DOMINGO PEDE CACHIMBO

 
Comparo o dia de domingo ao nosso tradicional “feijão com arroz” da nossa mesa. A gente não abusa como certamente abusaria se todo dia a gente tivesse no lugar dele, por exemplo, lasanha. Ou estrogonofe, etc. O domingo é um pouco disso – não se precisa do extraordinário para “deitar nos seus braços” e curti-lo com sua natural simplicidade. Porque domingo é dia de almoço em família. Dia de ver um filmezinho na TV comendo pipoca com a cabeça no colo da pessoa amada. Dia de ler um jornal “em pessoa” – ali com ele na mão! Domingo é dia, como diz a canção de Rita Lee, “só pra deitar e rolar com você”. Dia preguiçoso? Não acho. Domingo é dia de calmaria.  Dia de reza e de pouca pressa. Dia de ir ao zoológico “dar comida aos macacos”. De ver um bom futebol na televisão ou mesmo no estádio. Ou mesmo de “nada fazer” pela prerrogativa de se ter feito muito durante a semana.
Acho o domingo todo cheio de ritual. Porque domingo que se preza não deixa de ser assim: ritualístico, eclético, anárquico, apoplético. Qual a avó que não adora receber os netos aos domingos? Pois é. Neto é nato e inato é o prazer de ser sem ter essa consciência. Domingo, por assim ser, nos invade e pronto. É um sentimento que se traduz de forma diferenciada na forma, nunca no conteúdo. Até se diz que a felicidade consiste em fazer domingo, por exemplo, numa segunda-feira. Domingo tem eira e tem beira. Beira dentro de nós suavemente e nos toma por inteiro, a despeito das redes sociais e da internet que tem colaborado com o individualismo das pessoas. As famílias, reunidas aos domingos, não conseguem desvencilhar os mais jovens de ficarem ali, ligados no facebook e no watzap. O detalhe positivo é que eles ficam em família curtindo o domingo, embora sem tirarem o celular das mãos. Porque domingo é isso e não se faz pelo fato extraordinário, mas pela simplicidade do ser humano na aureola necessária de sentir-se protegido e feliz. E nenhuma felicidade dispensa a família que não ignora o domingo que não... Não e sim. Porque há quem, deliberadamente seja contra a família e não alcance a firmeza do domingo em sua mais profunda simbologia humana.
E cachimbo? Está aguardando bocas loucas para ser pitado na preguiça positiva dos domingos. Ou não?