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Fidelidade

Numa mesa de bar:
– Adenilson, meu amigo... – falava Olavo meio sussurrando – ...o povo tá comentando. Adenilson, homem de Deus! Será que você não vai tomar uma atitude? Eles comentam, eles comentam!
– Ih, já vi que andou dando ouvidos a esse povo... – Se mostrava calmo e sereno o despachante de trinta e cinco anos. Bebericava cerveja, ao passo que seu amigo aflito se aproximava mais.
– Adenilson, homem de Deus! Tão te chamando de corno, de chifrudo! Mas você não toma nenhuma atitude, adenilson! Desmoralização!
– Ah, se você for ouvir tudo o que esse povo fala. Isso é intriga. – mais um golinho de cerveja.
– Contrata um detetive. Descobre com quem essa mulher está saindo. E dá uma esculhambada nela. Ela tá acabando com sua moral, Adenilson!
– Fatinha é uma pureza. Pode acreditar.
– Não faz isso comigo, Adenilson! Fatinha tá te pondo chifre, homem de Deus! Tu é corno, e fica aí, nessa pastação. Cria cabelo no peito, e acaba com essa esculhambação do seu nome. Ainda dá tempo!
– Quem é que anda falando de mim agora?
– Todo mundo!
– Todo mundo?
– Todo mundo!
– Todo mundo quem?
– Almeida ontem estava comandando a palhaçada no escritório. Disse que você faz hora aqui no bar todos os dias que é pra não atrapalhar a safadeza da sua mulher. E o povo todo rindo. Cara, sou teu irmão, teu chapa, mas não posso ficar te defendendo. Só te desmoraliza mais ainda, Adenilson. Toma uma posição homem de Deus! Faz alguma coisa Adenilson!
O outro bebericou mais cerveja.
– São intrigas maldosas, Fatinha é...
– Fatinha é uma safada, vagabunda!
– Quequeisso?! Vai esculhambar minha esposa agora Olavo? Quequeisso?! Olha a falta de respeito! Fatinha é uma esposa de exemplo pra todas as outras! Quer minha inimizade? Quer... – engasgava já. Vermelho.
– Calma homem de Deus! Estava querendo abrir seus olhos...
– E alguém te pediu conselho? Alguém te pediu opinião? Ah?!
– Ei, Adenilson, escuta aqui...
– Escuta aqui você. Intriga dos meus inimigos até aceito, mas de você? Está me dando uma facada nas costelas assim? Que te tem? Putaqueopariu, pensei que fosse meu irmão...
– Adenilson...
– ...mas tu não passa de um mexeriqueiro como os outros.
Adenilson levantou derrubando a cerveja. Contrariado falou alto com Olavo, que se irritou e cresceu também. Estiveram à beira de uma briga de verdade. Mas Adenilson olhou o relógio nervoso e fechou assim:
– Vô agora. Aqui, aqui... Me decepcionou, heim?!
– Ah, vai à merda seu chifrudo...
– Me decepcionou! – e foi embora.



– Fatinha?
– Aqui... – do quarto a voz fraca da mulher.
– Oi meu bem. Trouxe pra você.
– São bonitas. Obrigado.
– E como foi hoje?
– Não tive tanta dor... Acho que vou melhorar...
– Lucas ligou. Disse que não pode vir no sábado.
– Ai, que pena...
– Anselmo esteve aqui?
– Sim.
– Tenho que acertar com ele tudo.
Quase não tinha luz no quarto. Bem no fim da tarde.
– E como foi seu dia no escritório?
– Tudo bem, meu amor. Tenta dormir um pouco...
E Fátima fechou os olhos sentindo a mão grossa do marido pousar leve na sua testa. Ela não dormiu por causa da dor. E ele ficou bastante tempo lá, alisando seu cabelo, e só foi chorar escondido. Lucas não apareceu em mais nenhum sábado.
Fátima demorou a dormir.
Mas dormiu...

Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 09/12/2006
Reeditado em 24/12/2006
Código do texto: T313554

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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 41 anos
49 textos (2445 leituras)
1 e-livros (38 leituras)
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Guilherme Drumond