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O Sem-Pátria

 Chegou ao Brasil, mais especificamente ao Rio de Janeiro, um sujeito muito suspeito(desculpem-me pelo eco).
 Vestia uma roupa não-convencional a qualquer lugar do mundo. Não andava nu, mas também não andava vestido. Aonde passava, causava aflição no povo, cheio de tabus.
 Seu odor era característico de um lugar desconhecido. Era um doce meio amargo. Causava prazer à primeira vista, mas, passados alguns segundos, irritava profundamente.
 Seus modos de agir eram tão diferentes, que chegara a ser tachado de "exótico" por alguns. Simplesmente não ouvia música, não lia, não andava(rastejava), não rezava, ouvia e respondia sem entender a pergunta(na verdade entendia, só selecionava o que queria ou não ouvir, mas por educação, respondia normalmente as indagações mais esdrúxulas).
 Conheci ele na pizzaria. Engolia os pedaços de pizza euforicamente, e depois cuspia, para em seguida engolir de novo. As pessoas fingiam não olhar para ele, mas olhavam com olhares de espanto e nojo.
Senti que tinha que conhecer mais a fundo aquela criatura. Aproximei-me e disse "oi". Ele me disse a mesma coisa.
Perguntei, então, se ele ia bem. Ele respondeu que sim. Perguntei qual era o tipo preferido de pizza dele. Ele respondeu que estava comendo pela primeira vez uma pizza, e que estava gostando muito.
 Senti ali que poderia manter com ele uma conversa mais profunda. Então, conversamos sobre política, futebol, mulheres, comidas. Ele parecia saber mais sobre tudo isso do que qualquer mortal.
Perguntei se ele queria uma carona. Ele disse que sim. Perguntei aonde poderia deixá-lo. Ele respondeu que poderia deixá-lo na rua. Perguntei se ele não sentiria frio. Aí percebi que ele ficou confuso. Perguntei se ele precisava de alguma coisa, ele disse que não.
Decidi, então, levá-lo para minha casa. Ao dizer isso, ele soltou uma expressão de alegria.
 Ao chegar com ele na minha casa, o sujeito caiu de cara no chão.
Desesperado, sacudi-o. Ele levantou a cabeça, mas não estava com os olhos abertos. Fiz de tudo para acordá-lo, mas ele não esboçava nenhuma reação. Decidi que o melhor a fazer seria dormir, embora estivesse muito assustado com aquele ser, na minha casa, na sala, durante a noite. Não, não conseguiria dormir. Passei a noite em claro, com uma faca na mão, para me proteger. Não sabia o que aquilo tudo representava.
 Três horas depois, ele acordava. Segurei com mais firmeza a faca e apontei na direção dele. Ele pegou a faca e partiu ao meio. Apavorado, não fiz nada. Então ele disse para eu parar de me preocupar, pois ele não machucaria ninguém.
Só vai matar, pensei. Mas logo vi que estava enganado, porque o sujeito realmente não era de violência.
 Passamos, então, a noite conversando. Eu no sofá, eel no chão(cheguei a oferecer-lhe o sofá para sentar, mas ele recusou). Queria saber de onde ele viera, mas não tive coragem para perguntar isso. Nem foi necessário, pois ele logo falou que não viera de lugar nenhum, apenas surgira no nada, foi criado no nada. Descrevia aquele lugar com uma precisão rara. Podia até me imaginar ali, naquele lugar. Achei que era o paraíso. Ele falava que o lugar só tinha uma casa, e todos os moradores daquele lugar moravam naquela casa. Viviam nus, e não havia tabus. O sexo e a sujeira eram incentivados desde a infância. Não havia religião, porque se houvesse, eles se igualariam aos seres humanos, e começaria a haver ganância, ódio, discórdia, egoísmo, sentimentos inexistentes naquela terra de Lugar Nenhum.
Também não havia patriotismo, capitalismo, consumismo e afins. Não havia ideais, o único ideal que havia era o de VIVER. As pessoas não se preocupavam com a aparência externa, se preocupavam com o interno. Quer dizer, não se preocupavam, pois não havia sentimentos ruins.
 Ouvia atento tudo que aquele sujeito me dizia. Tudo. Era impressionante a forma de vida que o povo dele levava. Ouvia atento tudo que ele dizia, até dormir.
 Ao despertar, estava no mesmo lugar, ou seja, sentado no sofá da casa. Mas o Sujeito não. Ele não estava em parte alguma da casa. Procurei, mas não o encontrei.
Apesar disso, guardava firme na memória toda a descrição do lugar em que ele morava.
Podia estar sonhando, talvez. O Sujeito podia ser um sonho meu, algum anjo que veio me dizer que existe uma sociedade melhor do que a que eu vivia existia, mas ele realmente podia existir.
 Passado algum tempo, passou pela minha cabeça a idéia de escrever um livro contando tudo o que o Sujeito havia me dito, mas pensando melhor, desisti da idéia, e hoje faço questão de esquecer tudo aquilo. É melhor mesmo que ninguém, além de mim, saiba dessa sociedade, porque senão vão começar a incomodá-los e levar todos nossos costumes e sentimentos mesquinhos a eles. Aí, adeus a sociedade perfeita que, até eu saber, existia.
Também não sou muito de contar os segredos dos outros para as pessoas. Talvez tenha sido por isso que ele escolheu a mim para descrever sua sociedade.
 Mas de uma coisa posso ter certeza: o Sujeito é o indivíduo mais livre que eu já conheci.

Felmaqui
Enviado por Felmaqui em 07/12/2007
Reeditado em 14/07/2008
Código do texto: T768204

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Sobre o autor
Felmaqui
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 50 anos
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