O Monstro de Lama

Existia, em algum lugar nos confins do mundo, um grande pântano lodoso e negro, de águas pútridas, fétidas e infectas. A lama movediça, que engole qualquer um que nela pisa e que soltava bolhas provenientes de gases tóxicos nascidos do solo falecido, servia de lar para um ser desconhecido. Mas quem poderia viver num lugar tão inóspito e hostil como esse pântano sombrio, onde a luz do sol era incapaz de penetrar a névoa podre e negra, como fumaça de enxofre exalada das grandes árvores mortas, cinzentas, sem folhagem e muito menos flores, sem contar àquela lama escura, cujo as sombras saíam do solo como se fossem matérias espectrais? Um monstro, é claro.

Era um monstro cuja forma era algo indefinido. Não dava para distinguir o final da ca-beça com o começo dos ombros, nem dos troncos com seu quadril, pois ele era uma enorme bola de lama, a mesma que revestiam o solo daquele pântano, que ficava o tempo todo es-correndo por todo seu corpo e respingando no chão. O monstro, continuamente passava suas mãos, se é que se pode chamar aquilo de mãos, sobre seu rosto para limpar a região dos olhos para que pudesse, por alguns instantes, enxergar, pois em questão de segundos a lama os cobria novamente.

O monstro não sabia a sua origem muito menos o porquê estava ali. Por vezes tenta-ra sair do pântano, porém era um grande labirinto e sempre se perdia lá dentro. Tudo a sua volta tinha a mesma imagem, nenhum ponto servia de referência de orientação, o que esgo-tava os seus esforços e o fazia desistir de sua busca de libertação. Porém o pior ainda estava por vir. Numa tentativa desesperada de sair do pântano, o monstro decidiu seguir sempre em linha reta e, em decorrência disso, teve de enfrentar um terreno acidentado, irregular e cheio de armadilhas naturais como buracos, barrancos, areias movediças, árvores caindo, etc. Foram meses tentando buscar a saída, e quando as esperanças estavam se esvaindo, após passar um arbusto urticante, ele viu uma clareira de grama verde, árvores frondosas de fo-lhagens abundantes, algumas explodindo em flores, outras carregadas em frutos. Era algo lindo, belo, inacreditável.

O monstro correu até essa clareira, feliz por finalmente ter saído do pântano, e anda-va desnorteado devido à fadiga excessiva por causa da dura viagem, mas foi só ele pisar na grama viva desse local que, como uma grande queimada que se alastra rapidamente numa floresta, todas as gramas começaram a escurecer, começaram a morrer, começaram a apo-drecer, e como um vírus ativo num corpo saudável, tudo que estava vivo a sua volta começou a morrer e a se deteriorar, as frutas enegreceram, as folhas secaram e as flores murcharam. Em questão de segundos, aquele bosque que o monstro achara, tornara-se um pântano, idêntico ao que ele vivia.

Ao ver aquilo, o monstro tentou chorar, tentou gritar, tentou expressar a sua dor por entender que todo aquele pântano havia nascido a sua volta porque ele existia, e não que ele havia sido deixado lá, mas a lama que lhe envolvia o cegava e o afogava. Tinha dificulda-des de ver e de falar, dificuldades de andar, de tocar, de pegar coisas e fazê-las. Era um monstro de lama, parecia, mas o que ele tinha não eram membros. Um humanoide estranho, incapaz de agir. Não lhe restava outra coisa se não desistir de buscar sua liberdade e ficar, para sempre, no pântano sombrio, fétido e sem vida que ele mesmo criara.

Muitos anos se passaram e, por todo esse tempo, o monstro manteve-se intacto, pa-rado no mesmo ponto da clareira que um dia chegará e que transformará em pântano. Ele nem se preocupava mais em se mover ou de limpar os olhos, pois já não adiantava mais nada buscar algo impossível. Parecia uma bola de lama, mas se olhasse de perto, era possível en-xergar que o monstro estava agachado, abraçando seus joelhos com a testa apoiado sobre eles. Poderia jurar que estava chorando, mas o coitado era incapaz disso.

Por ele ser de lama, às vezes seus membros acabavam se juntando ao tronco e ele era obrigado a se esforçar para separá-los, pois a sensação era desagradável, e, naquela posi-ção em que ele se encontrava, suas pernas, braços e testas também haviam se fundido. Na atual conjuntura ele tentava nem se preocupar mais com isso, mas o incomodo era tanto que já o estava sufocando, então, num ato de desespero, tentou libertar-se. Puxou a cabeça para traz, que com muito esforço se descolou dos joelhos, o que o fez cair no chão devido à força resultante e o desequilíbrio decorrente. Depois tentou separar seus braços das pernas, mas quando tirava um membro, logo o mesmo colava em outro, e ficou nesse desafio por muito tempo. Caiu várias vezes no chão, rolou pântano abaixo, e como ele havia ficado anos sem mudar de posição, precisou de outros anos para conseguir voltar ao que era antes.

E de tanto tentar, acabou que seu braço direito grudou bem no centro de seu peito. Faltava apenas isso para que ele conseguisse se desgrudar por completo. Ele já estava cansa-do e irritado com aquilo e começou a puxar seu braço. Nada. Puxou mais, mais e mais. Nada novamente. Ele juntou forças e puxou-o com violência, e a lama ia se desfazendo de seu peito como se tivesse um grude tão forte quanto piche, e à medida que a lama ia se des-prendendo, depois de ter sido duramente esticada, as extremidades separadas balançavam com força como um chicote lançado ao ar, e zuniam como este.

O monstro sentia dor nesse processo e estranhava ao mesmo tempo, pois para liber-tar os outros membros ele não sentia dor. Mas queria se ver livre daquela situação, então puxou com mais força o seu braço, e mais força, e mais força, então, finalmente, conseguiu retirar seu braço de seu peito. Porém retirou algo a mais do que seu braço.

Em meio a uma mão cheia de lama escorrendo, uma esfera luminosa de brilho azul se revelou e o brilho dela era tão forte que o assustou deixando-a cair dentro duma areia mo-vediça. Então, depois de se acostumar com o brilho, o monstro passou a observar mais cal-mamente e a admirar aquela esfera de aspecto forte, devido ao brilho, mas ao mesmo tem-po tinha características de algo tenro e macio. Era uma esfera perfeita, que trazia uma paz, que trazia felicidade. O monstro estava estupefato com aquilo e, de uma forma como nunca sentira antes, estava com o seu coração mais leve, com seus pensamentos mais tranquilos e com os sentimentos mais elevados apenas de olhar para essa esfera. Por um instante, ele havia esquecido de todos os anos que sofrera naquele pântano, da angustia de ficar preso nele. Ele até limpava os seus olhos com mais frequência somente para admirar por mais tem-po aquela esfera.

Mas o solo era movediço e ele começou a engolir a esfera para o interior daquele lo-do. O monstro ficou desesperado e tentou recuperá-la cavando desesperadamente toda aquela lama, mas em vão pois a mesma havia sido encoberta pelo pântano. Em seu desalen-to, ele limpou fortemente a boca, tirando a lama suficiente para que ela ficasse livre para que pudesse gritar, pois aquela dor de perder a esfera era estranhamente maior do que ficar preso aquele pântano. O pântano não merecia o seu sofrimento, mas a esfera sim, e ele gri-tou, e foi um grito forte que ecoou por todas as copas daquelas árvores mortas que cobriam aquela região, e quando o grito atingiu o seu ápice, uma rajada da mesma luz azul da esfera emanou da areia movediça, como uma explosão, espalhando toda a lama para as extremida-des de sua margem e impulsionando o monstro para cima, numa linha vertical perfeita. Ele estava atordoado com a explosão, mas não estava com medo, pelo contrário, estava extasia-do com aquela luz, que o envolvia por completo, que o deixava mais leve tanto fisicamente quanto em seus pensamentos. Na verdade ele não pensava mais em nada, apenas sentia o ar sustentá-lo, era como se estivesse flutuando e sempre, levemente, ia subindo, subindo e subindo, e a luz ia ficando mais e mais forte, até ofuscar sua visão e fazer a sua mente se per-der no tempo.

Então, depois de muito tempo vagando a sua mente nessa substância atemporal, o monstro começou a acordar, e quando abriu os olhos conseguiu, após a sua vista se acostu-mar com a claridade, enxergar um lindo céu azul-celeste, sem nuvens ao redor. Ele se espan-tou, e num pulo se pôs de pé. O solo era diferente do que ele era acostumado. Era areia fina em pequenos grãos invisíveis aos olhos, mas aos milhares formavam um belíssimo tapete bege. Ele olhava para aquela paisagem e ficava ainda mais encantado, pois havia uma imensi-dão infinita de água que envolvia aquele chão de areia. Ele estava numa praia bela, de mar calmo que movimentava suas águas de maneira serena que resultava num som relaxante. Por muito tempo ele ficou ali parado observando o céu, a areia, o mar, tudo. Estava tão feliz daquele lugar não virar pântano por causa dele…

Então, ao longe, ele avistou um pequeno brilho, semelhante a uma estrela, porém bem no meio do mar. Ao observar melhor, viu que se tratava daquela esfera luminosa que ele havia tirado de dentro de si, e sem pestanejar, foi correndo em direção a ela. Quando começou a correr, percebeu estava mais fácil de se locomover, então olhou para si mesmo e percebeu que muito da lama que o encobria havia sumido. Ele parou e começou a analisar-se e percebeu que a lama escorria menos, que não encobriam tanto os seus olhos, nem a sua boca e nem o seu nariz. Ele conseguia ver melhor e respirar melhor e, se quisesse, até mes-mo falar, só que vivera tanto na solidão e impossibilitado de proferir algo que já não sabia dizer uma palavra, preferindo, então ficar no silêncio. Percebeu, também que ele não parecia mais uma bola de lama, mas parecia mais um ser humano, ainda deformado, mas mais hu-mano do que antes. Era um meio monstro, ou um meio humano. Ele preferia meio humano.

Mas sem perder mais tempo, ele correu em direção ao mar para ir de encontro à pe-quena luz emanada da esfera. Ele entrou no mar e, à medida que ia indo mais adiante, a água, que ia cada vez mais encobrindo ele, o meio humano ia ficando cada vez com mais difi-culdade de se locomover. Era impossível continuar andando com toda aquela água que lhe alcançava o seu pescoço. Ele tinha que ficar nas pontas dos pés para conseguir manter sua cabeça fora da água para continuar respirando. Então, repentinamente, ele se sentiu sendo puxado fortemente mar adentro e, por isso, ficou sem conseguir apoiar seus pés no fundo. Sem controle de seu equilíbrio, ele ficou rodopiando dentro da água, engolindo água, total-mente desnorteado. Quando conseguiu enxergar alguma coisa, percebeu uma enorme onda prestes a engoli-lo. Aquilo havia te dado medo, um medo que nunca havia sentido antes.

Então a onda havia quebrado com violência em cima do meio homem. A pancada da água sobre ele foi tão forte que ele ficara atordoado e desnorteado, e por muito tempo fica-va sendo lançado de um lado para o outro em direção ao fundo do mar, sem condições de se mover. Eis que todo o tormento daquela onda havia parado, porém ele estava numa região muito profunda do mar, onde não tinha mais como apoiar os seus pés no fundo. Quando percebeu que estava afundando, apavorou-se.

Ficou desesperado com toda aquela água encobrindo seu rosto, sufocando-o, afo-gando-o. Então debateu-se tentando empurrar as águas para baixo para lhe dar impulso para alcançar a superfície, mas o meio humano não saía do lugar. Ele estava em pânico, com dor no peito devido a falta de ar em seus pulmões. Ele nunca sentira isso. Nunca sentira a sensação de estar morrendo. O tempo nunca passou para ele enquanto era monstro. A lama que o encobria muito tão excessiva e sempre o enclausurou, como uma larva num casulo, e ela bloqueava sua boca e suas narinas ao ponto de ele não respirar por dias. Nunca sentira dor e desespero e ele não entendia porque, naquela situação, ele estava com problemas.

Então, num ato instintivo, ele respirou a água salgada do mar que o envolvia. Ela, ao entrar pelas suas vias aéreas, sentiu um choque em sua cabeça, ao mesmo tempo uma que-da de pressão que deu para sentir em sua espinha, que, aos poucos, ia perdendo a sua sen-sibilidade. Não sentia seus braços, não sentia suas pernas, seus olhos estavam vidrados e não conseguia esboçar qualquer reação de movimento para qualquer parte de seu corpo. O meio humano havia se afogado.

A única coisa que ele conseguia fazer era observar a superfície, ondulante, com o bri-lho do sol em movimento constante diante de seus olhos. Aquele brilho, tão acolhedor, junto com o silêncio do fundo do mar era muito reconfortante. Todo o desespero anterior fora excluído de sua mente, pois a quietude do mar lhe fazia bem, diferente da que ele sentia no pântano, que era pesado e penoso. O mar lhe fazia sentir uma leveza tão grande, de corpo, mente e coração, que mesmo sabendo que estava morrendo, o medo não o importunava mais. Não estava mais preso a preocupações. A única coisa que queria lembrar era da esfera de luz que surgira dentro dele. Ela se assemelhava ao brilho do sol na superfície, mas esse brilho ia ficando cada vez mais longe, pois ele estava afundando mais e mais. Enquanto podia contemplar esse brilho, não ocupou sua mente com preocupações. Quando o brilho ficara cada vez menos nítido, ele fechou os olhos, entrando num sono profundo.

Na escuridão de sua mente, um pequeno ponto de luz surgiu de forma muito presen-te que tomou a atenção do meio humano. Ele focalizou essa luz tentando busca-la, porém não conseguia se mexer. Desconfortável, fez força para abrir os olhos, e quando conseguiu, depois de sua vista deixar de ser turva, se viu deitado sobre uma rocha rubra e quente. Meio zonzo, pôs-se de pé e observou onde estava. Encontrava-se no topo de um penhasco, cujo fundo de seu abismo abrigava um borbulhante, estrondoso e incandescente rio de lava, que batia com violência nas paredes das muralhas em brasa, semelhante ao metal temperado na forja de um ferreiro. O fogo era cuspido como gêiseres no gelo e o ar quente era abundante, abafado, infernal.

Era uma imagem amedrontadora para o meio humano. Ele nunca vira nada parecido na sua vida. Naquele momento ele pensara em todos os lugares que conhecera até então: um pântano podre e morto, uma praia linda e exuberante, as profundezas do mar, sufocan-te, excruciante e aterrador, mas ao mesmo tempo calmo, sereno, silencioso. Agora estava num aglomerado rochoso abrasador, onde tudo a sua volta emanava um calor vulcânico inti-midador. Aquele fim de mundo onde ele se encontrava lhe dava um medo inimaginável. Apesar de não saber o que poderia acontecer com ele caso caísse na lava, tanto poder e au-toridade daquele ser, porque todo o vulcão era um grande ser vivo, já era o suficiente para fazer o meio humano paralisar pavoroso.

Afinal, por que estava naquele lugar? Será que é para onde vai quem morre? Seria um fim muito terrível esse. Mas será que estava morto mesmo, pois vivera tanto tempo iner-te no pântano a ponto de não respirar, será que o fato de ter se asfixiado com a água teria o matado? Eram questões que perdiam importância a cada momento que o rio de lava explodia suas torrentes verticais de fogo.

O meio humano estava acuado. Estava encolhido. Estava tremendo. Estava em pâni-co.

Então ele avistou, em meio às chamas incontroláveis que mais pareciam raios num céu de tempestade, uma pequena luz de brilho azul celeste. Àquela luz. Àquela que saíra de seu peito e que fez toda a sua vida mudar. Ela estava tão bela, tão calma e tão luminosa em meio aquele cenário infernal que o meio humano ficou desesperado em protege-la de um fim terrível que, em questão de segundos, o seu pânico havia desaparecido e seus movimen-tos passaram a respeitar aos seus comandos.

Ele correu pelos caminhos possíveis daquele desfiladeiro em chamas, sem perder de vista o ponto luminoso que, a medida que conseguia desenvolver o seu avanço, ficava cada vez mais e mais nítido. Mas até então ele estava contornando o rio de lava, até o momento em que se deparou com o final do caminho que consistia numa ponte natural de pedra que ligava a região em que ele se encontrava com o penhasco do outro lado do rio fumegante. A lava não era o problema, pois ela estava longe de atingi-lo, mas as colunas de fogo que nasci-am dela e morriam no topo do vulcão que era tão grande que o seu final era invisível para os olhos do meio humano.

As cortinas flamejantes cobriam em intervalos de tempo não sincronizados aquela ponte por inteiro, e mesmo com toda determinação do meio humano de alcançar a esfera luminosa, que estava logo após essa ponte, não pode conter o seu medo e parar de cami-nhar. Aquelas chamas iriam consumi-lo, não tinha jeito.

Então, depois de acalmar e recuperar um pouco seu fôlego, o meio humano perce-beu que a lama que o envolvia estava ficando cada vez mais rígida. Ela estava ficando seca devido ao calor do local. Percebeu também que ele não sentia o mesmo calor infernal de quando chegara ao vulcão. Pensou então que àquela lama, que estava virando pedra, pode-ria protege-lo contra o fogo daquela ponte. Se o fogo o atingisse, ao invés de carboniza-lo, iria secar a lama que o protegeria das demais rajadas ardentes. Era arriscado, mas era a sua única chance.

Ele resolveu testar sua teoria e foi esticando o seu braço direito para dentro da ponte de pedra, esperando que a rajada atingisse-o antes de queimar o seu corpo. Ele foi com cui-dado e muita atenção, e muito medo também, mas na expectativa que estivesse correto em seu raciocínio.

Então as labaredas subiram e encobriram seu braço. Ele ficou assustado. mas não se afastou. O barulho do fogo subindo e o clarão e o calor que as chamas provocavam, deixavam o meio humano diminuído a tanta força e energia exaltada pelas entranhas do vulcão. Passou alguns segundos e a chama baixou. Ele sentira um calor forte, mas suportável, mas dor não. O que ele pensara estava correto. A lama o protegera de ser incendiado. Entretanto sua mão endurecera e os movimentos de seus dedos ficaram interrompidos.

Ele olhou para seu punho inerte, mas não se desesperou. Passar pela ponte abra-sante tinha o seu preço. Seria a prisão eterna naquele mundo infernal e amedrontador. Ficar preso ali seria pior que no pântano. Mas era algo que valia a pena arriscar. Valia a pena correr ponte adentro para ficar ao lado daquela bela e magnifica esfera luminosa.

Analisando melhor… talvez o pântano fosse um lugar pior… já que a luz… lá… não exis-tia…

O meio humano fechou os olhos… sorriu… deixou que todo o medo ficasse de lado… a luz já era sua, pois nascera dele… Não seria um fogo que iria impedi-lo de conquista-la no-vamente… Ele estava decidido… Ele correu!

Ele correu o mais rápido que conseguia e não deixou de perder o foco na esfera de luz. As paredes de fogo se ergueram e encobriram ele. Ele sentiu o calor e ao mesmo tempo todo o seu corpo endurecer. Não podia desistir! Tinha que correr mais e mais rápido! Foi isso que fez. Correu mais e mais e cada vez mais seu corpo ia se tornando um fardo muito pesado para as suas pernas sustentarem. Então, no ímpeto de querer alcançar aquilo que mais alme-java na vida, ele deu um salto que adiantou várias passadas que ele deveria dar para atraves-sar a ponte. Seu esforço obteve êxito, pois ele conseguira atravessar a ponte flamejante.

Mas a lama do corpo do meio humano estava muito quente e isso significava que es-tava ficando cada vez mais dura. Ele se arrastava no chão, pois suas pernas não se moviam mais como deveriam. Tinha que chegar à esfera! Ela estava ali!

Ali…

Estava ficando cada vez mais rígido… mais e mais rígido… Esticou seu braço direito…

Mas a lama virara pedra e o meio humano não conseguia se mexer mais.

Seus olhos eram as únicas coisas que ele conseguia movimentar e eles estavam em lágrimas, pois não admitia que chegara tão longe… para não conseguir conquistar aquilo que tanto queria. Aquilo que saíra de dentro dele e que fizera ele mudar como um ser vivo. Aqui-lo que dera um objetivo e que, por causa disso, vivera as maiores emoções que a vida pode-ria lhe proporcionar. Tudo o que ele viveu para conquistar àquela esfera de luz o fizera trans-formar… O fizera transmutar. Mesmo não sabendo a magnitude que tudo que ele viveu pro-porcionara-lhe, sabia que havia sido de muita importância. Não podia acabar assim…

Não ia acabar assim!

O meio humano esforçou-se o máximo que podia, desprendendo uma energia des-comunal para poder mover alguns milímetros do seu braço direito já esticado. Uma força que o fadigava, mas não o fazia desistir de, pelo menos, encostar na esfera. A sua luta durara ho-ras, dias, meses…

Quando estava prestes a completar um ano, ele estava extremamente fraco e zonzo, mas não ia desistir de continuar a tentar mover seu braço, já que se esforçara por tanto tem-po…

Esticou, esticou, esticou, esticou…

…até que…

Uma lasca rompeu em seu antebraço e aquilo foi o suficiente para proporcionar uma rachadura maior que deixava mais fraco a pedra que o envolvia a força que ele fazia. Uma lasca maior quebrou-se e, enfim, seu dedo encostou na esfera luminosa. Foi preciso apenas uma relada, e a luz penetrou toda aquela rocha que envolvia o meio humano. A luz começou a crescer cada vez mais e ela ia quebrando aos poucos a pedra de seu corpo. Ficou ofuscante, ficou mais penetrante, e aquilo enchia de alegria os olhos e o coração do meio humano. En-fim conseguira alcançar algo que parecia inalcançável e que, estranhamente, encontrava-se incialmente tão perto dele.

A luz brilhou, e brilhou, até tudo ficar branco…

A luz foi ficando mais fraca e os olhos do meio humano conseguia voltar a enxergar qualquer outro tipo de cor para além do branco. Alias, será que era meio humano ainda?

Ele olhou para si mesmo. Já não era mais de lama, que virou pedra. Tinha uma pele bem diferente de consistência diferente do que barro. Tinha dedos e unhas, cabelo, nariz, orelhas e boca. Tinha um rosto. Ele era um humano agora e saber disso o deixara explodir em felicidade. Podia correr com mobilidade melhor, podia enxergar, ouvir e falar melhor, até cantar ele podia. Eram tantas possibilidades que ele nem sabia o que fazer primeiro, e ainda não estava acostumado a sua nova forma que ainda se locomovia de forma atrapalhada, mas isso não o incomodava. O felicitava ainda mais.

Então surgira na sua frente a imagem de um ser de uma beleza tão elevada que ul-trapassava a compreensão de qualquer um que visse. Tinha a forma perfeita e emanava uma energia benéfica que trazia a paz para quem visse. Não foi o contrário para o humano. Estava muito admirado, estonteado e extasiado com aquilo que via. A felicidade de ser humano ainda era menor do que ver o ser na sua frente. Mas quem era? De quem se tratava?

Não bastou muito para entender. Tratava-se da esfera luminosa que saíra de seu pei-to e que tanto lutou para conquista-la, mas o que ele via diante de si, tratava-se da forma real daquela esfera. Esse ser vivo lhe dera vida e por isso lhe dava tanta felicidade. A alma miste-riosa que sentimos sua existência, mas desconhecemos sua origem e seu propósito.

No fundo de seu coração, o humano sentia essa alma, mas nunca nem se quer refleti-ra sobre ela, isso quando ele era monstro, mas a sua vontade de querer se livrar da lama que o cobria fez com que extraísse de dentro do seu peito, de seu coração, aquilo que de melhor havia nele. Viver com a alma liberta, fez o humano enfrentar os mais variados desafios para, no final, ele descobrir sua real natureza, e não o que aparentava ser.

Agora faltava entender todos os mistérios desse ser que habitava em seu interior. Faltava isso para compreender quem ele realmente era, afinal fazia parte dele, não é mes-mo?

Bastou um olhar para o ser interior, que lhe estendeu a mão para acompanha-lo na busca de entender esse mistério. Sem medo, o humano segurou bem firme e ambos cami-nharam juntos rumo ao infinito na busca de respostas, na busca de sua origem.

Essa história não tem fim, mas a sua continuação é para outra ocasião.

André de Godoi Lopes
Enviado por André de Godoi Lopes em 28/07/2018
Código do texto: T6403121
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