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ASSASSINOS DO FUTURO

Feliz da vida o velho mestre adentra a sala dos professores anunciando a façanha: Acaba de "sacanear" pelo menos pouco mais da metade dos alunos. Aplicou uma prova daquelas, sabendo que eles sabiam as questões, mas usou artimanhas nos enunciados e pegou a todos de surpresa, dificultando ao máximo as respostas. Maioria "levou pau", sabe de antemão, e os outros escaparam por pouco, da cilada.
A maior esperança do velho mestre é poder informar no fim do ano àquela turma de alunos indisciplinados a reprovação em massa, no que depender de sua cadeira. Desafiado que se sente pelos alunos, a missão de educar fica para segundo plano, porque ele "não é otário" e vai provar isso. Primeiro vem a vingança, mostrando a todos quem é que manda naquela "porcaria de sala": Ele, o todo-poderoso do cuspe e giz, o Adolfh Hitler da educação (que no seu caso deve ser linha-dura, intolerante, repressora e vingativa) ou eles, os "meros educandos". Os cordeiros do campo de concentração escolar. Os bandidos, na sua concepção distorcida - pelo menos no presente -, nos quais "ninguém dá jeito": A família, a sociedade, muito menos ele, como instituição que deveria salvá-los do futuro indigno que vaticina.
Da turma que amarga a desventura de contar com um mestre como esse, alguns também serão mestres. Pode ser que repitam sobre os alunos futuros a deprimente figura do velho ditador mal formado na instituição escolar e na tão arrotada "faculdade da vida", que é bem mais rica e criteriosa em conteúdos desperdiçados por pessoas, e para profissionais infelizes tanto com quem são quanto com o que fazem.
A indesejável verdade que ronda esses indivíduos é a de que trabalhar, seja qual for o ofício, dá trabalho. Pior ainda, viver dá trabalho. No entanto, ninguém precisaria ser assim, se não aprendesse com os pais, a sociedade, a escola e o poder público a buscar desonradamente uma vida farta e fácil, sem qualquer aborrecimento. Ninguém consegue uma "bênção" dessa natureza honestamente; sem subtrair do próximo; sem passar sobre sonhos, esperanças, dignidades alheios.
Mestres como esse que infecta este relato promoveriam carnificinas diárias se fossem médicos. Bastaria que os pacientes dessem um pouco mais de trabalho. Representassem desafios maiores ao seu ofício e à sua condição de ser humano. Para ser honesto, eles já fazem isso de alguma forma, eliminando ou diminuindo a chance de os nossos jovens terem acesso a uma formação cidadã, com vistas a um futuro de livres pensadores, guerreiros da paz e da personalidade, na construção de um mundo melhor. A sociedade precisa "mestruar", expulsando no fluxo da indignação esses germes que a contagiam simuladamente.
Mais do que todas as outras classes, o educador deve ser exemplo de abnegação e amor à causa. Se há pelejas, litígios, enfrentamentos com os governantes ou empregadores, isso é legítimo dentro da lei e da civilidade. Mas com os governantes e empregadores! Não haja para os alunos, repasse das injustiças que realmente assolam os professores.
Demétrio Sena
Enviado por Demétrio Sena em 04/09/2007
Código do texto: T638036
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Demétrio Sena
Magé - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Demétrio Sena