NUM CERTO PAÍS, UM CERTO PADRE

NUM CERTO PAÍS, UM CERTO PADRE

Num certo país, algures arrumadinho, vivia-se mais mergulhado na pobreza que na riqueza, mais na alegria que na tristeza, por isso se dizia ser um país Pobrete mas Alegrete.

Este era o traço geral no início do Sec. XX, onde aqui ou ali senhoras ricas e solteironas, que não tinham a quem deixar os seus bens de fortuna, mitigavam a fome que invadia os lares daquele povo simples e obediente como o cão ao mendigo. Pontualmente havia também padres que assimilando a filosofia matricial do Evangelho também se empenhavam em causas. Era o caso do Padre Crisóstomo que ao longo da sua vida pastoral sempre fez evangelização, não de palavra mas de facto. Era assim que o padre se sentia bem, distribuindo os seus já parcos valores patrimoniais, de tal modo que parte da fortuna herdada de tios e tias solteiros, já pouco restava. Era a fazer o bem, que ele se realizava. O único pecadilho que lhe era apontado era o de pontualmente ser visto a rondar a casa de uma viúva já entradota na idade e que ele procurava por necessidade, que a sua natureza de homem lhe exigia.

Vivia só, sem empregada. Umas vezes cozinhava, outras vezes comia graciosamente uma sopa de legumes e feijão com uma fatia de carne de barriga de porco, na casa do sacristão. À noite deitava-se cedo porque no outro dia, às seis da manhã já ele teria de estar na igreja, para a missa matutina. Nesta altura ele teria cerca de 40 anos.

Durante o dia para passar o tempo, além da catequese, ele ajudava nos campos os lavradores no amanho da terra. Vestia pobremente e não raro via-se as meias rotas nos calcanhares. Os serviços religiosos: casamentos, baptizados ou funerais eram feitos graciosamente e deles como pagamento, só recebia bens tirados do campo tais como: pão, feijão, legumes, algum frango ou coelho. Não recebia dinheiro, a menos que fosse de pessoas que tinham condição para pagar. Destes aceitava, porque algum dinheiro lhe iria fazer falta para aquisição de bens indispensáveis. Roupas, chegava a aceitar usadas, desde que fossem escuras. Este homem era o paradigma dos bons sentimentos.

Foi nesta altura, que circulou a notícia de que algo de misterioso teria acontecido numa aldeia, a umas crianças que estavam a divertir-se enquanto guardavam ovelhas, que segundo eles, teriam visto e ouvido uma Senhora que lhes dirigiu a palavra. Sem dúvida que este fenómeno logo recebeu o título de milagre, o qual se iria depressa espalhar, recebendo cada vez mais pessoas a credibilizá-lo.

O Padre Crisóstomo foi um dos que pôs muita fé nesse Milagre da Aparição e transmitiu-o aos seus paroquianos, que cheios de fé se organizaram para visitar in locu, o local da dita aparição. Resta dizer que no regresso vinham extasiados com os relatos ouvidos, que testemunhavam a veracidade do milagre. Foi assim durante muitos e longos anos em peregrinações que se efectuavam duas vezes ou mais no ano, sempre com o Padre Crisóstomo à cabeça da organização desses eventos. As gentes iam felizes e regressavam satisfeitas com as orações à imagem da Santa, que entretanto se havia construído. Padre Crisóstomo tornou-se fervoroso dessa imagem e orava-lhe todos os dias, fazendo-lhe pedidos para minorar as carências e o sofrimento dos seus paroquianos. Assim foi durante anos e anos até que o padre, já velho, começou a questionar-se sobre a veracidade do dito milagre ocorrido, já há mais de 30 anos. Uma coisa que pesou firmemente na sua súbita perda de fé, que em tempos parecia inabalável, era o facto dele nunca ter sido atendido nos pedidos que fazia, chegando a dizer a si mesmo: não fosse eu e muitos dos meus paroquianos já teriam morrido até de fome. O padre Crisóstomo começou a conviver mal com esta dura realidade de os fiéis depositarem esmolas e fazerem pedidos, tantas vezes prementes, como a saúde, que figurava em primeiro lugar na lista de pedidos e nem uma única vez ter havido um sinal de boa vontade da santa para minorar a dor. Dizia ele: se fizessem pedidos para lhes sair a lotaria…até concordava, agora a saúde? A fé no padre fazia-se da conjugação de realidades terrenas à mistura com sobrenaturalidade. E se esta conjugação não ocorria, dizia: de que vale orar se os pedidos se perdem na oração? Talvez, continuava, fosse melhor investir no homem como ente e motor de difusão do bem, do que estar à espera do que nunca virá. As dúvidas dele já chegavam á vida extra terrena. Questionava-se se valeria a pena investir nela ou se neste inferno em que se vive não deveria ser a grande aposta a fazer. Afinal viver tão pouco tempo e ainda sem qualidade vida… Padre Crisóstomo abalado na sua fé procurou na leitura o esclarecimento para esta súbita quebra. Lia títulos tais como: Enigmas de Deus, da Matéria e do Homem, A invenção de Cristo, Porque sou Cristão? O Segredo de Fátima, O Código da Vinci e outros que o poderiam ajudar a consolidar a sua fé ou desmontá-la definitivamente.

Tinha sérias preocupações com a sua consciência e com tudo o gravitava à sua volta. Destas e doutras leituras não saiu o caminho para orientar a sua fé, antes tudo ficou mais baralhado.

Já bastante velho, por volta dos oitenta e cinco anos e sempre sem perder de vista o espírito filantrópico que o seu coração bondoso irradiava e depois de um final de missa matutina, resolveu ficar-se pela sacristia demoradamente e sentado numa cadeira virou-se para uma imagem e descarregou nela toda a descrença a que estava a ser sujeito. Dizia-se traído e enganado durante dezenas de anos e mais, dizia que nunca sentiu qualquer sinal da divindade em face de todo o mal do mundo. A fome e a guerra cada vez mais mortíferas, as doenças, apesar do avanço da medicina e da indústria farmacêutica, cada vez mais sem cura, o materialismo desenfreado que tira a todos para dar a alguns, a desumanização generalizada, os governos e governantes maus e toda a panóplia de maldades… Tudo está muito mal e em tempo algum surgiu um sinal a alertar e a refrear a maldade, dizia o velho padre à imagem que o enfrentava, estática e insensível, acrescentando: Não fossem alguns homens e mulheres de boa vontade, que fazem algo pelo seu semelhante e tudo estaria ainda pior. O padre Crisóstomo no final do seu desabafo deixou cair uma lágrima, que não se sabe de arrependimento, se de mágoa por não poder fazer mais pelo seu “rebanho”. Sente-se doente, exaurido de energias e convicto que nada irá mudar para mal daqueles que precisam de toda a ordem de necessidades.

Depois desta “conversa” a dois, despediu-se da imagem fazendo-lhe um último apelo no sentido de que descesse sobre os carecidos, a bondade divina e virou costas depois de se benzer. Desparamentou-se, meteu a chave na porta, fechou a sacristia e inicia o regresso a casa. Ainda não tinha andado mais de cinco metros e ouve um barulho vindo da sacristia; faz o retorno para ver o que se terá passado e eis que depara com a imagem caída no chão, também ela em lágrimas. O Padre nem queria acreditar no que via e que os seus olhos testemunhavam. Percebeu que o seu apelo teve ouvidos e mais maravilhado ficou quando ao colocar a imagem no local onde estava dependurada, ela lhe dirigiu palavras reconfortantes e de agradecimento pela sua conduta de vida.

Na verdade, a humildade da imagem ao dirigir palavras de agradecimento pela bonomia do Padre Crisóstomo, não foi mais do que um sinal da incapacidade para os entes divinos resolverem dificuldades terrenas, mesmo daqueles que têm inabalável fé.

Na verdade, as religiões não são mais que circos de fé, onde os palhaços e os animaizinhos representam as massas de povo crente, o clero os domadores e a assistência os que vivem à custa dos negócios e indústria subsidiária.