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DIN DON!

DIN DON!
Emir e Sara, casados de longa data, esperavam o primeiro bebê.
Cheio de cuidados, ele resolvera mudar-se para um apartamento maior, mais confortável, em um bairro residencial, tranqüilo e seguro.
Contratou a melhor empresa de mudanças, tomou todas as providências, de maneira que Sara, quando fosse para lá, encontrasse tudo já arrumado, protegendo-a daquele transtorno que é uma mudança. Deixou-a aos cuidados da mãe dela, durante aquele turbulento período.
Ao final, em uma manhã de primavera, levou Sara para a nova moradia. Claro que, para e esposa, deixou os prazeres de cuidar, depois, da decoração e daqueles detalhes que só as mulheres entendem. Ela encantou-se como ele havia conseguido dar conta do recado.
Naquele primeiro dia de lar novo, até à tarde, fizeram mil planos para a decoração, principalmente do quarto do bebê. Almoçaram e conversaram, romanticamente. Até a comida, ele mandara comprar em um bom restaurante, para ela não se cansar nem se preocupar com essas tarefas, assim, no dia da estréia do apartamento. Emir nem fora trabalhar, a empresa não iria falir por apenas um dia que ele se ausentasse, dizia.
Depois do almoço, deitaram-se, ele, exausto, e fizeram uma bela sesta, como há muitos anos ele nem se lembrava de ter feito. À tardinha, começando a escurecer, ouviram a campainha: DIN DON!
Pareceu a Sara que o Big Ben soava dentro da sala de jantar! Mas nada disse e, calmamente, perguntou-lhe:
- Esperas alguém?
- Não. Nem mesmo dei nosso endereço a ninguém. Não imagino quem possa ser. O zelador, quem sabe.
E dirigiu-se até à porta. Abriu-a. Ninguém.
- Ora, que brincadeira será essa? Ninguém!
- Deixa estar, querido, alguma pessoa que se enganou de apartamento, decerto.
Mais algum tempinho: DIN DON!
- Espera, meu amor, fica aí, eu abro.E foi. Outra vez... ninguém!
- Essa, não! Será que aqui também há desses moleques que tocam as campainhas e saem correndo?
- Calma, querido.
...DIN DON!
Emir correu para a porta e a escancarou: ninguém!
- Ah! Não! De novo ter de me incomodar com isso?? Disseram-me que neste prédio nem havia crianças...Como pode? Por isso comprei nosso apartamento aqui!
...DIN DON!
- Vamos fazer o seguinte: vamos esperar um pouco, se tocarem de novo, saio pela porta de serviço, dou a volta, venho pelo outro extremo do corredor e os pego no flagrante! Esse seja lá quem for me paga! Fica, aqui, querida, não abra a porta...
...DIN DON!
Emir, armado com a vassoura, abriu a porta de serviço, sem ruídos, e saiu nas pontas dos pés descalços, ligeirinho, pelo corredor interno.
...DIN DON!
Sara não se conteve. Foi até à  porta de entrada social, espiou pelo "olho mágico". Viu quando a cabeça do marido apontou no final do corredor, só espiando. Nesse momento, a porta do elevador abriu-se e ele disparou de vassoura em punho. E estacou! Saía do elevador, um senhor idoso, carregando embrulhos...
- Socorro! Não me mate! Leve tudo!
Foi um grito rouco, cavernoso, resfolegante, o do pobre, estacado a meio, com os braços erguidos, na contraluz do elevador.
Emir, de vassoura em riste, acima da cabeça, paralisado, mal conseguiu balbuciar:
- Desculpe-me, por favor! Me desculpe! Não precisa gritar, sou seu vizinho. Eu... eu... só estava querendo pegar uns moleques que tocam a campainha e saem correndo...Me desculpe!
E não achava palavras para explicar direito o que fazia ali, de pijama, àquela hora, e armado de vassoura.
Com o espanto, os pacotes do vizinho haviam se espalhado pelo chão. O velhinho tentava juntá-los, ao mesmo tempo que não queria ser prensado pela porta automática do elevador.
- Deixe-me ajudá-lo, por favor...
Sara ficara petrificada espiando a cena, sem entender o que diziam, já com o coração na boca. Emir era intempestivo, de gênio pouco controlável... Ela abriu a porta devagarzinho e se dirigiu a eles...
De lá, o marido pediu-lhe que acendesse as luzes do corredor, ela poderia tropeçar, cair... Mas ela não conhecia o prédio ainda, não sabia onde estava o botão que devia apertar. Apoiando-se na parede, foi se chegando, cumprimentou o vizinho, ainda meio sufocado pelo susto.
- Boa noite, senhor. Desculpe-nos pelo ocorrido... Meu marido não ia machucar ninguém. Ele apenas queria dar um susto em algum moleque que, a todo instante, toca a campainha de nossa casa.
- Boa noite, minha senhora! Ora, onde já se viu! Quase me mata do coração! Seu marido é que parece um moleque para se comportar assim. Aqui no prédio não há crianças, há jovens e adultos, e tenho certeza de que nenhum deles faria uma coisa dessas! Quanta precipitação!
Sara, desajeitada, pegava algumas coisas pelo chão...
- Deixe, senhora, não precisa fazer isso. Já estará me auxiliando muito se conseguir acender o raio dessa luz!
-Desculpe, senhor, não sei onde fica o interruptor... Mudamo-nos hoje para cá e...
Fica ali, à esquerda, dois passos atrás da senhora!
- Obrigada, já vou acender.
E andou dois passos na direção indicada, tateou pela parede, alcançou o botão e... DIN DON!
Emir, com os braços ocupados pela vassoura e alguns embrulhos, estacou. Sara arregalou os olhos. Tocou de novo no botão: DIN DON! Marido e mulher se olharam, pasmos.
Emir, desatrapalhando-se dos pacotes e da vassoura, recuperou-se, ajudou o vizinho até à porta de seu apartamento, despedindo-se, desculpando-se, sem nem saber como explicar o que estava acontecendo. Nem ele mesmo sabia...
Rapidamente, foi para junto de Sara e tocou o interruptor: DIN DON!
- O que é isso, Emir? O que está havendo?
- Não sei, querida, não sei. O Fernando, ontem mesmo, esteve aqui e finalizou toda a instalação elétrica, colocou a campainha nova, e me disse estar tudo certo...
- O Fernando??? Mas por que ele? Não sabia que ele entendia de eletricidade...
- Porque ele entende de hidráulica, mecânica... Deve... devia saber de eletricidade, também. É engenheiro, esqueceste? Quis me ajudar e eu permiti.
As luzes do corredor se acenderam e: DIN DON!
- Amor, se cada vez que alguém acender as luzes dos corredores, nossa campainha tocar... Vai ser um inferno! Como vamos dormir à noite?
...DIN DON!
- Vou descer e chamar o zelador, quem sabe ele dá um jeito nisso, falou Emir.
- Assim, de pijama e de vassoura na mão? E riu...
- Você está rindo? Vai ser um pesadelo! E o pior é que quase mato de susto o pobre velho! Se não fosse o meu reflexo, eu não sei o que poderia ter feito ao coitado... Primeiro dia, aqui, e já estamos parecendo vizinhos loucos. Vou descer, assim mesmo. Toma, pega a vassoura e entre, aqui está frio.
E se foi escada abaixo.
Passados alguns minutos e mais alguns DIN DON!, ele voltou, trazendo o zelador com sua caixa de ferramentas.
- Pode deixar, seu Emir, aqui no prédio quebro alguns galhos. De qualquer maneira, se eu não puder consertar, desligo a campainha, certo?
- Está certo, seu João, obrigado.
O funcionário abriu sua caixa, pegou uma chave-de-fenda, tirou o espelho da campainha e começou a rir baixinho.
- O que foi seu João?
- Só um momentinho, seu Emir, mas ainda não tenho certeza.
Dirigiu-se ao interruptor  e fez a mesma coisa, abriu, puxou uns fios e riu de novo.
- E daí, seu João?
Emir já começava a se irritar com aquele risinho do zelador...
- Olha, seu Emir, não sei quem o senhor contratou para cuidar da eletricidade do seu apartamento, é bom o senhor mandar fazer uma revisão em toda rede elétrica, pois quem fez esse serviço, aqui, conseguiu ligar um fio da campainha a um fio da minuteria do edifício...Assim, a cada vez que alguém aciona o dispositivo para acender as luzes dos corredores, a campainha da sua casa também é acionada...O senhor pode acender as luzes, por favor, para eu poder desfazer isso aqui?
DIN DON!
Lizete Abrahão
Enviado por Lizete Abrahão em 30/08/2005
Reeditado em 26/08/2008
Código do texto: T46251


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Sobre a autora
Lizete Abrahão
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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Lizete Abrahão