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PASTOR DE OVELHAS, PINTOR DE SONHOS



           PASTOR DE OVELHAS E PINTOR DE SONHOS


Nascido de uma família numerosa, o pequeno menino, cedo, muito cedo haveria de revelar interesse pelos animais domésticos.
 Aos três anos já era ele ia buscar os ovos ao galinheiro. Fazia-o com inusitado contentamento, de tal modo que por vezes no caminho, de tão bem tratar os ovos, lá haveria um, que de tanto afago recebido, lhe caía das mãos e se esborrachava no chão. Como ficava triste o pequenito Zé Maria. A mãe confortava-o e dizia-lhe que a galinha amanhã poria outro ovo e deste modo ela mitigava a dor do filho.
Posto que ouvido o “reparo” amigo, o Zé Maria dava um saltito de contentamento como que a libertar-se do peso da tristeza que o ovo partido lhe dera. Aos coelhos ele dava um tratamento ainda mais acalorado. Pegava neles ao colo, dava-lhes beijos e metia-lhes a comida à boca. Desde muito cedo, desenvolveu um gosto muito especial pelos animais domésticos, que escapa ao comum das crianças da sua idade.
Entretanto, é chegada a altura de frequentar a escola do ensino básico, onde irá ter um aproveitamento acima da média. Convém lembrar que ainda antes de sair de casa para a escola, recomendava à mãe que cuidasse bem dos animais. Sempre os animais a ocuparem-lhe o espírito.
Na escola, quando a professora mandava fazer desenhos e o tema era livre, ele desenhava e pintava galinhas, vacas, ovelhas, porcos, cabras…Todos os animais que havia na casa dele, saltavam para o papel. Desenvolveu tanto esse gosto, que não raro era “surpreendido” a pintar os animais, que circulavam no terreiro da casa de lavoura que habitava.
Entretanto é chegado o final da primeira fase de educação escolar e devido às dificuldades financeiras dos pais, não deu continuidade aos estudos, tendo-lhe sido sugerido que escolhesse profissão para futuro. A resposta do Zé Maria não foi demorada, antes peremptória – Quero ser Pastor. Os pais ouviram e disseram-lhe que isso não era profissão. Que ocupava todos os dias do ano sem descanso e que era de parcos rendimentos, que escolhesse ser pedreiro, carpinteiro, mecânico porque se ganhava mais e só se trabalhava oito horas por dia, tendo ainda direito a descansar todos os sábados, domingos, feriados e até poderia gozar férias…Lembravam-lhe que poderia desse modo ter uma vida melhor e não precisaria de andar ao tempo, quer fosse calor, frio, chuva, geada…
Zé Maria ficou triste com as sugestões paternas e meteu-se no quarto a chorar, tendo-se trancado por dentro. Chorou, chorou muito, chorou até mais não. Os pais, fizeram entre si um comentário e concluíram que se ele realmente quiser ser pastor… o melhor seria fazer-lhe a vontade.
Ao fim de duas horas de auto refúgio o Zé Maria saiu do quarto com os olhos ainda vermelhos e inchados do choro convulsivo, mas confiante que o seu desiderato iria ser conseguido. Achou que as sugestões dos pais eram no sentido de o encaminharem para o que lhes parecia melhor, e nessa medida estariam redimidos.
Zé Maria, depois da saída do quarto foi dar uma volta aos animais e deu-lhes mimadamente de comer. Neste entretanto, a mãe foi ao quarto dele e deparou com um desenho em cima da cama. Pegou nele e chamou pelo marido para que viesse ao quarto do filho depressa, enquanto o filho estava para o terreiro entretido com os animais e mostrou-lhe o desenho. Fácil adivinhar: o motivo do desenho era apenas e só os animais que ele agora mesmo estava a cuidar.
O pequenito Zé Maria fez questão de datar o desenho no rodapé, que por certo representará o início da sua futura profissão: Ser Pastor.
Os bons dos pais souberam interpretar e aceitar o desejo do filho que naquele desenho que contemplavam revelava toda a força que vinha do íntimo daquela jovem criança. Pai e mãe olharam-se e decidiram dar todo o apoio ao filho, chamaram-no e disseram-lhe: Zé Maria vais ser pastor. Queremos que te realizes e que sejas feliz, afinal pode-se ser feliz com tão pouco. Tua felicidade é a nossa felicidade.
No fim-de-semana que se aproxima, pai e filho irão comprar algumas reses e deste modo dar início ao rebanho que há-de ocupar profissionalmente o jovem pastor.
Zé Maria nesta altura tinha doze anos e dois bons cães, um pastor alemão puro, chamado Piloto e um rafeiro português de nome Viriato. Este, recebeu o nome em homenagem ao grande pastor Viriato, o líder da tribo Lusitana que confrontou o exército Romano na Península Ibérica e que foi assassinado enquanto dormia, no ano de 139 A.C. por um “colega”, subornado pelo general Romano Servílio Cipião, depois de averbadas sucessivas derrotas com perdas significativas do exército, com resultados humilhantes para a toda poderosa e imponente Roma.
O conjunto do rebanho é inicialmente pouco significativo, dele constando seis ovelhas, um carneiro, quatro cabras e um bode. É este o rebanho que Zé Maria vai guardar nos montes circunvizinhos, na companhia do Piloto e do Viriato, de uma mochila com uma “bucha” para entreter o estômago ou matar a fome e uma garrafa de água que invariavelmente a mãe lhe preparava antes de sair de casa por volta das seis horas da manhã no Verão ou das oito no Inverno. Entre as onze horas e o meio-dia fazia o regresso a casa para almoçar e às quinze horas voltava ao monte, para a saída da tarde. Era assim todos os dias do ano, qualquer que fosse o tempo que estivesse.
Além do cajado, o ícone dos pastores, Zé Maria fazia-se acompanhar de materiais de pintura tais como: Cartolinas, lápis, borrachas, pincéis, tintas, azulejo de pintura… Todo o tempo livre era aproveitado para observar o seu rebanho, que cada ano crescia com o aumento de efectivos nascidos e que Zé Maria com felicidade extrema passava para a cartolina. Quando uma ou outra ovelha se afastava, ele assobiava para que ela ou elas regressassem ao conjunto e se não obedecessem, dava ordens aos cães que as iam buscar de regresso ao rebanho.
Foi neste cenário diário e permanente que Zé Maria haveria de desenvolver toda a sua pintura e actualmente fruto dessa “teimosia” é um dos maiores pintores portugueses da actualidade com exposições e prémios nos mais importantes palcos de exposição NAIF.

Aquele que inicialmente era Pastor de ovelhas e Pintor de Sonhos, virou a Pintor de Sonho e Pastor para Sempre.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 06/10/2007
Código do texto: T683363

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Sobre o autor
Povo Lusitano
Portugal, 62 anos
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Povo Lusitano