O E.T. e a transformação do mundo.

O E.T. e a transformação do mundo.

Ele encontrava-se desanimado com toda a maldade, corrupção e as mazelas do mundo, por isso mais uma vez estava naquele lugar ermo, a sós com seus pensamentos. Olhando o céu, viu algo que jamais imaginara.

A princípio uma luz distante se aproximava vindo do espaço. Naquele momento o que não esperava era justamente o que começava a se delinear em sua frente.

Um disco voador.

Tentou de todas as maneiras fugir, esconder-se, porém as pernas se tornaram frágeis para empreender fuga e a única alternativa foi ficar estático, parado e mudo.

A nave pousou suavemente e um enorme silêncio se abateu por toda região. Parecia que todos os seres da natureza estavam naquele momento parados e mudos como ele.

Quando a porta da nave abriu-se, luzes multicoloridas faiscavam intermitentemente, enquanto uma figura se delineava como uma sombra no meio da luz.

O ser que acabara de sair da nave dirigiu-se ao terrestre atônito e sem delongas disse:

- Há muito tempo estamos monitorando a Terra e seus pensamentos. Em virtude disto resolvemos atender seus desejos. Esclarecemos, no entanto, que esta atitude não é comum nem faz parte do projeto desejado, mas em razão de sua vontade resolvemos arriscar.

O pobre médico nem conseguiu movimentar os músculos da boca para tentar articular qualquer sílaba, enquanto o E.T. foi completando sua fala.

- Iremos alterar o comportamento de todos os seres e da própria Terra e o que você imagina ser o paraíso irá tornar-se realidade.

-Temos as capacidade e a nave esta equipada com instrumentos que poderão efetuar toda a tarefa imediatamente.

Voltou-se, entrou na nave e esta partiu rumo ao espaço, ante o espantado médico cheio de boas intenções.

Enquanto a nave se afastava, ele viu um ponto luminoso que se destacava em algum ponto do espaço. Numa órbita prévia determinada, a nave emitiu um raio em direção à Terra e durante quarenta e oito horas, esteve lá parada, enquanto aguardava a terra completar duas órbitas sobre seu eixo.

O pobre médico lembrou-se dos diversos grupos que apregoavam que os E.Ts, iriam salvar a Terra.

Voltou à cidade onde morava, cansado devido às fortes emoções pelas quais passara e logo adormeceu. Só veio a acordar cinqüenta horas depois com as repetidas batidas na porta de sua porta.

Levantou-se e sem jeito foi atender a porta e depois de muitas desculpas convenceu o porteiro, que estivera sob efeito de tranqüilizantes devido forte dor de cabeça.

Sabia que não poderia falar à ninguém o fato ocorrido. Poderia ser taxado de louco. Ficaria calado, talvez até tivesse sido apenas um sonho.

Ao chegar ao consultório notou o alvoroço que estava ocorrendo em todos os cantos. As notícias da televisão diziam que o mundo todo estava passando por uma transformação enorme.

Os criminosos, os presos e até os que se encontravam soltos, haviam-se transformados. Os crimes e os delitos haviam acabado.

Os hospitais estavam sendo esvaziados, em razão da cura completa de todos os doentes que neles se encontravam.

Os países que viviam da venda de armas e munições passaram a desmontar suas armas nucleares e destruir o arsenal que visava destruir e matar seu semelhante. Todos os conflitos haviam cessado.

As fronteiras iam sendo desmontadas, as animosidades e as ideologias haviam acabado. As religiões já não tinham sentido diante de um homem completo, sem medo, dúvidas, dores e sofrimentos.

Durante dois os prisioneiros foram os operários que iam desmontando os antigos presídios que os segregara do mundo.

No terceiro ano o planeta estava totalmente saneado, sem dores, sofrimentos e guerras. O equilíbrio enfim chegara à Terra.

No quarto ano o desemprego começou a preocupar o governo central que se instalara no mundo do mundo.

Os policiais foram sendo dispensados, os médicos, enfermeiros diminuíam diante e de uma clientela que já não existia. Quase todos os serviços iam sendo modificados ou extintos.

Com o fechamento das fábricas de armas e fim dos presídios e dos marginais, diversas indústrias que viviam da segurança fecharam as portas. Fábricas de fechaduras, cadeados, armas, munições e até empresas de seguros, quebraram..

Com o fechamento das fábricas e de diversos serviços, diminuiu drasticamente a arrecadação de impostos e o governo que tentara durante anos ter o povo no emprego, era obrigado a demitir.

As bolsas de valores, os bancos, os grandes conglomerados financeiros fecharam suas portas e multidões foram jogadas na rua sem ganho.

Com o fim das doenças, o setor que se alimentava desta faliu. Indústrias farmacêuticas, laboratórios, farmácias, distribuidores, vendedores acabaram-se diante da falta de consumidor.

O efeito dominó era total e real. Toda atividade ao ser desativada trazia atrás de si uma enorme gama de necessidade e serviços que iam acabando-se. Com o fim do lucro grandes produtores de alimentos e plantadores de trigo, soja, milho e outros gêneros limitavam-se a produzir quase que o necessário para sua sobrevivência.

A mudança de hábitos dos humanos fez com que deixassem de consumir carnes. Frigoríficos e granjeiros deixaram de produzir e em razão disso os rebanhos passaram a ser praticamente para a produção de leite e lácteos. Os criadores de gado de corte faliram e nem tiveram tempo para mudar sua atividade ou que pudessem plantar frutos.

Em diversos países de hábitos diferentes os problemas eram outros, porém enormes. As antigas relações de Comércio Internacional praticamente acabaram.

No quinto anos o desemprego já atingia mais de setenta por cento da população mundial. Os governos não conseguiam manter os empregos públicos, os serviços diminuíam à medida que a necessidade deles seguia o mesmo caminho.

No sexto ano a única indústria que ainda funcionavam e gerava riquezas era a de manutenção e a de produção petróleo, que também já estava sendo substituída por energia solar. Outra gama enorme de serviços estava acabando-se.

No sétimo ano o número de miseráveis aumentava em todos os lugares e os governos locais já não conseguiam manter e alimentar tanta gente. A população aumentava em razão do fim das mortes por doenças guerras e desastres naturais. Mesmo com o forte apelo ao controle da natalidade a população continuava aumentando em mais de e 3% ao ano.

No oitavo ano o impasse estava instalado, o caos era total, o abastecimento estava todo comprometido, a miséria era comum em mais de 80 % da população do planeta. Quase todo parque industrial mundial não passava de sucata.

No nono ano, a mortandade aumentou em razão da fome e de um povo apático que morria lentamente. O homem transformado não cometia delitos e morria à mingua. Todos os recursos existentes estavam-se esgotando.

O médico que se achava responsável por toda aquela babel, não sabia o que fazer para sua própria sobrevivência. Estava em franca miséria, ao perder seus ganhos. Todos os valores e necessidades havia mudando muito rapidamente. Não tinha havido tempo para as transformações graduais.

Cabisbaixo, ele andava de um lado para outro sem saber o que fazer para sobreviver. Num dia quando se dirigia ao consultório, viu uma multidão correndo. Quando perguntou sobre o que havia acontecido, alguém lhe respondeu:

-Houve uma briga dentro da prefeitura por um pedaço de pão e um dos brigões matou ao outro.

Quando ouviu aquelas palavras, lembrou-se de tudo que havia ocorrido nos últimos anos e com um sorriso nos lábios, disse à si mesmo.

“Ainda bem que isto aconteceu, a humanidade ainda tem uma chance”.

Voltou para casa, satisfeito. Ele sabia que a partir daquele dia tudo iria mudar. Haviam quebrado o encanto e tudo voltaria a ser como antes.

Ao acordar no dia seguinte saiu apressado e compreendeu que tudo estava como antes e que aquele pesadelo acabara. E mais uma vez, um pensamento passou por sua cabeça.

“Na evolução da sociedade de um planeta não pode haver saltos. A evolução nunca tem pressa, pois tudo a seu tempo a mudança processa.”

16/01/06-VEM

Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 25/01/2006
Reeditado em 29/08/2008
Código do texto: T103929