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DOIS HOMENS, UMA MULHER...



                         DOIS HOMENS, UMA MULHER...

                                      PARTE III

      A notícia correu célere, havendo o cuidado de não informar Laurentina do sucedido. A equipa médica que assistiu ao parto foi informada do acidente e ministrou-lhe sedativos e providenciou-se apoio psicológico para obviar a um quadro depressivo pós parto, tendo a jovem mãe tomado conhecimento do acidente apenas no dia seguinte. De tudo o que lhe foi relatado omitiram a possibilidade de o marido ficar paraplégico e à medida que o trabalho psicológico avançava, se davam informações mais verdadeiras. Os pais de ambos receberam a notícia com profunda tristeza prontificaram-se a dar todo o apoio possível e necessário que a situação exige.
      Uma semana depois do acidente, Laurentina visitou o marido, tendo previamente sido aconselhada pela psicóloga destacada para acompanhamento a não fazer conversa que estimulasse as emoções, e pelo contrário, se mostrasse segura, confiante e optimista para que essa mensagem fosse interiorizada por Benjamim. Sem dúvida que a jovem esposa soube interpretar o que se lhe havia pedido. Quanto ao marido, exteriorizou energia positiva e pautou o diálogo pela mesma conduta, de modo que no final da visita nenhum se mostrou abatido psicologicamente. Crê-se que a conduta de ambos seja um sinal de fragilidade interior que cada um procura esconder do outro, para não aprofundar a sua própria tristeza. Seja como for, o importante é que funcionou.
      A convalescença de Benjamim irá decorrer demoradamente mas segura, contudo depois de receber alta hospitalar irá ter sessões de fisioterapia para minorar os efeitos da imobilidade, que se presume, só o afectará ao nível dos membros inferiores. A vida deste casal decorria na plenitude e um erro de cálculo na condução ou quiçá, alguma imprudência, poderá ter alterado todos os sonhos. Glórinha, a costureira e mestre de Laurentina, está chocadíssima com a tragédia e todos os dias corre para a igreja a coberto da sua muita fé e maior beatice a pedir em oração o rápido restabelecimento de ambos, mas principalmente de Benjamim.
      Nesta hora difícil os sogros uniriam esforços e cada um daria o seu melhor. Aos pais de Laurentina, materialmente não se lhes exigiria nada, os quais compensariam com incomensurável entrega de afectos, especialmente aos netinhos mais velhos, o parzinho de gémeos, que levaram para sua casa até que a vida retome a melhor normalidade possível. O Ricardo Filipe seria levado para os avós paternos e Laurentina e o recém-nascido também se hospedaram em casa dos sogros durante duas semanas até que as saudades da casa falariam mais alto. Apesar de se sentir bem nos sogros, preferia a simplicidade e o cheiro da sua humilde e renovada casa, nela contando os dias até que Benjamim a ela regresse. O fatídico acidente cortou parte dos grandes sonhos do jovem casal e agora há que os reconstruir com normalidade, fazendo renascer outros. A vida é sonho e renovação e neste particular Benjamim e Laurentina intuiriam a energia revigorante que a Dr.ª Marisa, psicóloga destacada para acompanhamento deste drama social lhes passava e que os jovens interpretariam muito bem.
      Da Dr.ª Marisa poder-se-á acrescentar a sua larga experiência em cuidados paliativos a pessoas despojadas de sonhos e ambições justamente criados. Digamos que é a maior e a melhor referência na área da reabilitação social pós dramas ou tragédias de vária ordem. A sua missão, ainda que nesta fase se apresente mais interventiva, irá fazer-se sentir nos próximos dois anos até à consolidação do equilíbrio psicológico e emocional do infortunado casal. Aliás, é recomendável um período nunca inferior, para obviar a recidivas. O primeiro encontro de Benjamim e Laurentina foi antecedido de uma especial preparação de ambos, obedecendo a um plano predefinido pela Dr.ª Marisa que deste modo permitiu que o encontro acontecesse sem prantos, sem fragilidades aparentes e com espectáveis optimismos. Da parte de Benjamim era perceptível um estado de conformação com a sua situação, sendo que a sua preocupação ou preocupações eram o bem-estar da família. O patrão visitava-o e fazia-lhe chegar uma mensagem solidária reafirmando-lhe disponibilidade em tudo o que estivesse ao seu alcance. Nelinho, já totalmente recuperado do estado de choque e dos traumatismos, visitava-o amiudadas vezes e nos olhos e coração de Benjamim não se via o mais pequeno ressentimento. A infelicidade de um, pareceu cimentar a amizade de ambos.
      Após as primeiras duas semanas, quiçá as mais difíceis sob o ponto de vista médico, Benjamim iria ser submetido a uma cirurgia no sentido de lhe revitalizar alguma sensibilidade perdida. O casal foi informado pelo Dr. Gervásio Fiúza que essa cirurgia ocorreria dentro de duas a três semanas e que nela depositaria fundadas esperanças. A Dr.ª Marisa, era porventura a pessoa mais bem informada acerca de tudo quanto gravitava em torno do casal e em função disso definiria toda a estratégia paliativa, de tal modo que nem ela escaparia aos sentimentos que trespassavam aqueles corações dilacerados pelo infortúnio, ao ponto de uma vez ou outra marejar os olhos na solidão dos seus juízos.
      Antes de ser psicóloga, é pessoa e a Dr.ª é seguramente um coração bem formado que busca energias e vontade de vencer na minoração de constatações com que a sua actividade profissional se defrontou ao longo de cerca de trinta anos de serviço público. Cada acção bem sucedida fá-la sentir-se realizada de tal modo que já se lhe tem ouvido dizer que se tivesse de voltar ao princípio da profissionalização, só poderia ser psicóloga ou assistente social.
      Feita a cirurgia pelo Dr. Gervásio, este mostrou-se optimista quanto ao resultado esperado, ainda assim diz serem necessárias duas a três semanas para tirar ilações mais conclusivas.
      Uma coisa é certa, Benjamim jamais andará pelos seus próprios meios e toda a reabilitação possível irá passar por um programa de fisioterapia, com uso de aparelhos, em sessões bidiárias às segundas, terças, e sextas e posteriormente, hidroterapia em piscinas específicas com técnicos especializados em reabilitação, com sessões bissemanais às quartas e quintas. Os seis meses sequentes à alta hospitalar, iriam ser intensos e nesse período Benjamim foi criando amizades com outros doentes paraplégicos que o ajudariam a minorar a sua sorte. Digamos que a compartilha da mesma dor amenizou o sofrimento. O bom ambiente encontrado no centro de reabilitação fisioterápica tem permitido a Benjamim encarar a nova realidade, despida de traumas, que inicialmente pareciam quererem-se instalar. Sem dúvida, que ao contrário do que supostamente se pensaria, a solidariedade entre iguais faz-se por cima e entre eles reina a felicidade que outros não gozam, mesmo não tendo limitações locomotoras.
      A capacidade de superação é um privilégio que assiste ao ser humano que encontra na mente energias recônditas e ilimitadas. A  ressocialização e integração plena de todos quantos têm limitações, sejam motoras, sensitivas, intelectuais ou até de aparência, é uma obrigação de todos e particularmente daqueles que têm responsabilidades e competências delegadas. Neste particular, a Sociologia, e a Psicologia têm tido importante papel no despertar de consciências ou no apoio à integração. Infelizmente, o mundo parece querer regredir e a desumanização ganha foros de primado em busca dos melhores, dos mais saudáveis, dos mais inteligentes, dos mais capazes ou até mesmo, dos mais bonitos. A solidariedade entre iguais na espécie e no género perde para entre iguais nas melhores performances. À medida que o mundo esbate fronteiras em favor da globalização, mais o homem solidário fica isolado para ser substituído pelo homem da materialidade. O curso da história precisa de reverter esta tendência para que a globalização exista, mas ao nível da equidade, de toda a equidade. Urge deitar a mão e reequilibrar o plano inclinado em que o homem está metido. Ninguém ficaria a perder e todos ficariam a ganhar. Homens como Benjamim, não são farrapo, no entanto acabam por ficar a perder duas vezes, uma a limitação física outra a segregação. Injusto. Benjamim irá sentir na pele esse estigma e de que maneira…
      Laurentina vai criando a Ana Isabel com carinho de boa mãe e nas visitas que faz ao marido, este recomenda-lhe sempre para que nada falte às crianças e que o faça em nome dele. Benjamim sente saudades dos filhos e das traquinices e diz que brevemente estará entre eles. Entretanto, as crianças continuam entregues ao cuidado dos avós e o regresso está pensado para quando o pai voltar definitivamente para casa. É-lhe dito para não ter pressa, para que o programa de tratamentos seja levado até ao fim.
      Cristino, mais que a mulher, têm acompanhado de perto as necessidades do casal e colaborado com bens de consumo ou simplesmente com palavras encorajadoras.
      Sabe-se da empatia entre nora e sogro e que nesta fase ganha contornos ainda mais expressivos. Laurentina, olha o sogro como pessoa boa e de bem e vê nele o apoio que lhe está a faltar.
      Decorrido mais de um mês, nova rotina de vida entrou naquele lar. Mais um filho, menos um pai presente… Laurentina à noite, sobretudo no muito silêncio da noite, questiona-se sobre o futuro e deixa em aberto e sem respostas as mais variadas perguntas que gostaria de fazer. È jovem, muito jovem. Os seus quase vinte anos, pejados de viço e alguma imaturidade e inexperiência que a escola da vida fornece, estão em ebulição. Os sonhos e ilusões por materializar fervilham-lhe. A sua vida sentimental e sexual está à cabeça das questões que mais gostaria de ver respondido. Torna-se cúmplice de pensamentos nunca antes havidos e tidos por perversos e que agora se apresentam como saída possível. Recrimina-se por eles. Sente-se fragilizar e na ausência do marido, o sogro ocorre-lhe em sonhos como a ponte para transpor um rio de crocodilos. Um só mês está passado e no mínimo mais cinco terão de passar até que a esperança volte. O sogro, antes olhado como o pai do marido, agora é olhado como tábua de salvação. Outrora, menos atenta a pormenores que via no sogro, agora escalpeliza-os até à exaustão. Encontra nele traços de personalidade e fisionómicos que antes lhe escapavam e onde se retrata Benjamim. Na verdade, há pormenores que vistos atentamente, parecem terem passado na horizontal.
      As visitas de Cristino à nora, a coberto de apoio ou solidariedade, intensificam-se. Ele parece sentir o redespertar de pensamentos que em tempos lhe ocorreram e que recriminou, recalcando-os. Na despedida, Cristino fixa demoradamente os olhos na nora, numa cobiça que lhe faz trazer a cabeça revolta e os sentidos extremados. Laurentina percebeu que o sogro está diferente e mergulhada num vazio de afectos íntimos fantasia os mais imponderáveis cenários que se avolumam à medida que o sogro se afasta. Na solidão da noite tudo lhe lembra. A cama onde sentiu exaltados gozos, fá-la recordá-los. Pensa que Benjamim jamais lhe devolverá essas lembranças, materializadas. O amor carnal vivido entre eles apresenta-se como uma miragem para o futuro e teme pela fidelidade ao marido, na pessoa do sogro. Cristino, com a sua sexualidade reprimida por a mulher estar a atravessar uma fase difícil e vigor de vinte anos num corpo de quarenta e sete, trá-lo excepcionalmente estimulado e a nora é o seu epicentro. Teme pelas próximas visitas e pelo seu comportamento menos assertivo.
      Laurentina, cuja sexualidade tem exigências próprias de jovem, gere mal a abstinência e estimula-se tocando-se, ora nos seios ora no órgão genital. Também ela se sente carente e um mês com perspectivas de muitos mais, quiçá toda a vida, fá-la deprimida. Sente que precisa de actividade sexual para se realizar como pessoa e a incapacidade de Benjamim não a irá impedir de concretizar, apesar do amor que lhe tem. O sogro já se instalou no seu subconsciente como o homem que melhor representaria o marido e também ela teme pelo próximo encontro, que deverá acontecer ainda hoje, depois de Cristino sair do trabalho, aliás como vem sendo habitual desde que a nora regressou à sua casa, depois das duas primeira semanas a seguir ao acidente as ter passado nos sogros.
      Já sol-posto e Cristino saído do trabalho, inicia a visita à nora depois de ter ido a casa buscar umas coisas para lhe levar. Laurentina já não contava com a visita, uma vez que não é costume fazê-la àquela hora. Cristino chamou e logo a nora o mandou entrar. Conversaram de banalidades, de Benjamim, do seguro, do patrão, enfim de tudo o que vinha à ideia…e da disponibilidade dele para tudo o que lhe fizesse falta. Fizesse falta, palavras que Laurentina interpretou com segundas intenções e de que os seus olhos fizeram eco. Cristino, que no uso daquele vocabulário não havia empregue qualquer segundo significado, percebeu nela algo de estranho e mais atentamente a fitava para tirar as ilações mais convenientes. Entendeu ser um remoque a não desperdiçar e muito directamente lhe foi dizendo que na sua intimidade não contasse com o filho para mais nada que não fossem uns beijos ou carícias, porque quanto ao resto…
      Laurentina baixou a cabeça e deixou escorregar algumas lágrimas e o sogro abraçou-a como que a confortá-la do pesar. Este abraço aconchegador vai ter reflexos nos imaginários de cada um e irá ser interpretado arbitrariamente por cada um deles. Em Cristino, além da paternidade e do protectorado devido, os sentidos exorbitam-se e a gula carnal ganha maior dimensão. Debaixo desta pressão, o racional perde para o irracional e o descontrolo está à beira de se revelar. Por sua vez, Laurentina sente-se trair pela verdura dos anos ou quiçá pela sua própria natureza. Na verdade, dois meses já se passaram e as necessidades de afecto quebradas abruptamente na sua rotina ainda não foram assimiladas como acontecimento normal e diário de tantos casais que no seu dia-a-dia são confrontados com as mais diversas e aleatórias tragédias. É neste quadro de imaturidade que Cristino vai tentar assediar a nora, conhecedor e atento leitor dessa fragilidade. Sente-se preparado e motivado para a cortejar e diz a si mesmo que é um desafio à sua própria capacidade de sedução, mais do que à consumação do desejo.
      Hoje sábado, é dia de visita mais demorada a Benjamim e Cristino e mulher passarão pela casa de Laurentina para a levarem. O horário mais alargado de fim-de-semana estende-se das 15.00 às 19.00 Horas e será aproveitado para o jovem casal conversarem enquanto os sogros foram fazer compras ao hipermercado e no final se quedarem junto ao filho para lhe transmitirem solidariedade e ajuda material no que seja necessário.
      Da conversa saída dos jovens, Benjamim revelou-se conformado com a situação apenas ressalvando como nota de mágoa a incapacidade para satisfazer a mulher naquilo que ela tanto gostava e que ele sabia corresponder. Laurentina percebeu o seu jeito indirecto de dizer que estava impotente e disse-lhe que o amor deles não passava só por aí, embora também a ela lhe deixasse mágoa, mais por ele que por ela. Disse-lhe ainda, que a ausência de sexualidade tal como é entendida seria substituída por afectos que por menos explorados se haviam desvalorizado.
      Benjamim confessaria e levaria mais longe o amor pela mulher, quando surpreendentemente lhe disse que não veria com maus olhos que ela continuasse a ter actividade sexual, dentro de alguns parâmetros que soubessem respeitar o seu bom-nome. Perante este desabafo, Laurentina ficou sem palavras e o sogro apareceu-lhe em imagem de fundo.
      Calados e olhando-se, ela debruçou-se sobre a cadeira de rodas e beijou-o demoradamente não se sabendo ao certo se a agradecer-lhe a compreensão dele se o amor que aquelas palavras transmitiam.
      Chegados das compras, o casal Cristino esteve junto do filho e falaram de banalidades, tal como futebol, notícias de TV ou de jornal, acontecimentos do quotidiano e reforçaram-lhe também o seu empenhamento em ajudá-los e que os filhos estão bem entregues aos avós, de modo que ele se deveria sentir agradado com todo o empenho gerado em torno da sua sorte. Benjamim disse sentir-se confiante e grato e que nunca alguma vez esteve só e que essa segurança o ajuda a encarar o futuro com optimismo.
      Chegada a hora de final de visita anunciada na amplificação sonora, despediram-se com os habituais gestos de amor de pais para filho e de mulher para marido, estes num expressar de um beijo com contornos de afectividade diferente, com a promessa de visita, possivelmente a meio da semana.
      O regresso fez-se primeiro pela casa de Cristino onde deixou a mulher e parte das compras e de seguida levou a nora a casa e algumas compras que haviam feito com a intenção de lhe dar. Chegados, Cristino retirou os sacos de compras tendo a nora agradecido. Esta convidou-o a entrar e ofereceu cerveja que o sogro agradeceu mas recusou, tendo-lhe dito que o que queria dela era outra coisa…Qual coisa, perguntou a nora, com a certeza do que ele queria dizer. Cristino sem dizer palavra, passou por trás dela e cingiu-a pela cinta contra o seu peito dizendo-lhe: se me queres apagar a sede, digo-te, ela não é de cerveja que se apaga mas com tua pele e boca eu mataria não só a sede como a fome.
      Daquela posição cingida, Laurentina liberta-se, vira-se, dá meia vota e pensando nas palavras ditas poucas horas antes por Benjamim, abraça o sogro e beija-o sôfrega de desejo carnal. Cristino, surpreso com a atitude da nora, mais do que era suposto, avança, desaperta-lhe os botões da blusa e os seios saltam fora como que amordaçados pelo tesão reprimido e agora livres por carta-branca do seu legítimo dono. Cristino afaga-os e beija-os enquanto os braços de Laurentina lhe torneiam o pescoço em atitude passiva de prazer. Os corpos entram definitiva e irremediavelmente em ebulição e tomam o caminho da cama, ele pelo desejo pela nora já recalcado de algum tempo a esta parte e ela porque certa de carência futura, agarram a oportunidade para extravasar e descomprimir tensões. A sofreguidão abreviou-lhes o acto e rapidamente Cristino gozou sem que Laurentina tivesse atingido o clímax do prazer. Seguidamente rolaram beijos, abraços, palavras e a excitação regressa para ficar e a penetração aconteceu para um longo e proveitoso acto sexual que se acredita, enraíza na empatia que vem de há muito tempo. Laurentina sob gemidos fazia crescer no amante tensão máxima, que na sua experiência soube aguardar o orgasmo da nora para a presentear com o mel dos amantes. Nem por uma única vez, um ou outro se lembraram dos cônjuges. O mergulho no prazer e no desejo foi tal que apenas se entregaram a si mesmos com promessa de se voltarem a encontrar.
      Saciados os desejos, não se notou em nenhum deles recriminação. Cristino imputa responsabilidades à mulher por não o saber mimar adequadamente e Laurentina recebeu do marido permissão para se satisfazer sexualmente desde que o seu nome não rolasse na praça pública e lhe denegrisse a imagem. Estribados nestes argumentos, os novos amantes iriam encontrar-se mais vezes com cautelas redobradas para obviar a suspeitas.
      Despediram-se com um beijo e Cristino fez o regresso a casa impondo a si mesmo cuidado e censura no modo como deveria falar da nora à mulher ou a qualquer outra pessoa. A incapacidade do filho e suposta impotência é motivo para fazer levantar suspeita nas pessoas acerca do encaminhamento sexual de Laurentina, que atendendo à sua idade e suposta apetência sexual a vão trazer debaixo de olho. Cristino, sabendo que o povo é atento observador, irá traçar uma estratégia no sentido de protegerem o seu bom-nome e mais ainda, por se tratar de um incesto.
      Chegada a noite, cada um reviveu aquele momento a seu modo. Laurentina, deitada na cama onde horas antes se havia deleitado num prazer carnal que não era experimentado há dois meses, recordou-o pormenorizadamente, tendo adormecido bem tarde, para lá das duas horas da manhã. Entre os pensamentos que lhe ocorriam, a fantasia dos próximos encontros ocupavam-lhe o espírito e prometia a si mesmo surpreender o sogro e este por sua vez também recordava o momento como o mais audaz da sua vida e quiçá o mais perigoso para a sua estabilidade emocional e especialmente do casamento. O sono tardou e a mulher depois de ter adormecido, acordaria e o marido ainda se encontrava acordado, o que a levou a questioná-lo sobre a razão da insónia. Cristino, desculpou-se atabalhoadamente e a mulher, embora tivesse notado, nada disse. Foi um momento difícil, que mesmo mal gerido aliviou Cristino, levando-o a crer que a mulher não tivesse a menor suspeição de nada. A si mesmo, iria pedir mais contenção no frenesi porque sabe que pela frente irá ter muitas ocasiões para o testar. Na sua cabeça germinam estratégias defensivas para si e para Laurentina. Cristino teme a juventude e inexperiência da amante e por via disso irá dar-lhe conselhos preventivos para que possam prolongar intemporalmente, o relacionamento. Sabe que se não mudar as suas rotinas diárias e se Laurentina também não as mudar, a suspeição do envolvimento dificilmente será perceptível.
      Conquanto não seja experimentado em evasivas extra casamento, ele reflectiu demoradamente sobre elas e não irá abrir mão do rigor da sua aplicação. Acha que deste modo poderão estar seguros e o bom-nome protegido. Destes pequenos e importantes pormenores, irá dar parte à nora, sublinhando-lhe toda a importância na sua aplicação. O próximo encontro ocorrerá já a meio desta semana, depois da visita ao Centro de reabilitação. Enquanto Benjamim estiver internado, os encontros dos recém namorados têm a protegê-los o disfarce das visitas, outro tanto não acontecerá quando Benjamim regressar definitivamente a casa. Cristino, já está a ponderar sobre este cenário futuro e do que melhor achar, transmitirá à nora. Acha que se a estratégia for una, os “equívocos” tendem a esbaterem-se e à jovem apenas lhe deixará a oportunidade do zeloso cumprimento da mesma.
      Na visita de hoje, a mãe de Benjamim não foi por se encontrar a contas com uma menorragia arreliadora. Só Laurentina e Cristino fizeram a visita, mais breve do que o habitual, por imposição de horários do próprio Centro. O regresso, fez-se no limite do mesmo e durante a viagem ambos se comportaram com civilidade, não dando a menor oportunidade para quem os visse, para fazer “falso” juízo. Na viagem, Cristino aproveitaria todo o tempo para passar à nora a estratégia por ele delineada e observou-a para o seu escrupuloso cumprimento. Fez questão de sublinhar, que não se relacionasse com nenhum homem, não por ciúme, mas porque o tribunal popular seria implacável a ajuizar e a condenar.
      É pública a incapacidade de Benjamim e a sabida tendência para os homens opinarem sobre mulheres separadas, divorciadas, viúvas, ou, como no caso dela, privada de sexualidade. Estas situações potenciam assédio, mais do que a mulheres solteiras, cujo anátema, as protege.
      Laurentina fez promessa do cumprimento das sugestões estratégicas e ela mesmo disse que já tinha ponderado sobre algumas, embora não as aprofundasse tanto quanto ele. Ficou claro entre eles que de entre todas as regras, a mais importante seria a de não alterar rotinas de vida, porque além das pessoas que anonimamente os conhecem, Benjamim e a mãe teriam acuidade bastante para reconhecerem novos hábitos.
      Enclausurado mais pelo pensamento que pelos movimentos, os amantes iriam continuar os encontros amorosos.
      Chegados a casa, soltou-se a volúpia e os beijos e abraços cruzaram-se de lábios para lábios, de corpo para corpo, libertos da mordaça que os olhares de terceiros poderiam constranger. Já corpos em brasa, recolheriam ao leito para satisfazerem os seus mais apetecidos desejos carnais, com Laurentina empenhada em esvair Cristino, de todas as energias. Exaustos, saciados e lavados em suor, os amantes trocaram entre si palavras carinhosas, omitidas durante o acto, numa poupança de energias, em que os sussurros falavam mais altos. O momento final foi preparado mentalmente por Cristino com contenção de gozo, em espera da amante, que em gritos abafados se deleitava, contorcendo-se febrilmente, tendo o amante correspondido com hirteza máxima, soltando a quente seiva no momento certo, em comunhão orgástica.
      Duas vezes na semana se repetiriam estas cenas, até que a proximidade do regresso de Benjamim a casa faria amansar os ímpetos, especialmente em Laurentina, talvez por sentimento cúmplice de atitudes irreflectidas que a sua consciência agora reprimia.
      Aquela conversa havida no passado recente, entre os jovens esposos, em que ele aparentemente se revelou permissivo na reposição da sexualidade de Laurentina, não seria o bastante para que ela a tivesse orientado daquele jeito e muito menos, com o sogro. Não poderia nunca ter tido aquela conduta sem aprofundamento e muito menos à revelia do marido. A acontecer, só o poderia ter sido com consentimento e conhecimento e quiçá com um homem da sua estima, apreço e confiança. Era sob estas reflexões que Laurentina se pranteava, depois da saída do amante, neste último mês que antecede o presumível regresso a casa de Benjamim. O seu menor empenhamento foi notado por Cristino, que o levou a questionar sobre a frieza com que ultimamente se entregava ao prazer do sexo. Num desses questionamentos, Laurentina entrou em pranto convulso e Cristino abraçou-a como que a abafa-lo, tendo-o incendiado ainda mais.
      A aparente tranquilidade do sogro foi quebrada e ele mesmo percebeu que diante deste cenário, a nora revelaria mais maturidade do que aparentemente a sua idade faria supor e que ele, dando largas a desejos recalcados de uma sexualidade mal vivida, o teria atraiçoado e conluiado na honra e dignidade de si próprios, de benjamim e mãe. Que fazer? Perguntavam-se. Refeitos dos prantos, conversaram demoradamente, esmiuçando qual o futuro a encontrar para salvar a honra e a dignidade, a que a perversidade os encaminhou. Cada um opinava e acertaram entre eles que embora jamais alguém tivesse desconfiado desta relação proibida, também não a deveriam esconder por respeito a si próprios. Dizia Laurentina que não bastava terem a certeza de que ninguém soubesse, se nós sabíamos. Continuava dizendo: a minha consciência não deixa que eu olhe para o meu marido sem que não me sinta culpada e não quero para mim esse fardo da consciência que teria de carregar até ao final da minha vida, além de que Benjamim jamais teria merecido semelhante desonra.
      Uma significativa perda de humor tomou conta da jovem e despojada de auto-estima, pensa para si uma saída para a crise que transcende o equilíbrio emocional e razoável. Pensou em recorrer à Dr.ª Marisa, psicóloga já sua conhecida pelo acompanhamento que faz a Benjamim com resultados positivos, mas a força anímica e a vergonha de se expor, inibiram-na. Cristino, como que contagiado, sentiu-se fragilizado pela eminente depressão da nora e não sabendo que solução plausível encontrar para os dois, sugeriu um suicídio combinado pela ingestão de chá de folhas de loendro. Ao ouvir esta hedionda sugestão, Laurentina esboçou sorriso libertador e feliz, de adesão. Cristino, sentindo-se cobarde em causa ignominiosa, planificou cinicamente o suicídio ao pormenor, tendo sugerido que deixassem escrito as suas razões e para tanto deixaram as seguintes cartas escritas:
      Meu querido marido e filhos:
      Quando for lida esta carta de despedida, já não pertencerei ao reino dos vivos. Esta solução extrema, com epílogo que não merecerias, acontecerá por defesa de carácter, de honra perdida e por ditame de consciência, depois de ter cometido acto louco de infidelidade que jamais ousaria perpetrar em momento normal das nossas apaixonadas vidas. Não sei o que aconteceu comigo ao não ter sabido aceitar a tua incapacidade física, pacificamente. Não soube distinguir amor de sexualidade e fui traída por esta. Agora estou a cobrar a minha perversidade com a própria vida. Um sentido beijo a todos e um até amanhã…
      Esta carta ficaria dentro da mesinha de cabeceira até que fosse lida, primeiramente pela sogra e só depois pelo marido. Na mesinha do lado contrário, estaria a carta deixada escrita por Cristino a qual dizia:
      Minha muito querida mulher:
      Não tendo sabido compreender o ciclo de vida em que entraste, os meus mais primários instintos carnais retiraram-me racionalidade e submeteram-me. Em obediência a eles, cometi execrável adultério com a mulher que jamais poderia ter acontecido, sentindo-me um canalha e agora jamais conseguirei conviver com esta situação. Não havendo nada a fazer para remendar o que remendo não tem, partirei na certeza de que desta maneira salvarei a honra perdida num gozo de carne que não de alma.
      Um profundo abraço e um beijo eterno. Até um dia…

      Consumada a escrita das cartas, os amantes beberam o chá letal, cuidadosamente preparado por Laurentina e açucarado por Cristino, findo o qual, se entregaram aos últimos prazeres carnais em jeito de despedida da vida.
      Meia hora depois, jaziam mortos, ao lado um do outro.
 

      Diálogo entre amantes:
      - Meu querido amante, aproxima-se o regresso do meu marido e teu filho. Não quero para mim este sentimento de infidelidade, a torturar-me. Vivendo na presença dele, não fará qualquer sentido que mantenhamos amores furtivos. De toda a experiência que retiro do nosso envolvimento, cheguei a uma conclusão: Teu filho e meu marido, jamais me dará no futuro a realização pessoal que gostaria de partilhar a dois. O nosso passado, recordá-lo-ei para sempre como lindo, mas não quero nem desejo hipotecar o meu futuro, num futuro que jamais existirá. Seria hipocrisia da minha parte, teimar no meu casamento que doravante deixou de fazer sentido. A sexualidade não é coisa que o meu entendimento relativize e encaro-a como pilar do casamento. Deste modo, entendo-a como parte para a sua consolidação. Também não quero nem quererei, que meu esposo se sinta frustrado com a minha presença por manifesta incapacidade de me satisfazer, como ele sabe que eu gosto.
      Friamente, ponderei sobre o meu futuro e do meu marido e conclui que mantendo o casamento, estarei a alimentar a infelicidade dos dois. Talvez pense egoisticamente, mas racionalmente será melhor que haja um infeliz a dois… Nesta conformidade, te quero dizer meu querido e apaixonado amante: Serei tua para sempre se tu o desejares…

      Esta declaração de amor de Laurentina pela pessoa do sogro, deixou-o perplexo e ao mesmo tempo extasiado. Não sabendo ao certo o que lhe dizer, abraçou-a contra o peito de tal modo, que sem emissão de qualquer palavra, ficou perceptível que ele aceitaria o repto da amante. Já refeito da perplexidade, declarou o seu indefectível e eterno amor, deste modo:

      Querida amante e amada, a minha declaração de amor já em mim se congeminava há largo tempo, só não a havia expresso por respeito ao meu filho e teu marido. Meu coração diz-me que em face da breve presença de Benjamim, não deveríamos continuar as nossas surtidas de amor, por perversas e ousadas.
      Como nossos encontros ocorreram no maior anonimato, tudo o que aconteceu entre nós é como se não tivesse existido, contudo não sei se teríamos capacidade para disfarçar… Neste contexto, também penso como tu. A hipocrisia não deve assistir aos nossos corações e desde já te afirmo e reafirmo minha mais que amante. A partir de hoje seremos marido e mulher para os nossos corações e amantes perversos para a sociedade.

      No final das declarações, abraçaram-se demoradamente e um sentido beijo passou de boca para boca. Prepararam as malas e saíram ao encontro da felicidade para lugar paradisíaco.


PS.
O autor, deu a este conto dois finais diferentes para que o leitor pudesse escolher aquele que no seu entender seria a saída mais coerente e assertiva para o finalizar.

Um obrigado a todos os leitores, que fazem com que existam escritores.




                                            FINAL






                                              Águas Santas, 25.11.2007
                                                      António Eugénio
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 25/11/2007
Código do texto: T752287

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Sobre o autor
Povo Lusitano
Portugal, 62 anos
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