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Comentário sobre o romance A Casa de Natércia Campos

    Ao escrever sobre Natércia Campos e sua obra A Casa não podemos deixar de lembrar a sua raiz mais próxima, Moreira Campos – mestre dentre os maiores na manifestação do conto em nossa pátria literária.Essa presença paterna impôs a autora uma certa timidez literária inicial, fadando a escritora a uma produção menos extensa, mas de extremo valor em nossas letras alencarinas.E esse tronco literário foi além da figura de Natércia estando a literatura agora abrangendo a geração seguinte na pessoa de Catarina, sua filha . Como vemos, a árvore genealógica da Família Campos se mostrou bastante frutífera, tanto que até critica literária vem constantemente premiando tais autores em diversos concursos literários regionais e nacionais no decorrer de suas epopéias literárias.

    Mas o leitor comum e pouco familiarizado com a literatura atual da estética pos – moderna talvez encontre um certo estranhamento ao se deparar com um narrador antropomorfizado. E esse é  o elemento diferencial em A Casa. A narrativa é contada a partir de um objeto que supostamente deveria ser inanimado, mas que nessa obra possui vida e se revela com sentimentos e reações humanas.  O leitor então entra no mundo fantástico de Natercia em que seres mágicos se misturam a personagens populares  bastante familiarizados em nossa região. Ao lermos a obra, sentimos a chegada da morte materializada nas casas, a religiosidade e as crendices de figuras da mitologia popular viva. O lobisomen surge, o rezador, os mitos de um povo estão sendo registrados em um texto literário fazendo assim a Casa das Trindades as honras da figura do contador de histórias. Ela com sua teia narrativa vai dando a vez para outros persongens que tomam desse fio narrativo e contam relatos estranhos e muitas vezes não aprovados por habitantes da casa e da própria narradora. Soubemos de atos de bestialidade humana, como o incesto e vemos um ato homossexualismo, que não é visto com desaprovação por parte da narradora por estar acostumada com a essência humana dos homens recolhida em mais de 300 anos de vida. A Casa nos mostra em seu discurso a realidade humana em sua essência que muitas vezes é tomada por uma linha naturalista e também o que se esconde entre um fantástico mundo que vai além do que é possível ser explicado.

    Um outro valor a ser destacado a essa obra é a questão de sua linguagem. O discurso do narrador possui uma força de oratória culta, podendo destacar uma certa erudição da narradora em contato com o leitor, mas quando nos desprendemos dela para ouvir outra vozes presentes no texto encontramos o falar de uma gramática sertaneja, um linguajar de um povo presente em sua essencialidade vocabular.Lemos então um texto que nele se por um lado encontramos fragmentos em latim por outro há citações de objetos e expressões que ao nosso ver já caíram em desuso.

    Quando paramos ao perceber a cronologia do contar das histórias, percebemos a não linearidade, sendo usado para isso o recurso do flash – bach e swicth- bach, o que marca a maior semelhança em uma narrativa de cunho oral em  que o passado vem não em uma ordem temporal correta ,mas sim em um relato em que a importância dos fatos são preponderantes sobre o quando eles aconteceram.
Escutamos então a voz madura da narradora e seus outros personagens nos mostrando a verdade humana e dessa forma deixamos de ser inocentes quanto suas relações sociais e com o mundo espiritual , não natural, que nos rodeia sem que tivermos anteriormente atentado.Para isso estamos, juntamente com o livro, construindo uma colcha de retalhos que está longe de ser completada por estarmos fadados ao eterno suplício das angustias humanas em seu balançar do pêndulo do tempo que passamos vivos. Oscilando entre a comédia e a tragédia da vida.

    Não posso esquecer de relatar aqui a minha experiência de leitor ao me contorcer todo na leitura de uma das minhas partes favoritas desse tomo, um fato extremamente revelador da possibilidade humana de ser cruel. Um coronel com seu orgulho ferido que demonstra o seu poder ao torturar um homem, nesse foi costurado um couro em suas costas e colocado a secar ao sol. Ao seu redor ficaram os subalternos do tal coronel a tomar o contato com o exemplo do qual nenhum deles esqueceria.

    Para encerarmos esse breve comentário não poderia deixar de dar a palavra a própria autora em seu discurso de posse na Academia Cearense de Letras em que ela afirma: “ E assim os livros, esses mensageiros vindo em revoadas de vários  pontos cardeais, conseguiram tornar alado meu mundo interior.”
Márcio Araújo
Enviado por Márcio Araújo em 02/09/2007
Código do texto: T635210

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Sobre o autor
Márcio Araújo
Fortaleza - Ceará - Brasil, 39 anos
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Márcio Araújo