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Quem trazia as bengalas de manhã

         O nome dele era José Roque de Almeida. Nascido em 25 de setembro de 1922 em Lindóia-SP. Quarto dos onze filhos da prole de Joaquim Roque de Almeida e de Joana Beghini de Almeida.
         Até os 18 anos, o jovem José Roque morou em Lindóia, com os pais e, às vezes, com uma tia. Seu avô paterno foi o fazendeiro de café, conhecido como José Roque de Moraes, tenente coronel da guarda nacional, com o qual conviveu na fazenda do Barreiro.
         Eram os anos 30. Lindóia fervilhava de turistas que vinham para as suas termas.  José Roque, na época, trabalhava nas roças do pai desde os dez anos. Quando de folga da lida, vivia a pescar e a ter seus mergulhos no Rio do Peixe.
        Na maioridade, foi embora para São Paulo dar corda para empinar a vida.  Com a guerra na Europa, bem que tentou ir para o Exército, contudo o impediu uma vista fraca de um olho. Foi então aprender a trabalhar de enfermeiro em um hospital e depois de garçon, quando ganhou mais experiência de servir.
        Treinado na capital, José Roque retornou para as termas de Lindóia a pedido do pai e do irmão, que arrumaram um bom emprego para ele no Cassino do Grande Hotel Lindóia, em que trabalhavam.
Neste tempo, aos 26 anos, casou-se e mais tarde, com os ganhos do emprego no Cassino, voltou para São Paulo, agora sócio de um restaurante na Rua da Consolação.
         Dizem que quem bebe dessa água, sempre volta para bebê-la, e assim José Roque vendeu o promissor restaurante paulistano para se tornar sócio dos cunhados Gavazzi na Padaria Guarany, na Rua Duque de Caxias (hoje Rua São Paulo), nos fundos do Hotel Guarany, que era também de Joaquim, seu pai.  Foi essa a primeira padaria de Águas de Lindóia e o esboço de outras que teve.
          De lá saíram para montar o próprio negócio, que se tornaria a Padaria Tupy, na Avenida Brasil, no fim da década de 1950. Venderam o negócio para montar outra na Rua Mato Grosso, após alguns anos como funcionário do DER e residência em Amparo-SP, quando sua padaria passou a chamar-se Estância Azul, enquanto estava gerenciada por seu irmão.
        Em 1970, José Roque então reassume a sua padaria.  Com sua família, cria a Padaria Almeida, como uma indústria de panificação, concepção nova para a época, sem balcão, só para fornecer os pães em vendas por atacado para as cidades de Águas de Lindóia-SP e Monte Sião-MG ou nas vendas de varejo com entregas, estilo “delivery” para uma grande freguesia no centro e nos bairros afastados.
        O homem que entregava as bengalas de manhã em cada casa era o Zé Roque.
        As entregas a domicilio eram feitas de casa em casa, graças a um VW Kombi, na maioria das vezes de cor “gelo”, de porta lateral amarrada para que o menino, seu ajudante de entregas, pudesse saltar do veiculo ainda em movimento com as bengalas embaixo do braço para colocá-las nos embornais de pano que os clientes deixavam nos portões ou janelas das suas casas. Por vezes, a entrega dos pães era mais rústica: os fregueses botavam um prego de uns dez centímetros no muro para pendurar as bengalas na vertical.   Em geral, eram locais protegidos de chuva e dos passarinhos. Tudo isso era feito a cada manhã, das quatro às sete horas, planejado para que as crianças pudessem ir à escola com um pedaço de pão na boca ou na bolsa e junto com seus pais, começassem o dia, alimentados.
       Houve época em que teve uma kombi de entregas em Monte Sião e duas em Águas de Lindóia. Fez linhas de distribuição matinal em todos os bairros do Cavalinho Branco ao Jaboticabal, do Sertãozinho aos Tanques.
       Mais que uma simples padaria, José Roque fez um negócio da família. Ele educou no trabalho suas filhas e filhos, acolheu sobrinhos, deu oportunidades a amigos e empregou padeiros de Pouso Alegre–MG, local preferido de suas pescarias. Ele ensinou muitos aprendizes e criou mestres no ofício e no comércio em geral dentro da Padaria Almeida, uma verdadeira escola da “Arte Bianca”. São inesquecíveis os pães de torresmo e de banha, os filões, os pães doces que se comia com mortadela de Mogi(Marba) e é lógico, aquelas bengalas de água ou de massa suíça.
      José Roque de Almeida foi um homem bom, que acreditava sem querer ou precisar de provas. Tinha a índole daqueles que seguem em frente nas adversidades, com vibração e sem dúvidas. Mesmo que as coisas estivessem difíceis e desandassem ainda mais para o incerto, José Roque era o tipo de pessoa que enxergava algo realmente bom para manter sua confiança em Deus, em si próprio e tocar a vida do melhor jeito.
       Foi pai exemplar, foi avô presente e amigo extremado, tão fiel aos seus compromissos, que chegava ao ponto de defender as causas das pessoas necessitadas, mesmo se esses prejuízos desfavorecessem seus interesses ou de seus filhos. Detentor de raras qualidades morais, entre elas a sua conduta franca e desprovida de ambição, o fizeram ser muito estimado e considerado por todos que o conheceram.
       Vindo de uma infância na qual ir para uma escola era uma raridade, fez questão de dar educação superior aos seus filhos. Cada filho, filha e netos guardam lembranças marcantes de sua feliz convivência. Cada qual conta uma história com ele como protagonista. São histórias de coragem, de muito trabalho e envoltas de grande carinho.
        Nos últimos anos de vida, depois de aposentado da Padaria Almeida, após 25 anos de trabalho dia e noite ou 25 anos de entregas de pão, comprou um sítio para cuidar dos animais de criação, tais como porcos, vacas, aves, peixes, cabritos e coelhos.
        José Roque de Almeida foi casado por 56 anos com Terezinha de Souza Almeida, com quem teve cinco filhos e dez netos, morando na mesma rua Mato Grosso por quase cinquenta anos, até sua morte em três de abril de 2004.
Aluísio Solvento
Enviado por Aluísio Solvento em 11/03/2018
Reeditado em 11/03/2018
Código do texto: T6277262
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Aluísio Solvento
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 55 anos
42 textos (767 leituras)
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Aluísio Solvento