Madrugadas Sangrentas

OS CARAS DA MOTO

Há alguns anos atrás era corriqueiro nas rodas de conversa aqui na Vila Alpina, falarem sobre dois motoqueiros que estavam matando uma pá de gente na nossa região durante a madrugada. Diziam que cruzar com eles na calada da noite era morte na certa caso o infeliz estivesse devendo alguma coisa no cartório. Era rara a semana que não morria um e os comentários eram sempre os mesmos: Foram os caras da moto.

Pois bem, numa bela madrugada de fevereiro, estava eu e mais meia dúzia de pessoas no Barracão da Escola de Samba Flor do Morro, dando os últimos retoques nas fantasias e pra variar adivinhem qual era o assunto? Isso mesmo , a morte de um rapaz no Jardim Independência uns dias atrás e a conversa é que ele tinha sido executado por dois motoqueiros. Só sei que no calor da discussão, com cada qual dando a sua opinião, eu olhei para o relógio e vi que já eram quase três horas de lá matina e resolvi ir embora. Me despedi e sai pra rua. Puxei o capuz da blusa sobre a cabeça, pois estava caindo uma garoa fininha, e peguei a direção de casa. Não vou mentir, com o fiantó na mão, pois apesar de não dever nada, de repente poderia ser confundindo com alguém. Comecei a descer a Rua Campanulas, com o calcanhar batendo na bunda, doido pra chegar logo em casa naquele percurso acelerado que dava em torno de uns cinco minutos dali até onde eu moro. Não se via uma alma viva na rua, além de um ou outro vira-lata latindo no portão de alguma casa quando eu passava. Atravessei a encruzilhada da Campânulas com a Alfazemas e assim que passei a casa do finado Landão eu escutei o barulho de moto vindo pela Rainunculos. O coração acelerou. Diminui os passos na esperança de que eles subissem direto, porém pra meu azar eles entraram na Campânulas, há uns cem metros distantes de mim. Assim que me viram eles diminuíram a velocidade. istintivamente eu tirei o capuz da cabeça para que eles percebessem que estavam diante de um velho careca, meio cegueta, bunda mole e a ponto de se cagar todo na roupa. Vieram em minha direção bem devagarzinho. Notei que ambos estavam usando capuz sob o capacete. Eles me encararam e eu imediatamente desviei o olhar e passei a milhão. Eles não disseram nada, apenas aceleraram ao perceberem de que se tratava apenas de um tiozinho com cara de babaca e com a cueca toda molhada de xixi. Entrei na Rainunculos, que é a rua onde eu moro, aumentei ainda mais o passo até chegar ao portão de casa. Entrei rapidinho e ainda ouvi o barulho das motos subindo em direção ao Largo da Vila Alpina, atrás talvez de mais um infeliz pra dar baixa no CPF, naquela madrugada cinzenta de fevereiro.