LEU, O MENDIGO!

LEU, O MENDIGO!

Difícil admitir que exista um mendigo inteligente, educado, dado a bons hábitos, boas maneiras e gentilezas. Mas existe sim. Decerto essa boa educação não lhe vem do estudo, da instrução, da vida circunstancial que leva na presente encarnação, passível de provações, expiações, mas lhe pode vir do espírito, que acumula experiência de outras vidas.

Para quem conhece algum mendigo, não é comum mesmo encontrar algum que seja assim, diferente dos demais: que fale correto, que seja desenvolto no diálogo, que se sinta bem saudando o seu próximo, que não cause temor a outrem, quando se aproxima para pedir algo, enfim, que sempre cause uma boa impressão, mesmo sendo um mendigo.

Dizem que LEU era uma pessoa normal. De familia pobre, teve uma infância simples, mas repleta de brincadeiras próprias da fase pueril. Uma criança que cresceu, recebendo amor, carinho, amparo dos pais. Se chegou a estudar, não continuou os estudos, por um motivo, por outro, o fato é que abandonou a escola.

Tal desinteresse, talvez tenha sido por uma ocorrência na família que lhe foi marcante. Seus pais viviam bem. Em algum momento se desentenderam, e houve a separação, Seu pai foi embora. Coube a sua mãe, continuar criando-o. Leu ficou muito abalado com a ausência do pai em sua vida.

Sua mãe não queria ficar sozinha. Queria arrumar outro companheiro. Queria continuar dividindo a sua vida com alguém que a ajudasse, que a amasse. Só que Leu lhe dizia que que não queria outro pai, queria o seu pai de volta. Ela achou que a birra do filho era por ciúme. E tentava faze-lo compreender que o pai dele não voltaria mais. Que o tempo foi passando e ele não deu mais nenhum sinal de vida. Que abandonou a família por completo. Ainda que fosse só para o visitar.

Um certo dia, sua mãe apareceu com um homem em casa, e lhe disse que o tal moraria com eles, que não seria seu pai, mas faria o papel de pai, que o amaria, sendo-lhe, dali pra frente, o seu padrasto. Leu não gostou da ideia. Ficava todo tempo resmungando pelos cantos da casa. Não quis mais fazer as refeições na mesa, com a nova família formada. E o pior: não parava mais em casa. E quando chegava era de vez em quando, sujo e com as vestes encardidas.

Sua mãe, preocupada com o seu estado, tentava o consolar, o fazer compreender que ele não precisava agir daquele jeito rebelde, abandonando o lar pra ficar nas ruas perambulando como um mendigo. Leu dava de ombros, não lhe dava ouvidos, agia com indiferença. Apenas lhe pedia que queria tomar um banho, fazer uma refeição, lavar suas roupas e depois ir embora de volta pra rua.

Os anos foram passando. O tempo de Leu chegar em casa pra visitar sua mãe foi cada vez mais diminuindo, até não ir mais. No abandono definitivo do lar, ela ainda o procurava, sentindo sua falta, pra dá-lhe o amor, o carinho de mãe, ajudá-lo no que fosse preciso. Quando a via, ele não era agressivo com ela, mas agia com frieza, com desinteresse, e lhe dizia que não precisava de nada dela, e o que precisasse as pessoas lhe davam.

Ainda ficava perto dele, insistindo no apoio, depois ia embora desolada. Com o tempo, vendo que o filho não voltaria mesmo pra casa, deixou até de o procurar, mesmo com uma dor profunda no coração, todavia, eventualmente, tinha notícia dele, através de quem o via.

E assim, Leu se tornou um mendigo. Vivia perambulando andrajoso pelas ruas, pelas praças, perto de pontes, de córregos; deitado em passeios, debaixo de marquises, pedindo aqui e ali, numa casa, noutra; carregando trapos velhos, usados que ele achava ou que as pessoas davam pra ele.

Leu não era propriamente um louco, mas tinha um certo distúrbio psíquico. A ausência do pai em sua vida lhe desencadeou a mudança de comportamento. Não jogava pedra nem corria atrás de ninguém. Era pacífico, inofensivo. De vez em quando entrava numa igreja evangélica pra assistir um culto, com uma conduta digna de aplauso.

Era um mendigo diferenciado. Educado, inteligente, gentil, conversava com as pessoas naturalmente. As pessoas se sentiam bem em o ajudar. Não o temiam. Não o tinham como um louco, mas como um mendigo que, pelos reveses da vida, se achava naquela situação de degradação, de exclusão social. Uma alma aprendendo a melhorar-se, passando pelas provações e expiações existenciais.

Escritor Adilson Fontoura

Adilson Fontoura
Enviado por Adilson Fontoura em 06/02/2019
Reeditado em 28/11/2021
Código do texto: T6568428
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