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PROCESSO CRIATIVO E CRITICIDADE

(para a Lígia Lacerda, confreira do Recanto das Letras)

"ONDE A POESIA?

Lígia Lacerda

Tenho sido mera fazedora de versos,
sempre em busca da Poesia.

Sei que faz parte de meu ser.
Convivo com ela em meu íntimo.
Sinto-a nas entranhas.
Órgão vital?
Sobreviveria sem ela?
É o ar que respiro o pão de cada dia!

Mas apossar-me dela? Inútil tentar.
Animalzinho arisco,
ao menor movimento foge.
Esconde-se. Espia. Provoca-me.
Procuro-a como louca
e quando penso alcançá-la, desaparece...
E de repente, sem nenhum aviso,
eis que surge à frente. Envolve-me.
Invade os sentidos.
Despe véus de mistério
e toda a mim se entrega
num gesto meigo, de gatinho manso.

São raros momentos,
contraditórios instantes de lucidez
e fantasias.

Por um segundo sinto-me poeta!
Mas qual, tão rapidamente chega e se vai...
A mim só resta aceitar seus caprichos.

Publicado no Recanto das Letras em 03/11/2007
Código do texto: T722218".

Aqui, lindo frente aos meus olhos o poema que, de cara, me parece o mais humano e natural de tudo o que escreveste até hoje. O texto não está lavrado em prosa poética, é pura poesia .

Claro que, se formos rígidos, ou seja, nos cânones do chamado ‘poema da contemporaneidade’, vale dizer, enxuto, sintético, sugestional, metafórico e transcendente, a classificação tende mais para a prosa poética.  Mas é o que a Cecília Meireles e Clarice Lispector faziam. Em termos de atualidade estética, neste poema há algo de Adélia Prado, de Cora Coralina melhorada, etc.

Este poema representa um significativo avanço frente ao que está publicado em tua página (até hoje) no Recanto das Letras.

Li todos os teus quatorze textos lá postados, e tudo é muito chorumela, muito meloso e angustioso... Podes notar que os colegas de saite e eventuais comentaristas visitantes, foram todos muito lacônicos em seus comentários, talvez porque também inexperientes e querendo mesmo é que venhas a visitar os seus escritos.

Este “ONDE ESTÁ A POESIA?” é extremamente superior, literariamente... Parabéns! Acho que estás começando a sair da casca.

Ainda ontem estive preocupado, porque sei o quando és inquieta e angustiada, e não havias contestado a mensagem sobre o texto em prosa que havia nascido em nosso bate-papo. Pedi que estudasses sobre a publicação dele porque o texto, apesar de intimista, contando o teu dia-a-dia, está ótimo para a publicação, é matéria viva, pulsante. E esta está mergulhada profundamente no teu processo pessoal de criação, com muito pouco aproveitamento de “intertextos”, enfim, aquilo que é lido e assimilado como matéria ardente para a futura criação e que vem misturado neste processo de derramamento inspiracional.

E percebo que estás com a tua criticidade em alta, alerta àquilo que é repetitivo, comum, supérfluo, batido.

É natural que estejas insegura, estás mudando de fase em teu processo pessoal. Estás começando a rejeitar o que há mais de 50 anos te parecia esteticamente bom, te satisfazia. É perfeitamente entendível que não saibas analisar com acuidade o que escreves, no momento da inspiração derramada.

Mas é preciso vencer a inquietação e a angústia e deixar o texto “de molho”, isto é, metido numa gaveta ou pasta (no caso de material arquivado no computador) durante uns bons 20 dias, para depois reexaminá-lo. Sei que isto não é tarefa fácil, porque a inquietação criativa fica cutucando a gente pra ver como está o texto que foi criado no momento do jorrar da inspiração. É preciso resistir a este chamado interior e esperar o amadurecimento.

Quando este processo de criticidade (e de uso de técnicas literárias já absorvidas) for se aprofundando em teu interior criativo, o prazo tenderá a ser menor, porque os cuidados de autocrítica vão se introjetando no processo de criação e, em pouco tempo, dois anos talvez, o texto já ‘flui’ com o ‘policiamento’ da intelecção, apoiado nas técnicas absorvidas pelo criador literário.

No entanto, como disseste a mim na mensagem anterior: sabes fazer a crítica sobre o texto de outro autor, mas ainda não a percebes no teu próprio texto. É aí que eu devo entrar em ação como analista, instigando a que melhores a tua autocrítica.

Estas constatações são os sinais externos, exógenos, aqueles fora do processo imbricado de criação – no qual predomina a emoção – de que estás aprendendo a literaturizar as tuas essências emocionais. É a diferença entre o que é intimista, mas não é mero confessionário, singelo depoimento de si para si.

Segundo o que está publicado até agora, o que deflui como de ‘teu estro interior’ é pobre e choroso, doloroso, cansativo para um leitor preponderantemente jovem, como é o caso dos que atuam no Recanto, maciçamente.

Mas aqui está o fruto – neste texto de agora – da tua insubmissão às chorumelas.

Cada vez mais me convenço de que poesia é o fruto da inquietação e da dúvida, no sentido estético.

Acho que não se trata de teu “momento luminoso”, como queres.  Trata-se, sim, de que estás abrindo a cuca também – além do coração – e começas a ver o leitor e sua precariedade crítica.

O Recanto, enquanto arquivo de textos à disposição, dá uma visão de quanto o leitor usual (e que gosta de escrever algo que não sabe o que é em termos de classificação) é pouco exigente.

Os “exigentes” temos de ser nós mesmos, os mais estropiados pelo tempo e talvez mais experimentados, aí a autocriticidade nos dá o balizamento de como devemos pegar a cuca do leitor e não o seu coração, como a vida inteira os colegas de nosso meio associativo “fachineliano” ficam a dizer.

E aí estão as chorumelas afetivas sendo lavradas e apresentadas ao leitor e ao futuro como se fossem ‘poesia’ em inúmeras coletâneas com textos que não resistirão ao decurso do tempo e ao toque do analista crítico. Ficam babando em cima de meros confessionários sem poesia.

Mas escreves o que pensas sobre o texto lido neste Recanto das Letras em ‘Comentários’ ou ficas dando pitaco por mensagem particular?

Quando se usa e-mail particular – aprendi isto com os comentários do
RL – não adianta em nada: o escriba não leva a sério, fica como uma coceira na orelha, nada mais... Se quiseres que o autor do texto criticado ‘se toque’, tens de colocar o comentário – por mais duro que este seja – em exposição pública, para que ele reflita.

Acho que me pegaste num momento de cabeça limpa e com facilidade para tentar explicar o que estamos falando. O assunto tem papo em particular pra mais de duas horas. Isto só sobre o que falamos até aqui. Sobre este ‘miserável’ processo de inquietação na criação, sem o qual nada que preste ocorrerá. Nem para nós, em termos de crescimento literário, nem para o leitor, que tem o direito de receber a devida instigação, seja na prosa, seja no verso.

Porque o choro pelos olhos e pela genitália não é e nunca foi Poesia. Muito menos na Prosa, no romance, na novela, em que a pedra-de-toque exigida pelo leitor é a alegria, a folia, o picaresco.

“De choro já basta a vida!” É isto o que tenho ouvido muito por aí...

- Do livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2006 / 2007.
http://www.recantodasletras.com.br/cartas/722095
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 03/11/2007
Reeditado em 22/05/2008
Código do texto: T722095
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
2911 textos (776801 leituras)
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Joaquim Moncks