SEXTA-FEIRA 13

SEXTA FEIRA 13

Quando acordei naquele dia de sexta-feira, ao olhar involuntariamente o calendário, vi que era dia treze e, naquele exato momento, um gato miou lá fora. O miado do gato parecia um grito de lamento e dor.

Um leve arrepio perpassou meu corpo, não sei se foi em razão do miado do gato, ou pela fria aragem que acabava de entrar pela janela. As lufadas de ar daquela madruga que se ia, também infundiam certo receio.

Ao levantar-me, procurei colocar no chão primeiramente o pé direito, para tentar fugir de todas as possíveis derrocadas daquele dia, que a superstição cria na mente dos humanos.

Depois do banho, fui até a um pequeno oratório, colocado no canto da sala e depois de várias orações, acendi dois incensos, para afastar de mim não só o medo, mas também as lembranças que vinham de um outro dia como aquele, em tempos distantes, que se perdia no passado.

Antes de sair, olhei novamente o relógio pendurado na parede bem no centro da sala. Queria ver se ele voltara a funcionar, mas, no entanto, estava parado, marcando o mesmo horário de sempre, treze horas. Eu precisava colocar novas pilhas nele.

Entrei no carro também com o pé direito e depois de sentar-me, coloquei a chave na ignição e com leve esforço girei-a, mas, o motor do carro não deu partida, nem mesmo um leve ruído, ouvi. Ainda tentei outras vezes e nada.

Meio chateado com a situação, peguei o celular e liguei para a empresa, para que um funcionário viesse até ali, para resolver o problema do veículo, eu iria de táxi para o serviço. Naquele dia haveria reunião do conselho.

Ao término da reunião, onde nada foi decidido, resolvi mudar de rotina. Liguei para a secretária e disse-lhe iria sair sem hora prevista de retorno. Peguei o celular e lentamente digitei o número dela. Depois de minutos de insistentes toques, resolvi desistir, já que a mensagem ia parar na caixa postal, e ela, nunca abre a dela.

Sem desistir dos planos de mudar a rotina e, especialmente naquele dia que me trazia muitas recordações, sai da sala, entrei no elevador e desci até a garagem, onde um dos carros da empresa já havia sido colocado à minha disposição, já que o meu, resolvera pifar naquele dia.

Antes mesmo de sair dirigindo sem um rumo definido, tentei novamente o número dela, porém, como da vez anterior, só a irritante mensagem remetia-me à caixa.

Liguei o veículo e quando ia saindo da garagem do edifício, um gato, que parece ter surgido do nada, pulou sobre o capô do carro. Diante do inesperado pulo do gato. fiquei arrepiado não por sentir medo, mas talvez pelo susto.

Achei estranho o fato, já que o edifício é composto apenas de salas comerciais e nenhum morador, habita ali perto, razão pela qual fiquei por algum tempo tentando imaginar a origem do inoportuno gato preto que me causara tanto susto.

Enquanto eu dirigia pelas ruas analisava cada fato que tinha ocorrido nos últimos dias. Alguns eram realmente estranhos e somente me apercebia do fato, naquele momento quando tinha tempo suficiente para refletir.

Ao parar o carro no estacionamento do Shopping, debaixo do frondoso pé de ipê amarelo, olhei para os galhos deste para ver se as flores ainda demorariam cair, já que ele, sempre anuncia a primavera e alguns dias ainda faltavam para a chegada desta.

Fui andando e ao entrar pela porta principal, tive que desviar-me da escada, do serviço de manutenção do Shopping, que havia sido colocada perto da entrada para que a equipe de manutenção trocasse algumas luminárias do grande painel frontal do edifício. Em minha cabeça, novas lembranças, medos e superstições vieram como uma torrente chocar-se contra a parte racional ainda muito forte dentro de mim. Sexta feira treze, gatos pretos, escadas e o carro que não pegara. Tudo favorecia para aquele momento de indecisão e receio.

Nada de ruim havia acontecido ainda, mas, eu precisava cuidar-me para que isso não viesse ocorrer, pois agora tinha vários motivos e indicações de que nem tudo, corria as mil maravilhas.

Meu lado racional dizia que eu deveria ir adiante e não preocupar-se, mas, o outro lado, o emocional, pedia que eu recuasse e voltasse para casa e ficasse quieto, para evitar algum mal que poderia ocorrer, em decorrência do dia e dos sinais que tinham vindo de maneira tão clara. Mas, o racional venceu. Entrei no edifício tentando afastar da mente toda e qualquer superstição. Eu não podia criar ambiente propício a um acontecimento que até poderia ser danoso.

Subi pela escada rolante e parei no terceiro piso, na área de alimentação. Pedi um suco de frutas bem gelado e enquanto aguardava o garçom trazer-me o pedido, eu a vi passando despreocupadamente no andar inferior, rumo a uma loja de departamentos. Pensei em chamá-la, mas resolvi que seria melhor tentar o celular, para depois fazer-lhe uma surpresa. Após vários toques, novamente a ordem era que eu deveria deixar um recado na caixa de entrada. Eu detestava celular, principalmente naquelas horas, quanto mais se precisa deles.

Pensei em cancelar o pedido e ir procurá-la, nas lojas que ficavam naquela ala do Shopping, mas a prudência dizia que não deveria afobar-me, pois era um dia em que se deve ter cautela.

Paguei a conta e desci as escadas, meio afobado. Rumei na direção da loja que ficava no início daquele espaço de compras. Entrei em várias lojas, perguntei aos vendedores e após mais de uma hora de procura desisti e tentei novamente o celular. Nada.

Fiquei ainda passeando alguns minutos e depois sai do conjunto, sem esquecer de esquivar-me da escada que se encontrava colocada na porta de entrada. Só entrei no carro após esperar alguns minutos que este esfriasse um pouco, com o ar condicionado ligado e sem um destino ainda definido saí. No caminho resolvi ir até ao apto dela, para tentar encontrá-la ou mesmo saber onde ela poderia estar naquela hora da tarde.

Eu não pretendia esperar o fim do dia, para vê-la ou sair com ela para irmos a algum lugar. Depois poderíamos desfrutar daquelas noites ainda frias, de fim de inverno. Um bom vinho, uma pizza, seria ótimo para terminar a noite.

Parei em frente ao edifício onde ela morava e antes mesmo de descer fiz outra ligação, mas, o maldito aparelho repetia sempre a mesma mensagem.

Desci e dirigi-me ao porteiro, que ao reconhecer-me foi logo dizendo:

- Bom dia doutor. E complementou. Acho que ela não está, pois fui levar umas correspondências e ninguém atendeu a campainha.

- Que hora foi isso?

- Já faz mais de hora. Por quê?

- Por nada, somente por curiosidade. Vou indo, logo que ela chegar diga-lhe que estive aqui, por favor!

- Pode deixar doutor.

- Até logo.

- Até.

Entrei no carro e sem ter para onde ir, resolvi passear num bosque que ficava ali perto, sem esquecer de antes passar em casa para trocar de roupas. Enquanto andava lentamente eu tentava imaginar aonde poderia ela estar. De repente, no outro lado do pequeno lago que existe dentro do parque, eu a vi passando. Ela ainda trajava as mesmas roupas com as quais a vi no Shopping. Desviei o olhar para o relógio e quando olhei novamente em direção dela, havia desaparecido.

Pensei em telefonar-lhe, mas, eu esquecera de trazer o aparelho. Fui em sua direção, no outro lado do lago, procurando-a. Depois de meia hora de exaustiva busca, não a encontrei.

Já passava das sete horas quando voltei para casa que ficava ali perto daquela área de recreação e lazer.

Quando saí do banho, resolvi novamente telefonar. Ao pegar o aparelho vi que havia várias ligações dela. Imediatamente retornei a ligação, mas o aparelho continuava com a mesma mensagem. Sem conter minha frustração e ansiedade, explodi:

- Droga, para que serve essa m... se nunca consigo falar com ninguém.

Depois de vestir minhas roupas, fui até o carro e segui em direção a residência dela. Imaginava que pelo adiantado da hora, ela já deveria ter retornado. Ao chegar à portaria o funcionário agora era outro, e este, a meu pedido, ligou diretamente pelo interfone até o apartamento dela, sem, no entanto obter resposta. Mais uma vez, usei o celular e como nada consegui, resolvi usar um aparelho que ficava em frente ao prédio. Talvez conseguisse falar com o aparelho fixo. Mesmo depois de duas tentativas somente aumentou minha ansiedade.

Sem saber o que fazer, voltei para o carro e sentando-me no banco, liguei o ar condicionado e ali fiquei até as onze e meia da noite, olhando se alguma luz acendia-se em seu apto ou se ela voltava. Cansado e sem nenhuma vontade de continuar resolvi ir embora, pois o frio aumentava durante a noite. Liguei o carro e dirigi-me a uma pizzaria que nós sempre íamos.

Depois do pedido, liguei novamente e como não obtinha resposta eu desisti. Eu já pressentia que não iria vê-la naquela noite. Quando sai para ir ao lavatório, o relógio da pizzaria que ficava em frente à entrada desta, marcava exatamente doze horas.

Ao retornar à mesa, o garçom veio trazer-me a mais absurda das notícias que eu poderia receber naquela noite. Ele disse:

-Doutor, logo que o senhor saiu, sua namorada esteve aqui e deu-me este papel dizendo para entregar-lhe. E Complementou: Eu insisti para que esperasse, mas ela disse que não tinha mais tempo e saiu.

-Obrigado. Disse-lhe enquanto pegava o papel dobrado. Pacientemente fui desdobrando a enorme folha de papel, já imaginando uma despedida ou algo parecido, pois tinha sido aquele dia que passara o mais longo de toda minha vida. Quando abri o papel, nele havia escrito poucas linhas. Somente uma frase. “Procure-me amanhã, em meu apartamento”.

Depois da pizza, saí dali e fui dormir, sem deixar de tentar mais uma vez falar com ela. Foi somente mais uma tentativa frustrada.

No sábado antes mesmo das oito horas, eu já estava pronto para sair e pedir a ela uma explicação que fosse razoável para o seu sumiço durante todo o dia e, além disso, não atender a nenhuma das ligações que eu tinha feito.

Cheguei ao prédio onde ela morava e após poucas palavras, o porteiro discou para o apartamento dela. Após várias tentativas até mesmo com o celular, resolvi chamar um chaveiro para abrir o apto para ver se havia algo de anormal.

Quando a porta foi aberta, eu fiz questão de ter a presença de um dos funcionários do edifício que ficou acompanhando a abertura da fechadura. Entrei e não poderia ter sido pior a minha surpresa. Em cima da cama, ela jazia imóvel, seu corpo frio exibia a rigidez e os odores de um cadáver em processo de putrefação.

Depois de tomar todas as providências que o caso exigia, voltei para casa e esperei o laudo que deveria ser feito sobre as causas da morte e que pudesse determinar o dia e hora do provável desencarne.

Três dias depois do enterro, recebi das mãos do médico do IML, responsável pela perícia o laudo e foi enorme a minha surpresa quando li:

“Causa provável da morte, ataque cardíaco fulminante. Data provável, dia doze do corrente, possivelmente às sete horas da noite”

Diante de tantas interrogações que ficavam sem resposta, inquiri o médico que ainda estava ali em minha frente:

- Doutor, não tem condições de haver enganos sobre a data e hora do falecimento dela?

- Bem, pode haver uma pequena margem de erro, mas devido ao adiantado do estado de putrefação do corpo as expressão de suas faces e outros aspectos que observamos, chegamos a conclusão que ela foi vítima de ataque cardíaco.

- Quanto ao dia e horário, é conclusivo?

- Sem sombra de dúvidas, é o mais aproximado da realidade. Pode ter ocorrido antes ou depois das sete, no entanto, num pequeno espaço de tempo.

- Obrigado!

- De nada, sinto muito.

Sai dali, sem saber se ia conseguir encontrar respostas para vários pontos que ainda eu não conseguira entender. Eu a tinha visto por duas vezes e o garçom também, além dos telefonemas que ela havia feito na sexta feira, um dia depois da morte. Tudo isso fazia o caso ainda mais intrigante.

Enquanto dirigia-me rumo ao escritório, lembrei-me que além destes fatos, havia o bilhete que ela mandara entregar-me, pedindo que a procurasse no dia seguinte. Ao chegar ao escritório fui até a gaveta da escrivaninha, peguei a folha de papel e ao abri-la, vi que a frase havia desaparecido e no lugar desta, apenas uma palavra. “Obrigada”

Aquilo foi a gota dágua que faltava para deixar-me ainda mais intrigado. Sem conseguir entender e encontrar uma solução, simplesmente sentei-me no sofá do escritório e colocando a cabeça entre as mãos solucei, enquanto as lágrimas começaram a escorrer rosto abaixo.

01/07/09 –VEM.

Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 25/07/2009
Reeditado em 17/09/2010
Código do texto: T1718140