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UM LINDO CAVALO ÁRABE
Ysolda Cabral
 
 
Sexta-feira com ares de sexta treze, de uma semana que se esperava o mundo acabar, me pego refletindo o passado quando, ainda mocinha, acreditava que o futuro me traria a felicidade sonhada.
 
Acreditando piamente nisso, encontrava forças para vencer todos os obstáculos que a vida impunha à qualquer garota de minha idade, numa cidade de interior. E, quando a garota, de alguma forma, se destacava da maioria, era preciso que  tivesse fé  redobrada no sonho, caso contrário não sobreviveria ilesa.
 
Por alguma razão eu incomodava uma porção de garotas. Fosse pelo meu jeito de ser, fosse pela alegria que irradiava por onde passava, ou pelos olhares dos garotos, os quais eu não dava muita bola, mas fazia papai ficar muito atento aos horários de me levar e buscar no colégio, mesmo tendo minha irmã mais velha sempre de olho em mim.
 
Contudo, Deus é Pai, muito mais que qualquer pai, fez com que papai fosse viajar, exatamente numa sexta-feira parecida com esta que vivo hoje, aos 58 anos de idade e ainda acreditando que o futuro trará a minha felicidade; que, aproveitando minha irmã em sala de aula, fugi com algumas colegas e fui para o centro da cidade, assistir o desfile de  um circo famoso, o qual acabara de chegar em Caruaru.
 
Na concentração, bem em frente à Coletoria Estadual,  me detive deslumbrada com a visão dos enormes cavalos árabes de crinas imensas. De repente alguém me falou, quase ao meu ouvido:'' se tiver coragem de montá-lo, deixo que desfile com ele. '' Era o dono do circo.
 
E eu, sem vacilar, exclamei: ajude-me a montar!
 
Mais que depressa alguém correu pra contar à mamãe o que eu estava prestes a fazer. Avisou tarde, pois quando ela chegou e com papai a tira-colo, o desfile já estava terminando. Fui então  levada imediatamente pra casa e posta de castigo por vários dias. Nem liguei!
 
A façanha valeu muito à pena. Valeu tanto que nunca esqueci. Devo ainda registrar que, de  todo o ''comboio,''  o meu foi o mais aplaudido. Fiquei famosa!  (Risos)
 
Quem me delatou?  Nunca quis saber!