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Aos que ficaram e aos que ficarão

A você, vovó que não terá mais a atenção e o carinho do neto;
A você, vô, que não poderá ir no aniversário de sua neta adorada;
A você, mãe que não verá mais o seu filho lhe sorrindo, amargurada pelo resto da vida;
A você, pai em luto, inexoravelmente distante de sua filha e de seus netos;
A você, marido inconsolável, violentamente apartado do sol que iluminava seu caminho e lhe dava força e estímulo para crescer;
A você, esposa que fica com o consolo dos filhos e a saudade do homem amado;
A você, esposa para quem o sonho da família com o parceiro escolhido virou fumaça e escombros;
A você, filho ou filha a quem o papai não mais pegará no colo nem protegerá;
A você, que não terá mais a dádiva do calor materno;
A você, órfão, cuja família e os horizontes giram 180 graus, deixando-o só no mundo;
A você, tio ou tia, a quem o sobrinho que era como filho virou estatística abstrata;
A você, que não verá sua prima de novo lhe dar um presente de aniversário;
A você, que não terá mais um amigo de fé nas horas difíceis e nas felizes.
A você palestino, israelense, americano, afegão, árabe, inglês, francês, alemão, saudita, colombiano, russo, chinês, italiano, costa-riquenho, senegalês, moçambicano, australiano, libanês, etíope, grego, argentino, neozelandês, jamaicano, paraguaio, chileno, ucraniano, croata, sérvio, norueguês, suíço, brasileiro...

Alguém poderá compreender a sua dor?
Muitos, mas ninguém sabe a dor do ser humano!
Você, agora, sabe.
Antes não ter essa sabedoria.
Ninguém, olhando para você, saberá o exato sentimento no seu íntimo.
Ele é inexplicável.
Ele é terrível.
Nos transforma para sempre.

Eu te desejo muita paz.
Vou rezar por você.
Pois você ficou, enquanto os outros partiram para junto de Deus.
Amanhã te convido para rezar comigo por outros mais que ficarão, subtraídos pela vingança, pela intolerância, pela ganância, pelo preconceito, pela miséria, pelo revide, pela retaliação, pelo terrorismo, pela guerra.

Nós somos inocentes? Alguém é inocente? Nós temos algo a ver com isso?
Somos culpados de olhando, achar que não é conosco?
Somos culpados por nosso sorriso blasé e indiferente?
Somos culpados por dizer bem feito?
Somos culpados por propor o extermínio?

O que, afinal, estamos fazendo aqui?
Cuidando de nossos interesses e prazeres?
É isso, nada mais?

Quando chegará a nossa vez de ficar?


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Tenho publicado (abril/2006) com mais frequência no
MEU DIÁRIO
http://www.souzaguerreiro.com/blog.php

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Texto publicado nas versões impressa e online no jornal Portal de Notícias em 20/11/2015, na seção de Opiniãohttp://www.portaldenotícias.com.br

João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 28/04/2006
Reeditado em 20/11/2015
Código do texto: T146594
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
Charqueadas - Rio Grande do Sul - Brasil, 48 anos
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