DONS
 
 
Havia um moço, a quem consideravam bonito, criando pequenos objetos interessantes. Era impossível negar suas habilidades manuais. Conseguia reproduzir em miniaturas quase tudo o que existe na realidade, quer lhe pedissem em papel, madeira ou massa de modelagem.
 
Tinha um emprego. No emprego o patrão o considerava tolo. Dizia que, por falta de ambição, ele era incapaz de progredir na vida. Tudo porque o jovem artesão simplesmente se recusava a cobrar por sua arte.
 
As crianças adoravam suas miniaturas. As moças, que em muitas ocasiões liberam suas almas infantis, punham sorrisos nos lábios e brilhos nos olhos, felizes por ganharem aqueles mimos.
 
Em conseqüência o patrão passou a zombar dele e desvalorizar sua obra. Por último, o proibiu terminantemente de fazer aquelas ‘inutilidades’ durante o expediente.
 
A proibição antecedeu, por pouco, a um período de vacas magras para os negócios. A região eminentemente agrícola sofreu as conseqüências da falta de produção motivada pelas intempéries, houve desemprego acentuado, vieram as contenções de gastos, a loja passou a vender menos do que o necessário para cobrir as despesas. Como ‘desgraça pouca é bobagem’, o proprietário adoeceu gravemente.
 
O patrão precisou acertar as contas com todos os empregados Coube ao jovem artesão manter a nau no rumo em meio a ventos e tempestades, pois somente ele achou por bem permanecer, mesmo sem salário algum.
 
- Eu nunca tive nada – disse ele ao patrão acamado – o senhor tem uma ponta de estoque. Ao permitir que eu continue tentando, estará dando-me uma oportunidade.
 
A loja claudicou por meses seguidos, mas os ventos se acalmaram. Para atrair fregueses o moço abriu uma sala, onde gratuitamente ensinava sua arte. Muitas moças vieram aprender com ele e suas famílias a comprar na loja.
 
Hoje a loja está em franca ascendência, o patrão está saudável. Na verdade está muito rico.
 
O rapaz já não mora na cidade. Ninguém sabe para onde os ventos o levaram com suas miniaturas gratuitas. Quando alguém pergunta a seu respeito, diz o patrão:
 
- Vai ser sempre o mesmo tolo, mas tem sorte. Nunca precisou se esforçar na vida. Cria aquelas maravilhas com a maior facilidade. Acho que não são dele. Acho que as cria em transe.




(De meu caderno de Capa de Pano)
 
 
 

 
Lucas Menck
Enviado por Lucas Menck em 08/09/2011
Reeditado em 08/09/2011
Código do texto: T3207106
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