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Abordagem mercadológica acerca de Afonso de Teive, personagem principal da obra Amor de Salvação, de Camilo Castelo Branco.

          Essa personagem antes de qualquer questionamento tendencioso, sofre em conseqüência de demasiados conflitos amorosos, que se refletem inclusive em dúvidas que convergem num quase desvio total de conduta, é dizer, um suicídio.
          Afonso, desde a infância tem como padrão de beleza e idolatria – vê-se desde já um processo de “coisificação”, um tratamento mercadológico  – à bela moça, a morgadinha de Fervença, a exuberante e de rara formosura Teodora, que durante um considerável passar de anos leva o nosso querido Afonso a mais fantástica seqüência de devaneios que culminam na previsível derrota que chega (graças ao bom e presente Deus) antes do final da obra, pois, segundo o próprio autor – “para o amor de perdição vai-se quase toda a obra, porém, para a salvação apenas algumas páginas”. E isso torna-se fato quando Afonso insiste em idealizar o padrão de mulher da época (pálida, cabelos longos e negros, olhos escuros...T E O D O R A) e ao mesmo tempo fazer-se crer que esse “anjo na terra” fosse completamente provida de amor puro, infantil; submetendo-nos a interpretar isso como a contradição do romântico . Continuando, àquela mercadoria – mulher fatal, carro de luxo, casa com piscina; não se poderiam agregar valores tais como: amor fraterno e sincero, baixo consumo e pouca ou nenhuma criadagem.
            Tais valores, só poderiam ser encontrados na medíocre MAFALDA, que não era nenhuma mulher com corpo de modelo, porém levava consigo todos os atributos de um carro popular, ou seja, econômica, sem luxo, mas que bem lá no fundo condizia com o que esperava Afonso.
            No entanto o belo e afortunado Afonso segue em direção ao caminho da busca de um amor inocente que se revelaria inexistente na pessoa de Teodora, que agora transforma-se na rancorosa Palmira, que como todo carro de luxo consome demasiado combustível, exige peças caras na sua manutenção e com o passar dos anos vai perdendo valor de mercado até que é necessária a sua troca por um mais novo. Palmira era este carro, mas Afonso a queria para sempre, no entanto Palmira necessitava de mais manutenção (não só de amor, mas sim, de muito amor e luxúria, dinheiro...), mais acessórios, mais gastos com a sua beleza, com o seu gozo, que naquele momento precisava de mais valor agregado – imperativo do gozo ; e foi o que aconteceu, sem manutenção, ou melhor, atenção total e irrestrita do seu dono, Palmira decide-se trocar de dono (é também interessante ressaltar que a Palmira de Afonso já era de “segunda mão”, quer dizer, já havia sido de Eleutério) e sede aos cantares de D. José de Noronha.
             Após o trágico evento, o jovem apaixonado e agora a pé, segue perdido dentre a suas dívidas e troca a tranqüila Lisboa, pela “glamourosa” Paris, onde chega convicto a juntar muitas posses e ali sim definitivamente encontrar uma “alma pura” à venda que o SALVASSE de suas tempestuosas desventuras de amor. Mal sabia o pobre jovem que para se juntar dinheiro se deveria trabalhar, mas não foi isso que norteou a conduta do rapaz que de apaixonado passou a boêmio - acompanhando as tendências da época - e no mundo dos jogos só não perdeu a roupa que vestia. É fundamental destacar que a cobiça do rapaz fez-lhe esquecer por completo a insignificante MAFALDA, bem como, passarem desapercebidas a morte de sua mãe e de seu querido tio que o ajudou o quanto pode.
Mas o amor e o romântico ressurgem em forma de razão, e através de duas personagens desprestigiadas: a primeira é o criado fiel e honrado Tranqueira, que consegue enfim, tirar Afonso do mundo de fantasias e abrir os seus olhos para um mundo REAL, um mundo onde há dignidade, trabalho, e onde, sobretudo não se comete suicido após a falência. A segunda é a “mais ou menos” digna de alguma coisa MAFALDINHA, que no finalzinho chega para arrebatar o coração distorcido, gastador, endividado, mal amado e mal interpretado do ex-playboy Afonso de Teive, que ademais, reencontra o seu paraíso que até então encontrava-se perdido.
             Concluo assim, que Afonso após a total ruína, realizou o processo inverso e a partir das virtudes de pureza, castidade, infantilidade, fraternidade, honra, paciência, humildade, já sabidas de MAFALDA, conseguiu através de uma nova análise perceber que seria muito menos caro adaptar-se e entender o padrão de beleza daquela que a muitos se sabia que longe de viver as suas custas, viveria eternamente ao seu lado sem agregar valor algum à sua relação, só amor, é claro.

(1)Reificação: objetificação, coisificação. No processo de alienação, é o momento em que aquilo que não era passa a ser coisa, objeto...
(2)Em suas novelas passionais, Camilo Castelo Branco explora a contradição entre o eu – que quer guiar-se pelos sentimentos – e os limites sociais que tentam impedir a concretização desses sentimentos. Tudo isso passa num mundo cheio de personagens que são moldadas de forma maniqueísta, voltadas para o bem ou para o mal, sem se desviar de seus propósitos.
(3)Segundo o Professor Vladimir Safatle – “Devemos pensar na tese de que a incitação e a administração do gozo transformaram-se na verdadeira mola propulsora da economia pulsional da sociedade de consumo, isto no lugar da repressão ao gozo própria à sociedade da produção”.

BIBLIOGRAFIA

CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 28.a ed., Rio de Janeiro, Ediouro, 1996.
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. 5.a ed., Rio de Janeiro, Editora Ática, 1999.

Fabrício de Andrade
Enviado por Fabrício de Andrade em 28/08/2007
Reeditado em 07/09/2007
Código do texto: T627410
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Sobre o autor
Fabrício de Andrade
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 38 anos
20 textos (18677 leituras)
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Fabrício de Andrade