O VISITANTE – A Segunda Visita

Depois de despedir-me do cliente com quem conversava, aumentei o volume da música que tocava no computador e voltei a trabalhar no que fazia, antes da chegada dele. Abri novamente a página do word e antes de reiniciar o trabalho, o celular tocou. Imediatamente atendi, pensando que era o interessado em comprar o apartamento, que havia cedido e resolvera pagar o preço que eu pedira.

Mas, ao atender, notei que na tela do celular, havia a mensagem que sempre me irrita, “confidencial”. Não costumo atender a telefonemas onde não posso identificar de imediato meu interlocutor, mas, daquela vez, resolvi mudar meus hábitos e atender, pois, podia ser meu filho, já que ele costuma fazer assim, quando quer falar comigo.

-Alô, alô, quem deseja falar? Perguntei.

- Olá doutor, tudo bem com você?

- Estou ótimo! Quem fala?

- Sou eu, o menino que esteve conversando contigo naquela noite, em seu apartamento.

Quando ele falou de sua estada no apartamento, imediatamente, viajei até aquele dia, onde nós mantivéramos um diálogo interessante e intrigante e muito mais estranho tinha sido sua despedida. Fingi não demonstrar interesse em saber de quem se tratava, mas, mesmo assim o inquiri:

- O que quer, por acaso deseja pregar-me outra peça?

- Olhe, eu não tinha intenção de magoá-lo, com meu modo de sair. Mas, é o melhor meio, sem provocar danos maiores à psique de meus visitados.

- Bem, o que deseja?

- Precisamos conversar novamente e isso exige mais tempo e tem que ser com urgência.

- Tudo bem! Como será a sua chegada desta vez? Falei daquela forma, pois pretendia colocar uma câmara para tentar registrar sua chegada e diálogo.

- Não se preocupe, eu o procuro no momento oportuno, quando as energias não estiverem dispersas. E antes que eu conseguisse articular qualquer palavra, Ele desligou o telefone.

Após aquele momento, pensei que poderia precaver-me e conseguir gravar algum diálogo que iríamos ter para mostrar para alguém e provar que Ele não era apenas fruto de minha imaginação, que, segundo alguns, andava muito criativa.

Aproveitei a oportunidade e certifiquei-me se as câmaras estavam funcionando normalmente e com o novo sistema de som que havia instalado, poderia gravar a voz “Dele”, mesmo que não conseguisse captar sua imagem, poderia gravar o diálogo.

Fiquei na expectativa durante todo o dia, esperando-o a qualquer momento, e, por algumas vezes, imaginei vê-lo do lado de fora da janela observando-me. Mas, tudo aquilo, era apenas fruto de minha imaginação.

Durante todo o resto da semana o aguardei, tanto na hora do serviço no escritório, como à noite em meu apartamento. Eu queria surpreendê-lo, ao recebê-lo queria estar acordado e consciente, para ver como Ele surgia e desaparecia. Porém, as energias deviam estar dispersas, pois não apareceu. Embora eu não soubesse bem o que Ele queria dizer com energias dispersas.

Sábado pela manha, peguei o carro e fui para fazenda de um sobrinho, onde costumo ir e ficar até segunda feira pela manhã. Quando vou à fazenda, retorno completamente refeito da estafante lida do dia a dia. Passar o fim de semana num lugar com vegetação exuberante, entremeada de flores e o canto dos pássaros, é o lugar ideal. É lá, que quase sempre me recolho e algumas vezes até aproveito para ir pescar.

Depois de chegar à sede, guardei as bagagens no quarto, peguei duas varas de bambu, algumas iscas e após vestir-me adequadamente, dirigi-me ao Rio Tocantins. Eu sabia que a possibilidade de pescar era pequena, o rio esta quase sem peixes, em virtude da ação predatória de alguns residentes na região.

Ainda assim, sempre vou ao rio onde fico pescando por horas, observando as ondas que ondulam sobre as pedras e, enquanto os pássaros cantam, ouço o som das águas batendo nas pedras. É um ótimo modo de relaxar. Às vezes até dá sono.

Antes de ir-me embora, sempre me banho nas águas correntes, como num ritual, para tirar as más vibrações que trago da cidade. Talvez, por isso, eu sinta-me tão bem quando retorno da fazenda no início da semana.

Naquele dia, o ambiente estava propício ao banho no final da pescaria. O calor era enorme, o vento parecia haver sumido o que tornava o clima propício ao banho na água corrente com demorados mergulhos nas águas, para refrescar-me.

Quando ia colocar isca pela segunda vez, ouvi alguém falar às minhas costas:

- Troque de isca, o peixe hoje, prefere minhoca.

Eu, que estava absorto no que fazia e pescando com milho, assustei-me ao olhar para traz para ver quem falava. Ele, como da vez anterior, havia chegado, sem que eu soubesse como, e de onde. Desta vez, no entanto, eu seria precavido, não iria beber nada que me oferecesse, para poder ver como Ele se ia. Antes que Ele falasse qualquer outra coisa, eu disse:

- Ora, então é você! Sabe que me assustou, pois não o esperava vê-lo aqui.

Daquela vez falávamos normalmente, sem telepatia.

- Preferia que fosse a seu escritório ou em sua casa?

- Por quê? Perguntei.

- Para gravar ou filmar nosso encontro e diálogo!

- Nada disso, apenas, queria estar bem acomodado com uma caneta e papel para anotar qualquer coisa interessante que viesse falar:

- Não se preocupe, não irá esquecer nada. E depois de alguns segundos falou de forma bem pausada, como se soletrasse cada letra.

- Isso eu prometo. Tudo será como planejamos.

- Planejamos?

- Sim, Eu e Eu.

- Eu e eu, o que quer dizer com isso?

- Nós sempre fazemos o que queremos e nada nos escapa ou acontece sem que haja nossa vontade.

- Entendo menos ainda, hoje está ainda mais enigmático, do que da outra vez.

- Empresta-me uma vara de pesca?

- Claro, mas, você sabe pescar?

E ele respondeu de uma forma, enigmática:

- Eu sempre consigo pegar o peixe que desejo, e a isca que uso, é sempre a mesma.

Entreguei-lhe a vara e a vasilha com iscas, mas, ele as recusou e mesmo com o anzol vazio, sem isca, lanço-o ao rio, enquanto eu em pensamento o questionava: “Afinal o que ele pensa pegar apenas com o anzol, já que até mesmo com iscas é difícil pegar algum peixe aqui?”

Mas, como ele era imprevisível, antes que eu pudesse perceber, recolhia a linha e preso ao anzol, um enorme bagre.

- Espere como conseguiu fazer isto?

- Já lhe disse que pego os peixes que quero e as iscas que uso somente você não vê.

- Ora, deixe de lorotas, deve ter sido um acidente, este mandubê, ter ficado preso em seu anzol. E Arrematei: Eu, com iscas, não consegui nada.

Enquanto eu falava, ele pegou o peixe, falou algo que não entendi e depois o lançou novamente nas águas, no exato momento que a minha vara de pesca vergava-se violentamente, indo sua ponta até a água. Cuidadosamente, mantive-a na posição correta, tentando não dar a ponta da vara para evitar que a linha quebrasse e, depois, de mais ou menos uns cinco minutos, consegui retirar do rio, o primeiro peixe do dia.

Retirei-o do anzol e quando ia colocá-lo no viveiro ele pediu-me para pegá-lo e eu entreguei-o. Ele pegou o peixe e depois de falar novamente algo inteligível, lançou-a as águas e antes que eu o questionasse sobre o fato ele falou-me:

- Cada espécie deve ficar no seu habitat, aqueles que dele são retirados, fenecem.

- Mas, você não podia soltar o único peixe que peguei, sem minha autorização. Quando acabei de falar me arrependi, mas, já era tarde, pois ele sorrindo como sempre fazia de forma zombeteira disse:

- Quer ser comida de peixe?

- Claro que não! Respondi.

- Nem ele dos homens. Ainda não chegou a hora dele.

- Olhe, por acaso veio até aqui para falar sobre ecologia e conservação das espécies. Saiba que eu já defendo isso há muito tempo. E completei.

-Não vejo necessidade de ouvir de você a mesma coisa que falo.

- Eu sei do seu pensamento, o meu, no entanto, você ainda não consegue entender. Por acaso sabe o que eu disse para o peixe antes de soltá-lo?

- Não acredito que tenha falado nada significativo e sim apenas algumas palavras sem sentido.

- Você realmente acredita nisso.

- Na realidade, eu nem mesmo sei em que acredito. Se você existe ou é apenas uma alucinação e às vezes até questiono-me sobre mim mesmo. Depois daquela vez em que apareceu em minha vida quase tudo mudou.

Ele, rindo-se do que eu falava, interrompeu-me com a frase:

- Somente quando vocês estão perdidos é que conseguem se achar, pela procura que fazem.

- O que deseja transmitir com sua fala?

- Apenas dizer que a confusão que reina é fruto da procura e esta só os leva a algum lugar, quando se acham perdidos.

- Olhe eu nunca estive perdido, sempre fui sensato e ponderado e não acho que a confusão em que me acho, leve-me a lugar algum.

-Ótimo, é bom saber que não existe ninguém perdido, e sim apenas confuso. Afinal não será sua confusão, um processo de procura de si mesmo?

- Pode ser, mas, ainda não entendo o real motivo da sua visita, no lugar onde procuro sossego e tento fugir dos problemas da cidade.

- Existe lugar melhor que este, longe dos sons dos carros, das tvs, ou dos gritos daqueles que se encontram desesperados no mundo? Por acaso, não é aqui que encontra a sua paz?

- Sim! É aqui mesmo que encontro paz e refaço-me.

- Então, não existe local melhor, para mudar além do físico a alma. No momento que você respeita as outras espécies elas irão dar-lhe o que precisa. E depois de alguns segundos complementou, pausadamente: A paz que deseja.

- Acho que começo a entender o que pretende dizer.

- Pois é por isso, que longe de todo barulho do mundo o procurei, longe inclusive, de suas câmaras indiscretas e do gravador.

Sorri do que ele disse e falei:

- Sabe que algumas pessoas disseram que nossa conversa anterior, não passava de fruto de minha imaginação e que você não existe de verdade e alguns até me chamaram de louco? Por isso precisava gravar ou filmar qualquer coisa para provar sua existência.

- E eu existo?

- Sei lá, se não existe, com certeza estou louco ou num processo que me leva a loucura.

- Não se preocupe, o mais importante é o que não vê e não aquilo que imagina ser real. Para alguns sou ilusão, para outros, solução.

- Mas, esta história de Deus Criança, é real?

- Se não for, muda alguma coisa ou ele deixa de existir?

- Muda?

- Fui eu quem perguntou, responda-me.

- Acho que não, se Deus é adulto ou criança, em nada muda a crença ou a existência dele.

- Exato, você somente acredita naquilo que pode entender racionalmente e isso é muito mal. As crianças conseguem ver além do físico, porque ainda não foram contaminados pelos preconceitos criados pelos adultos e as religiões.

Ele fez uma breve pausa e continuou:

- Os adultos conceberam um Deus com características humanas, tanto com sua bondade, seus defeitos e até indecisões. Isso está no livro que muitos consideram sagrado.

- A Bíblia?

- Sim este mesmo. Observe que Eu apareço em relatos dos antigos, com todas as características e mazelas humanas. Eu não sou assim, tampouco, faço aquilo que dizem.

-E como você é?

- Deste jeito que me vê. Do jeito que as crianças me vêem. “Eu posso tanto ser um menino, como um peixe que se fisga, ou até um fruto que aos homens e animais alimenta, bem como aos vermes, que por sua vez alimenta os peixes e estes aos homens. Eu estou em tudo, em todos, eu sou o todo”.

- Bem, acho que começo a entender, o que pretende dizer-me:

- Você pensa que entende, por ter ouvido falar do processo integrado da natureza, onde cada espécie serve a outra até voltar à primeira. Ele é um processo contínuo, integrado e circular. Algumas culturas o representam como uma serpente, engolindo-se, pelo próprio rabo.

- E não é a mesma coisa?

- Sim, o que tento dizer-lhe é que começa entender por comparar-me ao que havia ouvido. Você já está contaminado por preconceitos, mas, consegue ir um pouco além dos outros. As crianças, no entanto, não sabem deste processo integrado da natureza e conseguem entender-me. Notou a diferença?

- Agora, entendo onde pretende chegar.

- Se olhar nas escrituras sagradas, nas palavras do Cristo, irá encontrar um trecho onde ele recomenda que o homem volte a ser criança, para entrar nos reinos dos céus. Já viu isso?

- Sim, o que realmente significa?

- Isso que lhe digo. Significa que somente como criança, vocês podem entender quem eu realmente sou. Esta história de céu é apenas uma alegoria.

- Por acaso você já não disse que é Deus?

- Sim de certa forma, pode entender como sendo isso um fato, mas o que realmente sou, é apenas uma forma de fazer-me apresentar aos humanos. Aos animais, posso apresentar-me como um deles, às árvores como elas e muitas vezes sou a água que lhe sacia a sede.

-Mas, o que realmente deseja falar comigo que acha ser tão importante?

- Eu não acho, É. Existem outros como Eu, que neste exato momento agem da mesma forma, com os mesmos objetivos. Não estaríamos aqui, se não fosse urgente a necessidade de mudanças dos homens em relação ao mundo onde vivem.

- Isso eu sei, mas, como mudar toda uma geração que somente acha no lucro o significado da vida? A maioria nem se importa se o mundo se acaba ou não, desde que tenham lucro!

- E você acha certo isso?

- Claro que não! Estou dizendo, e é lógico que sabe que esta é uma verdade, ou seja, uma realidade na maioria da raça humana. E depois de segundos complementei. Como acha que eu, simples mortal, posso atuar para conseguir mudar toda uma cultura que está arraigada dentro de grande maioria dos homens?

- Sempre existem caminhos, onde outros não conseguem andar e, é nestes espaços que você e os outros vão atuar.

- E como acha que iremos encontrar esses espaços dentro de uma sociedade fechada como essa em que vivemos?

- Lembra do que falei ao peixe?

- Não, eu lembro-me de tê-lo ouvido falar alguma coisa, no entanto, nem mesmo sei a que se referia. Achei até que era apenas uma brincadeira que fazia comigo.

- Pois não era. Eu dizia ao peixe, para se alegrar, que eu estava ali, para salvá-lo e você deveria seguir-me.

- E daí, como acha que posso evitar que milhares de outros pescadores, matem e levem peixes para suas casas? Você sabe que nem todos têm o habito de soltar.

- Sei, mas, agindo dentro do inconsciente coletivo, você poderá mudar centenas e milhares de outros homens, quando você pratica este ato de soltar.

- Será que funciona assim?

- Toda a experiência humana na Terra, foi adquirida através da experimentação e sempre surtiu efeito, mesmo que alguns não vejam, está havendo mudança.

Enquanto ouvia o que Ele dizia, minha vara de pesca envergou-se novamente, e como da outra vez, retirei do rio enorme bagre, que após livrá-lo do anzol, joguei-o às águas, mesmo sem esperar qualquer palavra dele. Ele, ao ver meu ato, disse:

- Sempre copiamos os melhores textos e este seu, irá ser imitado por outros milhares em todo o mundo. Não precisa se preocupar em saber se há resultados. Assim como em relação aos peixes, também aos outros animais e vegetais, também podem mudar o inconsciente da toda a raça humana.

- Será que você que se diz Deus, não poderia de uma vez por todas, transformar todos aqueles que são renitentes?

- E que graça teria, minha experiência humana?

- Experiência, por acaso sou apenas uma?

- Mais ou menos, não se esqueça que só me completo com vocês. Preciso que adquiram essa experiência para que eu também possa vivenciá-la e tornar-me mais inteligente e completo. Eu sou a somatória de todos.

- Mas, como, Deus já não é o todo?

-Você reteve conceitos criados pelos antepassados, que na maioria estão errados. Não se esqueça que ainda sou uma criança. Depois que ele falou isso, deu uma sonora gargalhada.

- Quer que eu abandone e rejeite tudo o que sei, só porque você diz que está errado?

- Alguns conceitos devem ser relegados. Deixe que a natureza flua através de você, deixe que eu o preencha para que se complete.

-Mas, eu não estou vazio.

- Ora, até eu às vezes me sinto vazio, embora conheça quase tudo que há nos mundos! Como você acha que me sinto quando estou só? Por acaso pensa que faço tudo isso só por ser bonzinho?

- Eu não sei, responda-me você mesmo.

- Pois bem, sempre que me sinto só, viajo e vou preencher-me ao preencher todos. Faço-me tudo e ocupo espaços aparentemente vazios, pois assim também me sinto. Vocês humanos devem entender que não sou a figura criada pela igreja. É esta uma das razões pelas quais eu adoto este corpo de criança. Nelas, vocês ainda encontram inocência.

Ele parou por alguns segundos enquanto recolhia a linha que estava na água e depois de colocar o bambu encostado no barranco continuou:

-Se eu tivesse aparecido para você como adulto, talvez tivesse tentando me afastar pensando que eu seria algum maluco. Geralmente vocês não sentem medo em relação às crianças. Quando se trata de adulto, agem desta maneira, porque deixaram de ter a criança dentro de si. Sempre vêem no adulto um perigo em potencial e só mudam de opinião, depois de conhecer seu provável inimigo.

Antes que ele continuasse resolvi interrompê-lo, porque eu não encarava todas as pessoas como inimigas, então argumentei:

- Ora, não acho que seja assim, pois já conheci várias pessoas, e algumas delas hoje são amigas e quando as vi pela primeira vez, não as considerava inimigas.

- Engano seu, quando você as conhece, não lhes fala de imediato sobre seus desejos, vontades e segredos. Todos agem assim. Isso é comum onde ainda existe o adversário do amor. Vocês somente conseguem fazer amigos, depois de conhecer e saber sobre a pessoa. As crianças, no entanto, agem de forma totalmente diferente. Não é mesmo?

- É tem razão, mas, o que há de errado nisto? Nosso mundo hoje, está cheio de maus elementos que procuram aproveitar-se de nós.

- E não é, o que eu lhe disse? Se deixarem o ódio e amarem verdadeiramente, como fazem as crianças, irão reencontrar-se consigo e comigo. Neste momento eu me completo e os completo. Então seremos unos e voltarão a viver num paraíso.

- Você é estranho, liga-me dizendo que deseja falar comigo sobre coisas importantes para o futuro do planeta e só fala de mim e de Si. Bem, quero dizer só fala do comportamento dos homens.

- Meu caro, não se transforma o mundo, nem o planeta se não transformarmos os homens. Todo acontecimento sobre a face deste planeta é obra dos homens. A minha ação sobre ele já fiz, a criá-lo e coordenar a criação de tudo que vocês vêem. O trabalho da experimentação, vivenciação ou destruição do mundo onde vivem, é obra de vocês.

- Você não pode dar uma mãozinha, no sentido de corrigir os homens?

- Tudo é uma questão dos conceitos que vocês criaram. Se há um terremoto, um furacão, uma avalanche ou qualquer outro desastre natural que ceifa vidas humanas, vocês dizem que é castigo de Deus, mas, se esquecem que contribuíram e criaram o ambiente propício para o acontecimento. Imagine então, se eu agisse diretamente, no sentido de corrigir os homens? Eu deixaria de ser adorado para ser odiado. Isso não quer dizer que é meu desejo ser adorado. O meu e nosso desejo é ser amado ou compreendido. Não se esqueça que a obra da criação foi minha, a de destruição, de vocês. Por isso lhe disse, que você e os outros escolhidos, devem agir de forma a penetrar no inconsciente coletivo e só assim conseguirão mudar o mundo para que ele volte a ser harmônico.

- Agora estou entendendo o que pretende, embora ache que se desse uma mãozinha, mesmo sem que eles soubessem, seria ótimo.

- Isso, eu já faço, quando estou aqui orientando-o.

Depois ele sentou-se numa pedra que havia na beira do rio, despiu-se completamente e pulou n’agua e nela ficou por mais de dez minutos, nadando, mergulhando e em alguns momentos jogou água em mim. Ele agia como uma criança. Eu, que deixara de ser criança já há muito tempo, não conseguia transmutar-me para ser novamente inocente e feliz. Depois que saiu do rio, falou:

- Já fazia muito tempo que eu não me divertia tanto, foi muito bom. Depois de vestir-se disse:

- Tenho que ir-me, o seu tempo hoje está se esgotando e o meu, aumentando.

- Não entendi nada.

- Em outra ocasião eu disse-lhe que o seu tempo se esgota, o meu eu crio e prolongo, pois sou atemporal. Hoje o seu dia está no fim, pois, terá que voltar para casa, ainda com luz do sol, a noite lhe infunde medo, talvez por não conseguir enxergar os monstros que o medo cria.

Eu consegui entendê-lo, mas, querendo prolongar um pouco mais nossa conversa perguntei:

- Por que não vai comigo até a casa da fazenda?

- Não se preocupe, Eu já estou lá.

- Eu gostaria de tê-lo como companhia pelo caminho.

- Está bem irei contigo, para dar-lhe coragem no retorno para casa.

Abaixei-me para pegar a tralha de pesca e quando retornei a posição ereta, notei que ele já se fora. Ele não cumprira a promessa e resolvera ir-se embora. Depois me lembrei que ele havia dito que estava em tudo, por isso passei acreditar que também estivesse em mim.

Fui caminhando lentamente, segurando com uma das mãos o facão que levava e com a outra, a tralha de pesca. Depois de atravessar um pequeno córrego que há no caminho, vi uma enorme cascavel em posição de ataque logo à frente. Ela agitava o guiso e parecia pronta a saltar sobre mim. Devagarzinho coloquei a tralha no chão, peguei uma pedra e quando ia atirar no réptil, lembrei-me do que ele disse: “Eu posso tanto ser um menino, como um peixe que se fisga, ou até um fruto que aos homens e animais alimenta, bem como aos vermes, que por sua vez alimenta os peixes e estes aos homens. Eu estou em tudo, em todos, eu sou o todo”. Joguei a pedra no chão e resolvendo inovar, falei:

- Cobra, por favor, afaste-se que eu quero passar!

No momento que falei com a cobra olhei para os lados, para ver se não havia alguém me olhando, e que pudesse chamar-me de louco. Quando olhei novamente para o caminho, vi que nada havia onde deveria estar a cobra. Teria sido apenas uma ilusão ou ela se fora no momento em que olhei para os lados? Talvez eu, jamais viesse, a saber, o que era real.

Quando cheguei à fazenda apenas com a tralha, o facão e nenhum peixe, meu sobrinho que me aguardava para o jantar perguntou:

- Cadê os peixes?

Eu que nunca poderia sonhar em contar o que houvera limitei-me a dizer:

- O dia estava péssimo e não consegui pegar nada.

- Ora deixe de brincadeira. Retrucou meu sobrinho.

- Por que brincadeira, não vê que nada trago além da tralha?

- E os peixes que aquele menino nos trouxe, dizendo que você havia mandado para fazer no jantar?

- Você está brincando? Perguntei meio desconfiado.

- Não, venha e olhe você mesmo.

Fui até a cozinha e antes mesmo de abrir as panelas o cheiro exalado dizia que algo estranho havia acontecido. Abri a enorme panela e esta estava cheia de postas de peixe, prontas para serem consumidas.

Durante o jantar, tentando disfarçar e não demonstrar grande interesse, perguntei:

- Que hora foi que ele entregou os peixes?

- Ainda não era quatro, pois nem havia começado o jogo de futebol. Eu estava aguardando para ver na televisão. Por quê?

- Por nada, só por curiosidade e saber se ele não havia ficado brincando pelo caminho.

Enquanto Ele conversava comigo, na beira do rio, também estivera na fazenda.

Meu sobrinho ainda chegou a perguntar:

-Quem era aquele menino? Eu nunca o vi por aqui nas redondezas!

- Eu também não o conheço, ele disse que mora na cidade vizinha e estava de passagem. Menti. Eu não poderia dizer nada sobre ele. Se dissesse ninguém acreditaria. Por isso achei melhor encerrar o assunto e perguntar:

- E aí, quem ganhou o jogo?

Adivinha!

Pela expressão e entonação eu sabia que o time dele havia ganhado, e eu, mais uma vez, tivera a oportunidade de manter proveitosa conversa com um menino que dizia ser; Deus.

17-10-09-VEM.

Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 31/10/2009
Código do texto: T1897313