CLIENTE "PÃO DURO" (A única diferença entre a prostituta e a mulher casada é que a aprendiz cobra mais caro do que a profissional.)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Saiu cedo o licitador de segunda, naquele último dia de agosto, para sua primeira aventura extraconjugal. Debaixo de um sol forte de primavera, por um momento de desespero. Também se fosse debaixo de chuva não importaria, estava de carro! Rodava sozinho, na solidão das ruas cheias de pessoas com objetivos ímpares. Logo ele que precisava estar trabalhando naquela hora, estava justamente “trabalhando” para negociar o que se adequava exatamente ao seu padrão de vida, e vida mundana. Desestressar-se ou estressar-se, não se sabe bem quais eram suas justificativas. Era um, dois e até cinco telefonemas para uma mesma pessoa, depois objetivava outra. Descarregando a bateria do seu celular, “fez das tripas coração” para continuar na perseguição; aqui e acolá, parava para usar um “orelhão”. Estava mesmo tão obstinado que se esquecera da hora do almoço, conferindo ruas, casas e números. Já era meio dia e não percebera o ronco do estômago, mas ainda valia a pena esperar por outra moça qualquer, já que aquela última não se dispôs a acompanhá-lo pelo dinheiro que tinha. Conversa vai, conversa vem, agora estavam numa sala ideal para alimentar seus desejos quando, da porta, à esquerda, surgiu a tal Samara; pareceu-lhe não ser a maravilha que pintara verbalmente, mas arranjou subterfúgios para se consolar.

— Elas são assim mesmo, dizem ser uma coisa por telefone e na verdade é outra – pensou ele em voz alta.

Mesmo assim, arriscou-se, quem sabe esta seria diferente! Finalmente, esquivou-se diante da mercenária que por cima lhe tratou friamente e sem muita disposição.

— Bem! Meu preço é cinquenta reais a hora, é pegar ou largar.

— hum, é caro!

Achou o preço alto para quem não queria nada especial, apenas sair do “arroz com feijão”. Mas ainda lhe restava um fio de esperança e contava com a sorte, saiu dali com as forças recobradas para continuar a caçada.

Através do telefone público mais próximo, tentou a última investida; desta vez, tudo parecia “cair do céu”, o preço estava em conta, bem abaixo do da praça, ele conferiu mais uma vez por telefone e a descrição agradou-lhe muito. Não via a hora do grande momento. Foram muitos mistérios que lhe envolveram, até porque o endereço do tal local foi dado por etapas. Ela o conduziu como se faz para vacinar um bezerro faminto, bastando arrastar um balde com leite ante seu focinho que ele entra em qualquer armadilha. Porém, tudo isto, de certa forma, causava-lhe um misto de ansiedade e medo.

— Deve ser este portãozinho cinza de folha inteira – murmurou ele com o coração disparado.

Num impulso, precipitou-se portãozinho adentro e, com meia dúzia de passos, bateu à primeira porta, também à esquerda, exatamente como fora orientado; por um instante ouviu murmúrios, e sentiu cheiros que o levavam a uma sensação de te(n)são, então, em um ranger musical, abriu-se a porta, finalmente chegou aquele momento que para ele seria resultado da imolação da sua própria vida, só ali poderia avaliar o quanto deveria valorizá-lo. Quando, ao contraste da luz, percebeu a silhueta volumosa, desilusória e nada voluptuosa que se desenhava na camisola transparente, então foi aí que perdeu o véu do feitiço, caiu em si, voltou-lhe a razão, mesmo assim, para defender sua virilidade, deixou-se levar por seus instintos e pensamentos escondidos na profundidade da sua alma amante de “garanhão”. Deixou-se levar sem reclamar. Então, percebendo-o meio desajeitado, a “falsa magra” perguntou-lhe:

— Algum problema, meu bem?

— Não, não, nenhum problema! – disfarçou.

— Então vamos, vamos que não tenho todo o tempo do mundo, meu tempo é dinheiro.

Sem dizer mais nada, se sentou naquela cama assustadora para cumprir rapidamente o contrato de aluguel. De fato, foi rápido, ele saiu desvairado ordenado pela voz da sua consciência, perdido como um “cão em dia de mudança”.

Passados uns dias, ainda "gozava" da lembrança atormentadora com vivas sequelas. Em conversa com seus amigos, falava da tragédia e da “beleza” nua e crua da parceira de outrora que lhe deu vinte minutos de “prazer” e uma eternidade de dor: o herpes inflamado, todas as vezes que a imunidade do seu corpo cai.