Só para as gordinhas


     1. Eu tenho muitas amigas gordinhas. Acho-as uma gracinha. São alegres, desinibidas, disponíveis, e, quase todas, têm seios fartos e dadivosos... Porque donas de exuberantes e tentadores bustos, dificilmente elas passam despercebidas. Impossível deixar de admirá-las.
     2. Mas por que me preocupei em destacar-lhes os seios? Já ouço gente dizendo: "Que sujeito libidinoso, ousado! Por que não  se preocupou em ressaltar o caráter e as virtudes de suas amigas gordinhas?"
     3. Podia tê-lo feito. Mas, no momento, basta-me a divina beleza de seus seios. Sem eles, eu não teria como rabiscar boa parte desta descontraída crônica.

     4. Procurando ser o mais sucinto possível, vou contar o que me aconteceu a bordo de um avião, num voo de São Paulo para Salvador.  O céu não era de brigadeiro.
     5. Depois de conhecer essa história, você, meu dileto leitor, vai logo imaginar que este fato se deu há muiiiiiiiitos anos; quando este escriba vivia, com indescritível intensidade, os melhores dias de sua mocidade, já tão distante. Não. Não faz tanto tempo assim. Deu-se há dois ou três anos.

     6. Agora, vamos ao que interessa. Começo, repetindo o que, aliás, todo mundo já sabe de sobra, ou seja, que morro de medo de avião. Tremo e rezo quando estou atravessando a mais inocente e inofensiva turbulência.
     7. Isso depois de ter lido, milhões de vezes, em livros especializados, que nossas aeronaves são feitas para enfrentar o que costumo chamar de os quebra-molas celestes.
     8. Pois bem. Vova eu, como disse, de Sampa para Salvador. Uma  gordinha, quase coroa, exibindo um busto estonteante, emoldurado por um decote provocante e confortável, veio e sentou-se ao meu lado.

     9. Ela me chamara a atenção, momentos antes, ao encontrá-la no saguão do aeroporto de Guarulhos; ou mais precisamente, na fila do chek-in.
     10. Vejam como são as coisas: nunca podia imaginar que justamente ela, com seu atraente decote, repito, seria, durante horas de voo, minha vizinha de poltrona. 

     11. Creiam, meus caros leitores, no que vou lhes dizer: o medo de voar era tão grande que, durante o voo, em nenhum instante, arrisquei uma olhadinha nos graciosos seios da minha companheira de viagem, em exibição gratuita, a oito mil metros de altura...
     12. Pousamos em  Salvador, e ela, inexplicavelmente, desapareceu! Esperei-a na esteira de bagagens, e nada. Até permiti que minha mala desfilasse duas ou três vezes, acho que três, na desgraçada da esteira. Desiludido e P da vida, apanhei minha mala, que já se mostrava irrequieta, a procura de seu abelhudo dono.
     1 3. Não posso negar, que ainda lamento a oportunidade perdida: um pouco mais de ousadia e coragem, e teria, navegando no seu decote, dividido com a gordinha seiúda o medo que, ela e eu, tínhamos de voar. Sim, porque em alguns trechos da viagem, ouvi-a em oração.

     14. Mas, que quero eu dizer às gordinhas; só a elas, independente de lhes elogiar os seios?      Que, segundo andei lendo, houve um tempo em que a gordura, nas mulheres, era sinal de beleza. Leia-se o que disse o escritor gaúcho Moacyr Scliar, no belíssimo artigo intitulado Santas e anoréxicas.
     15. Essa ideia de formosura, a partir das gordurinhas nas mulheres, era, na Idade Média, tão forte, tão marcante, que Catarina de Siena, nascida em 1347, depois santa, recusou alimentos, para não engordar e ser chamada de bela. E Moacyr Scliar ainda cita Santa Madalena de Pazzi (1566-1607) que "via a vontade de comer como uma tentação do Diabo"

     16. Ora, se naquele tempo as gordinhas inspiravam renomados pintores, como Rubens, é porque elas tinham algo que encantava na sua configuração corporal. Hoje não será diferente.
     17. Quando eu morei numa república de estudante, idos de 1958, na justificável volúpia de minha juventude, eu tinha pendurada, na parede do meu quarto, uma gordinha de Rubens.
    Ate que alguém passou por lá, e, com ciúme, deu-lhe destino ignorado...
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 08/01/2009
Reeditado em 05/11/2019
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