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HPV Capítulo II - Zé Nota Dez

Esta é a segunda parte sobre o HPV. Agora vamos falar sobre as dificuldades que encontramos sobre as várias questões que envolvem esta infecção, que é basicamente por contato sexual.

Ao invés de falar, irei colocar aqui as dúvidas e posicionamentos mais comuns com os quais já me deparei ou observei. Cada frase, cada situação, foram totalmente verídicas, entretanto, reuni todas elas numa dramatização só, tendo como cenário não uma consulta com a mulher, mas com o homem e seu urologista.

São duas estórias (volto a falar: baseadas em acontecimentos verídicos).

Na estorinha I temos três personagens :

- Doutor - Vamos o chamar de Cid, Cid Otta.
- Paciente - Marcão (acho este nome forte...).
- Personagem principal - O "Zé".

M: “Dr Cid Otta, eu vim aqui porque a médica da minha namorada mandou eu procurar um especialista para ver o meu Zé”.

C: “Como vai seu Zé?”.

M: “Bem, obrigado, mas a garota lá tá cheia de pereba e tão achando que eu tô todo emperebado também”.

C: “Deixa eu ver essa coisa aí”.

Nisso, o doutor pega com nojo o Zé e dá apenas uma sacudida nele, pra lá e pra cá, com desprezo, apenas o inspecionando por um minuto com uma simples lupa . O Zé nunca se sentiu tão rebaixado, sendo tratado como uma linguiça podre...

C: “Você não tem nada e essa médica tá de frescura contigo”.

M: “Doutor, olha bem o meu Zé, que eu não quero que ele caia. Da última vez que eu vim aqui, o senhor falou que eu tava com alergia nele e aquela ferida piorou com os remédios. Eu tava na pior e a mulher lá tava cheia de bolhas na área de lazer. No sufoco, mandei a médica dar uma olhada no Zé e ela disse na hora que era Herpes. Fiquei curado em dois dias”.

C: “Agora você vai me dizer que a médica lá sabe mais de pau que eu... Essa dona não saca nada e tá de sacanagem contigo“.

M: “E aí, doctor, eu não tenho aquele bicho HPV não, né?”.

C: “Sai fora, rapaz! Teu Zé tá inteiraço. Pode usar e abusar".

M: “E não tem problema de eu pegar esse troço e ter um câncer não? Ou tem?“.

C: “Qual é, cara! Isso só dá câncer na mulher. Homem não tem essas coisas”.

M: “Tá legal. Agora eu vou pegar aquela vadia de jeito e saber pra quem ela andou dando”.

C: “Pega leve. Encapa o bicho e “créu”, que tu tá safo. Ah! Manda tua namorada pra outro médico que essa ginecologista daí é neurótica".

Marcão voltou ao consultório da “neurótica” com a resposta do Dr Cid Otta. Ele foi convencido a procurar outro uro, agora, por indicação da médica.

E lá foram os dois, Marcão e o Zé, para outra consulta, desta vez com um excelente profissional, que tem uma outra abordagem, sabe muito de HPV, faz peniscopia e todos os exames complementares para o diagnóstico de lesões sugestivas desta infecção.

O paciente decidiu colaborar, já que é um pouquinho inteligente. Resolveu, também, ouvir e depois analisar a situação em casa.

Passamos, neste momento, ao consultório do Dr H. Romeu Pinto (catedrático, experiente, educado, amigo, tolerante), com o Marcão à sua frente. Zé, obviamente, o protagonista...

M: “Bem doutor, é a última vez que eu procuro urologista pra ver o meu Zé. Ele está até ficando meio cabisbaixo com tanta mão de homem”.

H: “Já soube que o senhor veio aqui para ser examinado à procura de possível infecção por Papovavírus na sua região genital...”.

M: ”Em outras palavras, o senhor vai dar a nota para o Zé”.

H: “Podemos ver desta forma...”.

M: “Eu estou muito preocupado com esta doença e mais preocupado ainda em descobrir de quem a peguei".

H: “Podemos estar falando sobre coisas que não estão acontecendo. É melhor examinarmos primeiro. Vamos?".

E o doutor apontou uma cama para o rapaz sentar, de frente a um enorme binóculo com base no chão - o peniscópio. Primeiramente o médico colocou uma luva e olhou, olhou, olhou. Também pegou nos testículos de Marcão e olhou, olhou, olhou... Aproveitou e os palpou. Passou uns líquidos no Zé e disse que estava tentando realçar sinais suspeitos em sua pele.

Marcão já estava meio desconfiado com tanta atenção. Aquele médico estava silencioso demais, muito atento. Que merda ele estava pensando?

O urologista colocou aquele binóculo potente e investigou cada centímetro do Marcão. Pediu que Marcão deitasse com as pernas em duas perneiras. Foi aí que o paciente alucinou, mas deixou, para ver até onde ia aquilo, já com o punho cerrado.


H: “Eu vou examinar toda a região perineal e peri-anal também”.

O coitado do rapaz ficou com medo. O médico afastava suas nádegas para ver seu ânus.

M: “Doutor, o senhor vai me dar dedada?!”.

H: “Só se o senhor quiser...”.

Ele entendeu que o médico não brincava e estava compenetrado em seu trabalho. Percebeu que o médico diziaque o exame de próstata era opcional naquele momento.

H: “Sr Marcos, o senhor tem lesões sugestivas de infecção por Papovavírus em seu pênis e região ao redor do ânus".

M: “Epa! Peraí! Aí nunca entrou nada, só saiu!".

O médico fechou os olhos pacientemente para não ter que rir ou se aborrecer, e explicou que o vírus pode se espalhar para qualquer região, inclusive em volta do ânus e que, se fosse o caso de ter tido coito anal, deveria ser também examinado no reto, mas que, por hora, ele dispensaria tal exploração.

Marcão, o pobre, deu bençãos aos céus e passou a se simpatizar com aquele senhor tão respeitoso e calmo.
E chegou a hora do drama:


H: “Marcão, eu vou ter que anestesiar seu pênis com esta agulhinha bem fininha e retirar um fragmento destas manchas aqui neste local para exame laboratorial".

Até que o moço se comportou bem, nem gritou. A dor foi mínima e foi tudo muito rápido. Depois veio a hora da escovinha no canal de entrada da uretra, ou seja, no furo do Zé.

M: “Que isso, doctor?! Isso é tortura?! Yakusa ou Cosa Nostra?".

H: “De jeito nenhum. Se houver presença do vírus na uretra distal, com certeza o senhor irá ter problemas e, ainda por cima, continuar passando o vírus para sua companheira. Tenho que mandar material para citológia”.

O dono do Zé, quer dizer, o companheiro dele, novamente se deixou nas mãos daquele homem esquisito com cara de cientista maluco, arecido com aquele que criou Frankenstein.

Sua delicadeza ao praticar aquelas maldades com o Zé fez o Marcão ver que nada daquilo era tão sofrido assim, apenas constrangedor. Constrangedor ser palpado e espetado por outro homem; constrangedor saber que o Zé estava doente e ele nem imaginava; constrangedor por ser uma ziquizira adquirida através do sexo e, por isso mesmo, com conotação de promiscuidade.

- “E o meu rabo, caramba, tá parecendo um pomar de couve- flor”, pensou Marcão.

Como que adivinhando seus pensamentos, o médico pediu simpaticamente que se arrumasse para terem uma conversa de homem para homem ali na mesa, mas, antes, ele fotografou com aquela máquina a cabeça do Zé.

- “Será que este tarado faz álbum de Zés?”, refletiu, intrigado, Marcão.

Começou o urologista com sua explanação, mais uma das muitas vezes que já falara a mesma coisa:

- “Marcão, o vírus pode estar em você há um mês como há anos, e só veio se desenvolver agora, por alguma razão. Não coloque culpa de cara na sua parceira porque ela pode estar inocente nessa também. Se você tem ou teve outras namoradas durante o seu atual relacionamento, todas devem ser investigadas. Você vai ficar bom em breve e vamos traçar aqui um período para o seu acompanhamento para não deixarmos nenhuma lesão remanscente ou haver recidivas. Só vou lhe liberar quando me certificar de sua cura.

Recomendo que vocês fiquem o tempo necessário sem contato físico para não haver disseminação do vírus para outras áreas, até voltar tudo ao normal - o que não vai ser muito difícil, a meu ver. E, atenção: preservativo não elimina totalmente a possibilidade de contágio”.


M: “Mas, como?! Não falam que até Aids a camisinha protege? Como o vírus passa a borracha?".

H: “Não, amigo, o vírus não passa borrachas. Ele é até muito fraquinho, quando não está no corpo humano, morre logo. Acontece que, como você vê, as áreas onde você tem a virose não são protegidas pela camisinha. E tem mais: ninguém na hora do "vamos ver pra crer” vai se lembrar de que pode estar sendo contaminado ou estar contaminando. Ninguém usa camisinha assim que encosta, nas preliminares. Dá para entender?

O ideal é que você tenha uma parceira única - o que ajudaria muito não ser exposto a doenças. Não sendo possível, tenha muito cuidado com as moças e peça sempre para fazerem exames ginecológicos e certifique-se da saúde delas. Lembre-se que de onde veio este vírus também podem vir outras doenças sexualmente transmissíveis, como a Aids.

Vamos pedir exames laboratoriais de sangue - se desejar, é claro - para fazermos uma rotina das doenças que são possíveis serem detectadas. Tenho absoluta confiança de que a médica de sua namorada está fazendo o mesmo e fará o melhor para a curar e vocês voltarem ao normal em suas vidas. Já foi um grande passo vir aqui e respeitar a recomendação de sua namorada e da médica. Sem isso, não poderíamos tratar os dois, nem sabermos como você está.

Quando surgiu a doença, ou quem passou para quem, são coisas que os dois, dentro da intimidade que têm, devem discutir em particular. Mas se vocês se gostam e se respeitam, curem-se e passem a tomar mais cuidado. Agora não são mais ignorantes sobre este assunto e os deslizes serão mera irresponsabilidade.

Infelizmente, nos dias de hoje, o sexo não pode ser encarado como uma coisa animal, instintiva, apesar de o ser. A sua cabeça tem que pensar para que o Zé sempre esteja nota 10. Por enquanto, a nota é 7,5, mas estamos só no começo”.

O paciente ainda ficou mais algum tempo com o médico para detalhes do tratamento e outras dúvidas a serem esclarecidas.

Na rua, Marcão ainda sentia o Zé reclamar da maldade que fizeram com ele. O rapaz deu uns tapinhas por cima da calça e falou: “Calma, amigão. Mais uma batalha vencida. Afinal, eu já te maltratei muito por esta vida afora, mas podes crer, o Marcão gostosão vai te proteger”.

Ele percebeu que algumas pessoas o olhavam enquanto conversava baixinho com o Zé. Disfarçou, puxando a cintura da calça pra cima, meio com as pernas abertas.

Tudo bem, sempre pode ser pior...

Leila Marinho Lage
http://www.clubedadonameno.com

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Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 20/04/2007
Reeditado em 23/05/2008
Código do texto: T457416

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Sobre a autora
Leila Marinho Lage
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 62 anos
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