiel ao que sente.

Quanto aos tercetos, analisaremos conjuntamente buscando entender as soluções para a manutenção da intensidade do ritmo sem permitir que a transição temática exigida ficasse prejudicada.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Os tercetos estão construídos em heróico, mantendo a cadência binária que sustenta todo poema. O que devemos analisar com extrema atenção é a opção rímica para os tercetos ao propor cde edc a distância entre os pólos tende a esvaziar a chave de ouro, uma vez que a homofonia das últimas sílabas do soneto ficou distante de suas correspondentes.

A solução aplicada é uma preciosa lição do labor de um poeta habilidoso e atento, utilizando-se de paralelos comparativos o poeta repete sem reiterar a estrutura de dois versos em cada terceto aproximando as homofonias e reforçando a estrutura rítmica dos versos no seu início nos versos dez e onze: “Quem sabe a...” em paralelos de causa e conseqüência e no interior dos versos no último terceto nos versos treze e catorze: “Que não seja imortal...// Mas que seja infinito...” em comparação e oximoro no último movimento. A solução encontrada sustenta a tensão poética necessária para a condução do soneto ao seu desfecho; apesar da repetição não há qualquer vestígio de esgotamento por conta da condução das imagens projetadas pelos versos referidos.

Novamente a essência semântica reclama maior atenção na parte expressiva do poema, tornando imperativo que a sua manifestação de sentido esteja mais próxima a superfície que as realizações estruturais ou sintáticas aplicadas no poema.

A marca de tempo cunhada pelos verbos nos possibilita uma leitura apurada da reflexão do eu lírico, alternando entre o primitivo e o derivado, sempre no presente do indicativo ou subjuntivo, o eu lírico questiona a fidelidade aos sentimentos e a duração desta fidelidade. A relação que a priori pode ser considerada de duração, ou seja, quantitativa, revela-se qualitativa no verso final, pois o que é intenso ao ponto de almejar o infinito teve começo e a qualquer momento conhecerá o fim, seja pela “morte, angústia de quem vive” ou “solidão, fim de quem ama”.

Não poderíamos deixar de registrar as licenças clássicas deste soneto, as duas mais evocadas estão no mesmo verso e passam despercebidas para inúmeros leitores, a elas: “Que não seja imortal, posto que é chama” onde uma locução conjuntiva “posto que” é anotada onde a conjunção explicativa “visto que” atenderia a métrica e sem agredir a gramática convencional.

Há ainda uma obscura lacuna na transição do verbo "ser" em “não seja imortal, posto que é chama”, mas neste caso havemos de atentar para o apelo semântico que na tensão poética se contrai para um desfecho que equilibra toda a depressão que este movimento exigiu.

Diversas leituras levam a realização do eu lírico em direção a uma musa, e a uma paixão intensa e efêmera. Porém conforme o verbo “vivê-lo” no verso cinco e a partícula “me” do verso onze, não deixam qualquer dúvida quanto à reflexão do eu lírico sobre a necessidade de fidelidade ao amor sentido, vivido em toda intensidade pelo tempo que durar.

Esta análise como todas as outras que anoto para subsidiar interesses de terceiros está incompleta, se aqui anotei algumas coisas sobre os verbos, deliberadamente omiti informações sobre as classes de palavras e as marcas espaciais que costumam estar presente nos poemas. É necessário que cada leitor encontre o seu processo e mediante contribuições venha enriquecendo o seu repertório leitor acrescentando ferramentas de investigação e metodologia analítica própria, voltada para a sua necessidade particular.

É possível que tenha cometido um ou outro pecado neste percurso de leitura e interpretação, caso tal situação aconteça solicito a anotação para que possa promover o devido reparo, desde já agradeço pelas leituras e quaisquer contribuições que apareçam .
Dudu Oliveira
Enviado por Dudu Oliveira em 24/06/2011
Código do texto: T3054891
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (voce deve citar a autoria de Dudu Oliveira). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Comentários

Sobre o autor
Dudu Oliveira
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 50 anos
481 textos (146527 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/07/14 08:54)