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Análise literário comparativo dos livros: "Dois Irmãos". "O quarto fechado". "Lavoura arcaica"

     
     "Eu sei que qualquer coisa de ruim habita em mim, em minha carne; eu dou meus ossos a outro que está em mim, que está em guerra com minha lei. Quem me liberará deste corpo de morte?"
                                                São Paulo, Carta aos romanos

     É evidente a importância da dimensão espacial nos relatos que estamos analisando, onde a casa carrega um valor predominante, tornando-se ator fundamental na narração, quase um personagem a mais. “...o coração doente da casa explodia...” (O quarto fechado).
No relato de Lia Luft, a casa aparece personificado desde o começo através da descrição que nos apresenta a autora, incidindo na estranha atmosfera que a rodeia. Os espaços apequenam-se, porque as relações que ali se estabelecem, no que diz respeito ao afeto, são proporcionalmente exíguas. A casa exerce um influxo negativo “... Aquela que sem sua permissão reinava na casa ... ”(...) “... a névoa chegara sorrateira. Grudava-se na casa... ” (O quarto fechado)

Essa identificação é manifestada, por exemplo, quando é declarado, “... A sala, a casa, um tanque de água turva onde giravam criaturas de gosma e sombra. Medo” (...) “...o zumbido do inseto gigante, cujas instalações permeavam a casa toda...” (O quarto fechado).
 
No relato de Hatoum é dito que Zana perambulava falando “... Eles andam por aqui, meu pai e Halim vieram me visitar... eles estão nesta casa”... (Dois irmãos). Por sua parte, em Lavoura arcaica fala- se “... o poço de penumbra do meu quarto...”

 CASA-família-psiquismo, va emergindo em direção à superfície da consciência, identificada finalmente com o exterior da CASA. “... para os gêmeos, o quarto era uma ferida úmida que se cobre com as roupas, não se deixa tocar, mas continúa latejando. Tal vez imaginassem o tempo todo o que haveria lá: animal raro, planta singular, criatura de charco, enviando sinais pela casa a toda hora.

Medo. Medo?...” (O quarto fechado) “...essa claridade que mais tarde passou a me perturbar, me pondo estranho e mudo, me prostrando desde a puberdade na cama como um convalescente: essas coisas nunca suspeitadas nos limites da nossa casa ...” (Lavoura arcaica)

A relação espaço-mente, simbolizando os fenômenos que acontecem no espaço não são senão metáforas dos processos psíquicos dos personagens “... na atmosfera da casa que era densa também, um leite espesso, águas, algas, medusas, lama ...” (O quarto fechado)

O adjetivo silêncio, é também uma manifestação da identificação da CASA com o psiquismo, pois o silencio frente ao ruido é precisamente a simbolização que se realiza no relato para referir à repressão e à emergência do reprimido respectivamente. “... o nevoeiro tragara tudo, contorno e cores, a casa isolada num silencio branco...” (O quarto fechado)  “... não, de Yacub não saía nada. Ele se retraía, encasulava-se no momento certo. Às vezes, ao sair do casulo, surpreendia...” (Dois irmãos) “... cordial mas reservada: alguma coisa a recobria, um vidro, um verniz, impedindo-a de vibrar...” (O quarto fechado)

Existe também o antigo conflito de família versus sociedade, que não é senão o conflito endogamia versus exogamia das sociedades primitivas, onde precisamente o incesto era a norma. Pequenos grupos humanos fechados sobre si mesmos se perpetuavam sempre em relações que não podiam senão ser incestuosas, porque a proibição era justamente as relações com membros de outros grupos. Portanto parece haver uma chave antropológica na leitura destes relatos que nos permite compreender esse isolamento como resultado de uma relação incestuosa, por mais latente que esta seja no começo. Prova disso é a aceitação de tal relação, que sobrevem determinada pela própria casa, identificada com a linhagem e a família “... o amor, a união e o trabalho de todos nós junto ao pai era uma mensagem de pureza austera guardada em nossos santuários... ” (...) “ ...estando a casa de pé, cada um de nós estaria também de pé, e para manter a casa erguida era preciso fortalecer o sentimento do dever, venerando os nossos laços de sangue, não nos afastando da nossa porta...”(...) “... trabalho da família, trazendo os frutos para casa....” (Lavoura arcaica)

Esse isolamento, assim como o encerramento das famílias sobre si mesmas, conduz finalmente a sua destruição, “... ela morreu quando o filho caçula estava foragido. Não chegou a ver a reforma da casa, a morte a livrou desse e de outros  assombros. Os azulejos portugueses com a imagem da santa padroeira foram arrancados, e o desenho sóbrio da fachada, harmonia de retas e curvas, foi tapado por um ecletismo delirante. A fachada que era razoável, tornou-se uma máscara de horror, e a  idéia que se faz de uma casa desfez-se em pouco tempo” (Dois irmãos)

Tal é a idéia das obras onde a linhagem se extingue finalmente en si mesma e é  simbolicamente  engolida “... quanto mais estruturada, mais violento o baque, a força e a alegria de uma família assim podem desaparecer com um único golpe ...” (Lavoura arcaica) Se trata da autofagia à que, mais cedo ou mais tarde conduz a endogamia, não porque o incesto em si leve à morte senão porque o isolamento a que essa situação conduz é a destruição. Os grupos endogâmicos acabavam por solapar-se espacialmente com outros, o que produzia uma mutua hostilidade, por isso o homem acabou enfrentando-se, como diz Lévi-Strauss, relembrando a Tylor, à disjuntiva entre "casar-se" fora do grupo, ou ser morto dentro do grupo. Evidentemente optou-se pela primeira solução; por tanto, a proibição do incesto não tem  uma  origem moral, como poderia considerar-se na  atualidade, senão "política" já que foi uma forma de evitar os conflitos entre grupos fechados entre si e que, por outra parte, se necessitavam mutuamente. A proibição do incesto supus o passo da família à sociedade já  que, como diz Lévi-Strauss, "se a organização social teve um principio, este só pode ter consistido na proibição do incesto".

A relação incestuosa da-nos um sinal antropológico que explica o isolamento dos  irmãos, e também da-nos um sinal psicológico, pois o incesto aparece como desejo normal e habitual nos primeiros  passos da vida do ser humano, quem evidentemente, tem nos membros da sua família os primeiros objetos de desejo sexual, como na infância da humanidade, os membros do grupo se relacionavam  sexualmente entre si. “... ela sabia fazer as coisas, essa minha irmã, esconder primeiro bem escondido sob a língua sua peçonha e logo morder o cacho de uva que pendia em bagos túmidos de saliva enquanto dançava no centro de todos, fazendo a vida mais turbulenta, tumultuando dores, arrancando gritos de exaltação...”(Lavoura arcaica) O passo desse estado primitivo a um mais avançado, como acontece com o desenvolvimento da criança, leva a proibição do incesto num caso, e à repressão psíquica do mesmo, no outro, produzindo -segundo Freud- elementos fundamentais do psiquismo humano. Em ambos casos o incesto é substituído por outro tipo de manifestações sexuais “... crescendo, penosamente adivinhara que as almas precisam dos corpos para se tocar. Tentava transmitir isso a Carolina, mas ela entenderia. Teria resposta, solução, compreensão?...”(...) “... iam fundir-se num só?...”(...) ”...o que vai ser de nós? Por que você já não me basta? ...” (O quarto fechado)
Inominável não é senão o reprimido –o desejo incestuoso- que vai pouco a pouco escapando do inconsciente e tentando fluir à consciência “... que culpa temos nós dessa planta da infância, de sua sedução, de seu viço e constância? Que culpa temos nós se fomos duramente atingidos pelo vírus fatal dos afagos desmedidos? Que culpa temos nós se tantas folhas tenras escondiam a haste mórbida desta rama...”(...) “... Ana, tudo começa no teu amor, ele é o núcleo, ele é a semente, o teu amor pra mim é o principio do mundo...”(Lavoura arcaica)
“... o que o teria impelido para lá naquela tarde? O que o puxara? Quem estaria encostado no portão da fazenda, braços abertos, insinuante? Alguma coisa que provocava repulsa e atracão, como no quarto? Como no amor? ....”(...) “...Camilo encontrara afinal o que procurava tanto: noutra parte qualquer, vivia, amava, fazia descobertas. Libertara-se daquela obsessão, da impossível ligação com Carolina...” (O quarto fechado)
“... dois seres do mesmo sangue, irmãos , vivendo longe de tudo, sem nenhum sinal de vida humana por perto...” (...) “... viviam que nem bichos...”(...) “...isso mesmo, bichos. Só que pareciam felizes...” (Dois irmãos)

O parentesco de sangue da conta da solenidade macabra do relato melhor que o amor culpável  “... era realmente permitido, era normal, aquele amor? Incesto: a palavra pesava sobre eles. Não queriam magoar Mamãe, isto é, Martim não queria: sentia-se seu devedor, e sua vontade forte, a urgência do coração e do corpo entravam em conflito com o dever. (O quarto fechado)

 Por outra parte, as imagens da viajem de Yacub ao Líbano (expulsão como o ato do nascimento) em Dois irmãos, o irmão que foge (em Lavoura arcaica), e a busca da morte de Camilo (O quarto fechado) são a imagem dos irmãos enxotados do paraíso da casa-mãe e tem igualmente relação com a imagem da expulsão de Adão e Eva, pois a parábola bíblica tem sido vista como uma metáfora do nascimento individual. “... não deveria ter sido mais severa, exigindo que se separassem, que preservassem suas identidades, que ao menos dormissem separados? ...” (O quarto fechado)

Em qualquer caso a história de Adão e Eva nos leva à infância da humanidade que nos conduz ao sinal antropológico que tentamos desenhar e que explica o isolamento dos irmãos como resultado de uma situação endogâmica dos grupos primitivos, em tanto que a imagem do nascimento nos leva à infância individual na que também os desejos incestuosos são fundamentais para dar origem ao erotismo humano e configurar o caráter individual derivado dos conflitos que essa primeira sexualidade provoca.

Enquanto aos gêmeos, é desde as primeiras narrativas semíticas até a novela gótica que  encontramos obras de psico-terror que utilizam o recurso dos irmãos gêmeos  para arrastar ao leitor a um estado de alteração da consciência de sua própria identidade. “....sempre suspeitara dos filhos, que absurdo. Imaginara sinistras combinações em seus silêncios, pequenos sinais, sorrisos. Saberiam de segredos inquietantes? O que teria acontecido naquele dia com o Anjo Rafael?  ...”(O quarto fechado)

A historia revela-se na literatura nessa dramática busca da sua própria identidade. “... não, fôlego ele não tinha para acompanhar o irmão. Nem coragem. Sentia raiva, de si próprio e do outro, quando via o braco do Caçula enroscado de um curumim do cortiço que havia nos fundos da casa. Sentia raiva de sua impotência e tremia de medo, acovardado ao ver o Caçula desafiar três ou quatro moleques parrudos agüentar o cerco e os socos deles e revidar com fúria e palavrões” (Dois irmãos)

Nada melhor que dois seres idênticos, nascidos de um mesmo óvulo para visualizar o drama humano, o eterno dilema entre o bem e o mal “... nem a maternidade resolvera: ao contrario, desdobrando-se em mais dois ...” (O quarto fechado) A parte escura, primitiva, demoníaca, brutal e a sensível, delicada e generosa “... Camilo sempre tivera o comando nas mãos, Carolina só o seguia, com aquele olhar de veneração...”(O quarto fechado) O trauma universal de não saber realmente quem somos e que domina nossos atos e nossos desejos “... um se machuca, o outro sangra...”(O quarto fechado)

Essa força  que se domestica ou castra em função do momento histórico ou as circunstâncias. “Pouco falaram, e isso era tanto mais estranho porque, juntos, pareciam a mesma pessoa...” (Dois irmãos) “...Camilo iluminava-se no afeto de Carolina. Como certos animais que, destruída a sua toca, tentam desesperadamente refazê-la os gêmeos labutavam dia a dia, urdindo um mundo seu...”(O quarto fechado)

Dois irmãos gêmeos representam, fisicamente, o medo mais ancestral que se oculta em nossa mente desde que nascemos até a morte: o medo que sentimos de nós mesmos “... havia algo entre os gêmeos, zonas de segredo entre os dois: sombras. Camilo e Carolina, um estranho ser saído do seu ventre, duplo por engano, falha dela...” (O quarto fechado)

Os irmãos gêmeos tem sido considerados em diferentes culturas indígenas como deuses e como mensageiros do diabo. Assim Jeremy Narby, doutor em antropologia da Universidade de Stanford, menciona em seu livro "The Cosmic Serpent" a freqüente e notória presencia de gêmeos nas lendas dos indígenas da América do sul. Quetzalcoatl, a serpente emplumada dos astecas de México, que representa a sagrada energia da vida e seu irmão gêmeo Tezcatlipoca, ambos são filhos da serpente cósmica Coatlicue. O antropólogo Claude Lévi-Strauss explica que na linguagem asteca o sufixo "coatl" significa ao mesmo tempo serpente e gêmeo. Assim, Quetzacoatl significa Serpente emplumada e  Gêmeo Magnífico “... se pudesse falar o morto diria: no fundo do poço encontrei o enlace, a Vida e a Morte, masculino e feminino, o Eu e o Outro, entredevorando-se como uma serpente que engole a própria cauda....”(...)  “... a vida: serpente voltando para dentro de si mesma, começo e fim, masculino e feminino, prazer e destruição ...” (O quarto fechado)

“... negar o amor era negar a vida: toda negação do amor gera a morte, não importa que amor, não importa que proibição ...”

 Cabe lembrar aqui a gêmeos famosos nas lendas e na história: Anfión e Zeto, Rômulo e Remo (filhos de Rea Silva e do deus Marte), Esaú e Jacó (filhos de Isaac e Rebeca), Caim e Abel (filhos de Adão e Eva), Castor e Pólux (filhos de Leda e Zeus), Eres e Zeraj (Judá e Tamar, Gênesis 38,27), Tomás, um dos apóstolos (Tomás significa  gêmeo em siríaco), Artemísia e Apolo (filhos de Zeus e Leda), São Cosme e Damião, mártires, Zeus e Hera (filhos do deus Cronos e de Rea), Ares e Eris (filhos de Zeus e Hera), Osíris e Set. O próprio William Shakespeare foi pai de gêmeos: Hamnet (o menino) e Judith (a menina).
Angela Sánchez
Manilkara
Enviado por Manilkara em 03/11/2007
Código do texto: T721849

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