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Como são construídas as relações sociais nos contos “O espartilho” e “Eu, um homem correto”. Visões e descrições sobre personagens negros e as intenções sobre estes.



          Os contos “Eu, um homem correto” e o “O espartilho” (1) estruturam-se igualmente num ambiente de construção de preconceito. Essa construção está vinculada às disputas de poder; a disputa, por sua vez, figura quando os moradores passam a valorizar-se de forma incontestável e criticar o outro (negro), menosprezando-o, classificando-o tendo como produto final uma representação acerba - a ser sentida, percebida e reconhecida pela coletividade - concebida por meio da mirada do opressor. Na obra “O espartilho” de forma menos contundente, devido ao posicionamento (verbal) diferenciado da personagem oprimida.
          Em “Eu, um homem correto” prepondera de forma “rasgada” em primeira pessoa o tratamento diferencial à personagem negra, objeto de desprezo do vendedor (o homem correto, moralista e conservador discricionário(2)). As impressões e os produtos delas, geram no narrador e nos demais passageiros do ônibus a construção da percepção negativa, pré-concebida em relação ao homem negro não havendo assim, espaço para sua voz(3).
         Se percebe a manifestação velada do preconceito nesta obra quando o narrador diz: “...mas o negro estava até descalço.”, “...essa gente não sabe o seu lugar...”. Ocorre um disfarce na alusão às diferenças socioeconômicas do narrador em relação ao homem negro. Existe neste caso, a pré-concepção em relação ao posicionamento numa escala “social” da raça negra, e o negro do ônibus serve para a aplicação deste preconceito.
         Porém, por meio da antítese formada pela relação limpeza-sujeira observada quando se alude as unhas do homem negro - o narrador assevera a sua marca de discriminação, configurando assim a mudança de aparência para o comportamento. É dizer, as mãos e a alma do homem negro estão no mesmo patamar.
        O homem negro é comparado ao “rei das trevas” em “...o diabo do negro não parava quieto...”(I, 67). Essa carga negativa, obscura da representação construída pela visão do “ homem correto” reúne conceitos que retratam a sua intolerância: “ beiço grosso”, “nariz chato” ,“calombo na narina que o fazia lembrar bernes”, “um negro feio mesmo”.
       Não existe nas obras, evidências de possibilidade de convivência harmoniosa entre as personagens estigmatizadas e aqueles que os oprimem por meio das linhas. Isso se torna evidente pela percepção coletiva de que a presença, tanto do homem quanto da mulher negra são uma intrusão num espaço social que não lhes pertence.
       Em “Eu um homem correto” essa mudança de olhar coletiva só ocorre após o reconhecimento do homem correto pelos seus pares (uma liderança), passageiros não negros do ônibus. Do reconhecimento chega-se ao estímulo do ódio ao homem negro, “naquele feroz grupo de homens”. Mas quem os tornou ferozes? Quais seriam as intenções do autor se não “enganar” o leitor e trazer “justificativas de suas atitudes verbais” pelas marcas de distinção por ele criadas.
        O negro que cobiçava a jovem e atraente professora, em que pese poderia sim estar a desejando, sequer pode deixar isso claro; as evidências são dissipadas pela fala do homem correto, a impressões, a desconfiança “enlatada” e a libido são do narrador e não do homem negro. O dominador fala pelo e sobre o dominado.
       Em “ O espartilho” de Lygia Fagundes Telles, a avó de Ana Luísa - a narradora em 1ª pessoa do conto - matriarca, repressora e detentora da linha preconceituosa e também discricional(4) é o eixo pelo qual a narrativa se desenvolve. O arbítrio da avó quanto as representações dos familiares das fotografias não condiziam com a realidade das atitudes das personalidades em vida.
       A geração da família conservadora de Ana Luísa, tem uma equivalente de agregados, que culmina em: Margarida, filha de Isaura e neta de Ifigênia (primeira agregada que se tem notícia na trama) a qual engravida do tio Maximiliano. Um dos componentes do clã idolatrados de forma enganosa deliberadamente pela avó.
       Pela via comportamental, o preconceito de materializa, o tio é mandado às pressas para Europa e arranja-se um casamento para a mulher negra. A negra Ifigênia era vista como pobre e agregada, termos deveras verbalizados pelas personagens (avó e Ana Luísa). Sobre a segunda filha de Ifigênia temos: “Imagine, um nome aristocrático para a pobrezinha!”. Recebeu o nome de Isaura aludindo-se à obra “ A escrava Isaura”,(II, 34) a despeito de Florence sugerido pelo avô lembrando dos romances de Florence Barclay.
       Chega-se a Margarida, filha de Isaura, agregada que passa a fazer parte da vida e tem certo peso numa posterior mudança de olhar da narradora, em relação a ela Ana Luísa manifesta-se de forma reservada: “...me ocorreu que margarida ia escurecendo enquanto falava, ela que chegara a ser quase branca quando se preparava para ver o namorado.”(II, 34).
        Publicamente, a avó e a narradora expressam à personagem negra respectivamente: “ ...você não vai ver esse moço. Ele é branco, querida. De família importante. Eu seria uma criminosa se consentisse nesse namoro.” “ ...Minha avó tem razão, agora você vai arrumar um outro namorado que seja assim da sua cor, presta atenção, da sua cor.” Evidencia-se, portanto, nessas passagens o racismo, a discriminação pela raça, pela cor e pela distinção de condição social.
        Ana Luísa filha de mãe judia que também era alvo de discriminação da avó: “ainda prefiro os pretos”, ouvi minha avó cochichar a uma amiga”. Essa distinção acerba da velha aristocrata se trata de mais uma de suas pré-concepções, apropriadas da representação nacional-socialista alemã da época – década de 1940.
       Por sua vez Ana Luísa era atormentada pela “falta de evidência de sua metade MALDITA(5) ”(II, 39). Ana Luísa sentia-se inferior a agregada, pois nela (mestiça filha de pai polonês) a maldição era evidente.  Em Ana Luísa, o fato de ser judia era como ter em suas entranhas uma enfermidade queimando que não se pode identificar nem remediar. O comportamento da avó era rígido, indeclinável, sobretudo em relação ao povo judeu.
        Por fim, concluo que ambos os textos têm em comum a questão da discriminação racial aos personagens negros. Entretanto, existe uma diferença fundamental para a construção e desconstrução da representação preconcebida em relação as raças. Em Murilo Carvalho não há essa desconstrução, já em Lygia Fagundes Telles existe por meio da resistência da personagem Margarida, que ao longo da narrativa tenta construir uma imagem positiva de si mesma. Ela se impõem em relação a Ana Luísa, a faz ter novos olhares diferentes aos “standarizados” pela a avó. Voltando ao “homem correto”, temos por meio do retorno da professora ao local de linchamento do homem negro a possibilidade de se intervir no ato de flagrante crime hediondo motivado pelo racismo, mas ela não o faz, a professora parece desconhecer o motivo da agressão – sendo isso suficiente e racionalmente justificativo para a sua inércia diante da barbárie. Portanto, temos: resistência ao dominante e tentativa de desconstrução em “O espartilho e um completo descaso e conformismo em relação ao racismo fruto da representação do opressor em “Eu, um homem correto”.

BIBLIOGRAFIA

ALMARZA, Sara. Formas e dilemas das representações da mulher na literatura (no prelo) Editora da UnB, pp.5-7.
CARVALHO, Murilo. Eu, um homem correto. In: Raízes da morte. São Paulo: Ática, 1977. pp. 58-69.
CORTAZAR, Julio “Alguns aspectos do conto” , Valise de cronópio, São Paulo, Perspectiva, 1974, pp. 147-163.
TELLES, Lygia Fagundes. O espartilho. In: A estrutura da bolha de sabão. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. pp. 29-64.
MONTALVÃO-FERRAZ, Stella. Representando o preconceito – o eu e o outro em contos brasileiros contemporâneos – Brasília/DF: UnB/IL/TEL, 2004.
NOTAS
 (1) A numeração romana I e II indica respectivamente os contos analisados.
 (2) Por conveniência e oportunidade. Arbitrário, caprichoso, discricional. Evidenciado nos momentos em que o narrador entendia seu comportamento aceitável e o do homem negro reprovável.
 (3) Ressalte-se que a fala do personagem negro não é registrada em nenhum momento ao longo da obra.
 (4) No trecho à pág. 54, da narradora sobre os hábitos da avó: “ Era a primeira missa do ano e minha avó não tinha aparecido. Pregava a necessidade de se praticar todos os sagrados mandamentos mas não seguia nenhum.
 (5) Para a narradora, a discriminação da avó em relação aos judeus e aos negros, a fazia ter a representação de ambas como maldições. A diferença, que tornava a raça negra superior estava na possibilidade de percepção pela cor.
Fabrício de Andrade
Enviado por Fabrício de Andrade em 06/12/2007
Código do texto: T767794
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Sobre o autor
Fabrício de Andrade
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 38 anos
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Fabrício de Andrade